A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências

“Pede para ser admitido”

O segundo tem a ver com os processos de implementação da Reforma

de 1854, muito debatida pelos historiadores, que conferem um reordenamento jurídico à instrução. Tais processos também permitem estabelecer, segundo Schueler (2002) e Villela (2002a), um movimento de “funcionarização” dos professores da Corte, que não ocorreu sem a participação dos próprios docentes, posto que estava em andamento antes da reforma. Isso não quer dizer que o Regulamento inaugurou uma nova forma de relação, mas contribuiu significativamente para um processo de estabelecimento de relações institucionais mais burocratizadas/ profissionais – vinculado também à “funcionarização” mencionada. Tal burocracia foi centralizada na Inspetoria Geral de Instrução Primária e Secundária da Corte (IGIPSC) e colaborou para produção de um “habitus” profissional. Nesse sentido, levanto questões em torno das etapas burocráticas que compõem o ofício de professor público primário na Corte, começando pela do adjunto e passando pelas nomeações, remoções, exonerações e jubilações, bem como a morte em serviço. As entradas, saídas e mudanças demonstram a dinâmica de procedimentos burocráticos, mas também mobilizam sujeitos, tradições, ideias pedagógicas, jogos políticos e interesses pessoais, assim como agências docentes.

O terceiro momento abarca o período de uma contrapartida mais incisiva

dos professores na relação com o governo. Conforme estudos de Villela (2002a), Schueler (2002) e Lemos (2006) foi um momento em que os professores se reconheceram enquanto categoria, mudando a forma de se relacionarem como governo, assumindo um corpo coletivo, uma agência coletiva. Dessa forma, procuro enfocar as Conferências Pedagógicas e os debates em torno do horário escolar.

As mudanças no modo como os professores se relacionavam com o

governo, analisadas em três momentos, não constituem períodos estanques, nem evolutivos, mas interações propiciadas pelas diferentes maneiras dos sujeitos se apropriarem ou não das ordens legais.

 

“Pede para ser admitido”