A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências
A “popular e comercial” freguesia de Santa Rita e sua escolarização
Para analisar quem eram esses sujeitos, que relações forjaram, como a
escolarização afetou suas vidas e como essas relações afetavam a escolarização e o ofício docente, apresento uma reflexão que se divide, para organizar o enfoque de análise, mas que também se mescla, permitindo, portanto, que personagens transitem entre as divisões estabelecidas. Dessa forma, a reflexão se organiza em quatro momentos que visam pensar a freguesia de Santa Rita e sua escolarização; situar a escola pública regida por Pardal e seus sujeitos na localidade; discutir as atividades de pais, encarregados e parentes na dinâmica da cidade; e analisar os rumos e percursos tomados por seus ex-alunos.
A “popular e comercial” freguesia de
Santa Rita e sua escolarização
A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia – uma segunda-feira, do mês de maio – deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar amanhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant’Ana […]. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão. Conto de escola – Machado de Assis
O que a escola pública regida pelo professor Pardal, a infância de
Machado de Assis e o Conto de Escola tinham em comum? Todos possuíam o mesmo cenário, a freguesia de Santa Rita, mais especificamente os arredores do Morro do Livramento. O Morro do Livramento fica situado entre os morros da Conceição e da Providência. Lá nasceu Machado de Assis, autor de Conto de Escola, história que se passa nos arredores do morro. No Largo ou na Rua da Imperatriz, onde começa a Ladeira do Livramento e também a Rua da Princesa, estava a escola pública onde lecionava o professor Pardal. A Rua do Costa, mencionada por Machado como endereço da escola do Conto, era paralela à rua da escola da freguesia de Santa Rita que, talvez, também tivesse a mesma vista do Morro do Livramento descrito por Machado, onde papagaios cortavam o céu azul, empinados pelos meninos. A curiosa coincidência não para por aí. Também há a proximidade temporal. Pardal tornou-se professor público em 1837, Machado nasceu em 1839 e o conto se passa em 1840. O escritor, o professor e a escola, cujas experiências se sucediam no mesmo lugar, nos conduzem a um ambiente da zona urbana carioca, marcado pelo comércio, pela movimentação do porto, pelos jogos dos capoeiras e pela circulação de pessoas de diferentes extratos sociais.
Figura 14 – Recorte da planta da parte central da cidade do Rio de Janeiro (1852). Freguesias assinaladas conforme descrições de Santos (1965)
Fonte: Planta da muito leal e heroica cidade de São Sebastião do
Rio de Janeiro, 1852, Biblioteca Nacional.
Figura 15 – Região ampliada da freguesia de Santa Rita a partir da
planta da figura 14
Criada em 1721, a freguesia de Santa Rita tem esse nome em função de
uma irmandade fundada por Manuel Nascentes Pinto e sua mulher Antonia Maria, que posteriormente teve sua igreja matriz inaugurada no Largo de Santa Rita. Compreende uma área que abrange o início da Rua Direita (atual Rua Primeiro de Março) e sua orla próxima à propriedade do Arsenal da Marinha, estendendo-se até a Gamboa, tendo como limites o Campo de Santana (pertencente à freguesia de igual nome). Esta área inclui os morros de São Bento, da Conceição, Livramento, Saúde, Gamboa e as ilhas de Cobras e de Santa Bárbara (Noronha Santos, 1965).
Juliana Souza (2007), em estudo acerca da ação da Câmara Municipal
durante o Segundo Reinado e da regulação do comércio varejista de alimentos, investigou “as estratégias de negociação e a dinâmica dos conflitos instaurados entre a vereança, o governo central e a população” (p. 10). Ao enfocar algumas freguesias, a autora afirma que a de Santa Rita juntamente com a de Santana se tornaram na segunda metade do século XIX
[…] áreas de grande concentração de trabalhadores pobres, aparecendo no censo de 1872, respectivamente, como as duas freguesias mais populosas da cidade. No processo de expansão geográfica e demográfica do centro urbano, sucessivas reformas afastaram gradativamente a população para essas freguesias, por conta do baixo preço de suas desvalorizadas moradias e pela conveniente distância do centro de atuação dos agentes do poder, do núcleo político-administrativo e comercial da cidade. Configuraram-se, desta forma, como um importante espaço de convívio entre trabalhadores pobres, muitos dos quais vivendo do comércio de alimentos (2007, p. 13).
Segundo a autora, o setor varejista abastecia todo mercado consumidor e
“empregava um grande contingente de trabalhadores, como caixeiros, vendedores ambulantes, locatários de quiosques, ou proprietários de
padarias, quitandas, tavernas, botequins, frege-moscas 1 e casas de secos e molhados” (2007, p. 11). Mobilizava um conjunto de indivíduos que poderiam ter algum tipo de passagem pelas escolas locais, os alunos ou seus responsáveis, como, por exemplo, os proprietários de armazém de secos e molhados, de materiais para obra, sapateiro e relojoeiro que matricularam seus filhos na Escola Pública de Santa Rita.
Juliana Souza também chama atenção para os conflitos entre diversas
instâncias de poder por motivos entre os quais se encontram a normatização das práticas dos trabalhadores do comércio, bem como outras atividades definidas por códigos de posturas, o que igualmente incluía as punições por infrações às normas estabelecidas. Nesse sentido, cabe destacar o nome de Manoel Machado Fagundes, pai de aluno da escola investigada, proprietário de armazém de secos e molhados na Rua da Imperatriz, n.º 30 – endereço informado no mapa de matrícula como também sendo de sua residência –, entre os multados da freguesia de Santa Rita pela “polícia fiscal” (Correio Mercantil, 06 jun. 1850) e de José Joaquim Ferreira Leal, proprietário de pedreira, na lista de multados por infração às posturas municipais da freguesia de Sacramento (Correio Mercantil, 14 dez. 1852). As notas não informam quais os motivos das multas, mas mostram a atuação dos poderes públicos na regulação da cidade que miravam os vários sujeitos que exerciam algum tipo de atividade passível de normatização, como os pais e encarregados de alunos da escola de Santa Rita. Podemos incluir nesse conjunto de multas tomadas pelos sujeitos investigados aquelas por falta nas sessões do júri da Corte e por não acender os lampiões da localidade, entre outras.
A freguesia de Santa Rita era uma área formada pelo exercício de
diversas atividades e onde estavam sediadas diferentes instituições. Nela funcionavam o Trapiche Mauá, a Praça do Mercado da Harmonia, a Cadeia do Aljube na Rua da Prainha, junto à ladeira do Morro da Conceição, a Escola e o Arsenal da Marinha, o Imperial Colégio de D. Pedro II, o Mosteiro dos frades beneditinos, o Liceu Literário Português, várias igrejas e escolas. Os nomes atribuídos aos logradouros da região onde esteve instalada a escola tem uma história relacionada à chegada de D. Teresa Cristina. Em 1843, ela desembarcou e caminhou, em cortejo real, pelos locais que receberam os nomes de Largo da Imperatriz e Rua da Imperatriz. O cais, também chamado da Imperatriz, construído especialmente para a chegada da nova monarca no lugar onde antes ficava o Cais do Valongo, foi recentemente localizado nas obras de recuperação da zona portuária da cidade do Rio de Janeiro, em 2011. Alvo das reformas de Pereira Passos no início do século XX, ele havia desaparecido da paisagem urbana carioca.
Nas proximidades da “região da Imperatriz” – cais, largo e rua –, estavam
situados importantes lugares, como o conjunto de ruas e de acessos ao Morro do Livramento e ao Morro da Conceição, as ruas Larga e Estreita de São Joaquim, a Rua do Príncipe e a Rua da Princesa. O Almanak Laemmert registra a existência de um comércio intenso na área, formado por diversos armazéns, fábricas, lojas, escritórios e oficinas de prestadores de serviços como médicos, alfaiates, carpinteiros, mestres de obra, ferreiros, ourives, pintores, entre outros.
A freguesia tinha sido o local onde também desembarcavam
escravizados, no antigo Cais do Valongo. Cemitérios de africanos e sítios arqueológicos relacionados à escravidão vêm sendo localizados ultimamente na região, compondo o Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana criado pela Prefeitura do Rio de Janeiro. O próprio Morro do Livramento era parte da “Quinta do Livramento”, uma fazenda onde existiam vários escravizados. Segundo relato de Maria Graham, viajante que esteve no Rio entre 1821 e 1823: “Hoje eu vi o Val Longo [Valongo]. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longuíssima rua são depósitos de escravos” (Graham apud Honorato, 2008, p. 77).
Figura 16 – Lugar onde ficava o Cais da Imperatriz, antigo Cais do Valongo (Praça Municipal, fotografia de Augusto Malta, 1904, AGCRJ)
Fonte: Lima et al. (2016).
Conhecer a dinâmica da região também nos permite compreender o
modo de funcionamento da escola que tem o cotidiano perpassado pelas culturas locais, hábitos e costumes da população. A própria rua onde ficava a Escola de Santa Rita possuía diversos estabelecimentos, principalmente os voltados para venda de alimentos, além de oficinas de serralheiros, marceneiros e sapateiros, entre os quais dois armazéns de secos e molhados de propriedade de pais de alunos da escola (João Baptista Coelho e Manuel Machado Fagundes). Nos logradouros próximos à 1ª Escola Pública de Santa Rita também existiam várias outras escolas, entre
públicas e particulares, como pode ser observado no quadro 11, montado com base nos dados do Almanak Laemmert:
Quadro 11 – Estabelecimentos de ensino nas proximidades da Escola
Pública de Santa Rita
Ruas 1850 1854 1860 1864 1874
Largo da N° 121 – 1ª N° 121 – 1ª Imperatriz Escola Escola
pública de pública de meninos da meninos da freguesia de freguesia de Santa Rita Santa Rita (Candido (Candido Pardal) Pardal)
Rua da N° 42 – 1ª N° 121 - 1ª N° 32 – N° 107 – Nº 39 – Imperatriz Escola Escola Colégio das Colégio de Externato
pública de pública de Duas Coroas São João para meninos da meninos de D. Evangelista, meninas de freguesia da Felisberta de Alexandre D. Maria de Santa freguesia Augusta Baptista Castagnier Rita de Santa Soares Gomes Ferrez
(Candido Rita Gonzaga N° 133 – N° 42 – Pardal) (Candido Colégio de Colégio de N° 12 – 1ª Pardal) Santa Santa Escola N° 133 – Prisciliana de Margarida, pública de Colégio de Maria dirigido por meninos da Santa Angélica Margarida freguesia Prisciliana Pestana de Fortunata de de D. Simas Eneas de Almeida. Sacramento Florinda Nº 82 – (Joaquim de Colégio de Sabino Athayde São Luiz de Pinto Pestana Pedro Ribeiro) N° de Simas Adolpho
Fonte: Quadro produzido pela autora a partir das informações do 133 – N° 126 – L’Abbé Almanak Colégio de Colégio de Nº 101 – Laemmert . Santa meninas C lé i d
Ruas Santa meninas Colégio de 1850 1854 1860 1864 1874 Prisciliana de D. Santa Maria Cypriana
Augusta
Mendes
Colégio de N° 107 – Colégio de N° 173 –
D.
Felisberta
Augusta São João
Soares Evangelista,
Gonzaga de G Kemp
Larbeck
Rua do S/N - S/N - N° 102 – N° 114 – Príncipe Colégio de Colégio de Colégio de Colégio de (dos D. Rita de D. Rita de D. Rosa Santa Cajueiros) Cássia Cássia Joaquina da Margarida, de
Alcebíades Alcebíades Silva Braga D. Margarida (internas e (internas e Fortunata de externas) externas) Almeida
N° 128 – N° 118 -
Colégio Aula de
Mercantil Santa Ana, de H. G. D.
Cussen Umbelina
N° 188 – Maria da
Colégio Conceição Escolha da Cruz
Mocidade (meninas) de
Francisco J.
Borges
Fonte: Quadro produzido pela autora a partir das informações do Almanak Laemmert.
Ruas 1850 1854 1860 1864 1874
Rua da S/N - N° 79 – 2ª N° 79 – 2ª N° 138 – 1ª Princesa Colégio de Escola Escola Escola (dos Português e pública de pública de pública de Cajueiros) Francês meninos da meninos da meninos da
freguesia de freguesia de freguesia Santana Santana de Santana (prof. João (prof. João (prof. José José Moreira) Augusto Moreira) Candido
Xavier
Cony)
N° 123 A –
2ª Escola
pública de
meninas da
freguesia
de Santana
(profa.
Zulmira
Elizabeth
Fonte: Quadro produzido pela autora a partir das informações do da Costa Almanak Cirne) Laemmert .
Rua Nova 1ª Escola Nº 80 – 1ª Ruas 1850 1854 1860 1864 1874 do pública de Escola Príncipe meninas da pública de
freguesia de meninos da Santa Rita freguesia
(Prof.ª de Santa
Francisca de Rita Paula de (Candido
Moraes e Pardal) Lima)
Rua da N° 101 – N° 99 – Nº 186 – Saúde Colégio de Colégio de Colégio de
Instrução Instrução Nossa Primária, elementar Senhora da dirigido por (sistema Graça de João Valdetaro), Dona Victorino de dirigido por Florisbela Miranda Manoel da Fonseca
N° 170 – 2ª Ferreira das Nº 91 – Escola Neves Colégio de pública de N° 170 - 2ª D. Rosalina meninos da Escola Preciosa de
freguesia de pública de Sampaio
Santa Rita meninos da (prof. José freguesia de Bernardes Santa Rita Moreira) (prof. José
Bernardes
Moreira)
N° 211 –
Fonte: Quadro produzido pela autora a partir das informações do Colégio deAlmanak Laemmert Santa .
S hi d D
Ruas Sophia, de D. 1850 1854 1860 1864 1874 Firma Maria
Joaquina da
Silva Ramos
Rua do N° 18 – S/N – N° 64 – N° 21 – 2ª Nº 122 – 2ª Livramento Colégio de Colégio de Colégio da Escola Escola
Meninas N° Santa Nossa pública de pública de 122 – Teresa, Senhora da meninas da meninas da Colégio dirigido Conceição, freguesia de freguesia São Pedro pela Sra. de Maria de Santa Rita – de Santa de viúva Jesus da (prof.ª Delfina Rita – Alcântara, Peixoto Cruz Santos, Rosa da Silva (prof.ª dirigido pelo N° 122 – filha da Vasconcellos) Theresa padre José Colégio falecida Leopoldina Mendes de São Pedro professora de Araújo)
Paiva de pública N° 17 – Alcântara, Polucena Colégio de dirigido Maria da Santa Cruz pelo padre Conceição
José Cruz
Mendes de N° 39 (na Paiva Travessa) -
Colégio da
Congregação
Fonte: Quadro produzido pela autora a partir das informações do das irmãsAlmanak Laemmert alemãs do .
Sacro
Ruas Sacro 1850 1854 1860 1864 1874 Coração de
Maria
Morro do Entrada pela Entrada pela Livramento rua de S. rua de S.
Lourenço, Lourenço, Imperial Imperial Instituto dos Instituto dos Surdos- Surdos-mudos, mudos, dirigido pelo dirigido pelo Rev. padre- Rev. padre-mestre Frei mestre Frei João de João de Nossa Nossa Senhora do Senhora do Carmo Carmo
Rua de N° 4 –
São Colégio de
Francisco D. Cypriana
da Prainha Jacintha
Mendes
Travessa N° 1 –
Fonte: Quadro produzido pela autora a partir das informações do Almanak das Colégio de Laemmert. Partilhas D. Ana
Ruas 1850 Rangel de 1854 1860 1864 1874
Bulhões
Rua da N° 16 –
Conceição Aula de
Comercio
da Corte
Rua Larga N° 203 – Imperial Imperial Imperial Imperial de São Colégio de Colégio de Colégio de Colégio de Colégio de Joaquim Português e Pedro II Pedro II Pedro II N° Pedro II
inglês de Instituto 94 - Colégio Mathilde Comercial da de D. Anna Constança Corte de Castro Keating
Rua N° 66 – Estreita de Instituto S. Comercial da Joaquim Corte
Total 12 escolas 11 escolas 11 escolas 14 escolas 12 escolas
Fonte: Quadro produzido pela autora a partir das informações do Almanak Laemmert.
Figura 17 – Perímetro de abrangência do Quadro XI. Recorte da Planta da muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
Fonte: Biblioteca Nacional.
A média de escolas existentes ao redor da Escola Pública da freguesia de
Santa Rita, divulgadas pelo Almanak Laemmert, nesse período, era de doze estabelecimentos. O fato de algumas dessas escolas aparecerem em um determinado ano, mas não no outro, não significa que tenham encerrado suas atividades. Algumas mudaram de endereço, conforme registros do Almanak, saindo do perímetro da vizinhança da escola onde lecionava Pardal.
O quadro dá relevo à variedade de instituições, públicas e particulares,
para meninos e meninas, de aulas avulsas, de ensino primário, secundário e profissionalizante. O Imperial Colégio de D. Pedro II ficava muito próximo da escola de meninos de Santa Rita, o que facilitava, para o professor Pardal, conciliar a docência entre as duas instituições, juntamente com a cadeira de desenho linear e caligrafia do Instituto Comercial da Corte, que durante um período funcionou no prédio do Externato do Colégio de D. Pedro II. Outro aspecto que se destaca é a alocação das escolas públicas, denominadas de outra freguesia, nas ruas de Santa Rita. Entre os possíveis motivos, estavam as dificuldades de se encontrar prédios mais adequados para instalação das escolas e também a especulação imobiliária na freguesia de origem, o que acontecia, principalmente, quando os proprietários tinham conhecimento de que o prédio seria usado para a instalação de uma escola pública.