A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências
Atividades recreativas
A atuação ligada à religião poderia se dar de outras formas, como a de
Francisco Joaquim Nogueira Neves, que foi padrinho de um “chim” convertido (Diário do Rio de Janeiro, 11 maio 1856). Pardal também foi padrinho de casamento do seu ex-adjunto e professor primário Antonio Ignacio de Mesquita Júnior (Correio Mercantil, 27 abr. 1857). Jose Joaquim Pereira de Azurara foi testemunha de casamento evangélico (A Imprensa Evangélica, 19 dez. 1874). Acerca do caso de Azurara, não foi possível saber se havia sido convidado para ser padrinho por relações de amizade ou parentesco, se o professor frequentava algum espaço de caráter protestante ou se havia se convertido ao protestantismo. Cabe destacar que no período de 1850 a 1900, ocorreu o chamado “protestantismo de missão”, no qual a vinda de protestantes se revestia de um caráter missionário, proselitista, em contraposição à primeira metade do século, em que no chamado “protestantismo de capela” os imigrantes viviam sua religião, mas não faziam proselitismo de sua igreja e escola (Hilsdorf, 1977).
O dito casamento foi celebrado pelo Reverendo Alexander Lastimer
Blackford. Americano, Blackford era pastor missionário da Igreja Evangélica Presbiteriana, na Travessa da Barreira. A Igreja foi fundada em 1862 pelo pastor A. G. Simonton, que havia chegado ao Brasil em 1859, e estava ligada à ação missionária da Igreja Presbiteriana do Norte dos Estados Unidos, que, numa linha de análise que desconsidera o trabalho de Robert Kalley como pastor e missionário, teria sido a primeira a retomar os trabalhos no Brasil de forma permanente. Em 1864, Simonton fundou o jornal A Imprensa Evangélica (Hilsdorf, 1977), periódico em que foi divulgado o casamento do qual Azurara foi padrinho.
Atividades recreativas
Pardal foi membro de diversas sociedades recreativas e musicais, como a
Sociedade de Baile Guanabara, Sociedade Campestre, Club Fluminense, Club Mozart e Sociedade Recreio Dramático Riachuelense. Segundo Silva (2007), várias entidades promotoras de concertos foram criadas na segunda metade do século XIX, como o Club Mozart que teve importante atuação no cenário musical carioca. Apoiada nas pesquisas de Cristina Magaldi, Silva (2007, p. 22) assinala que
[…] os clubes de música também fazem parte do processo de modernização urbano da cidade que teve entre suas principais influências a Inglaterra e França. Os clubes de música propiciaram também um ar cosmopolita para a vida musical na corte tornando-se importantes agentes na promoção de concertos na cidade.
No Club Mozart, Pardal foi secretário (Correio do Brazil, 28 dez. 1872).
Era uma instituição recreativa, fundada em 1867, voltada para o desenvolvimento da música vocal e instrumental. Magaldi (2004) coloca o clube como um espaço frequentado pela elite, que também contou como membro, ocupando o cargo de tesoureiro da instituição, outro professor primário (AL, 1884), Gustavo José Alberto, baiano e negro, segundo Schueler (2008a). Nesse sentido, Silva também destaca o fato de Machado de Assis ter trabalhado como bibliotecário do Club Beethoven por representar a inserção de uma parcela da população em instituições entendidas como elitistas: “apesar do caráter segmentário, essas instituições recreativas possibilitavam uma convivência de diferentes socialmente, mas que estavam ligados em torno de um tipo de divertimento” (p. 24).
Cabe atentar para o fato de que o Club Mozart também teve sua parcela
de contribuição na organização da categoria, pois seu espaço seria usado para reunião de professores em 1884 (Gazeta da Tarde, 26 abr. 1884). A convocatória era seguida de uma numerosa lista de professores, entre os quais quatro mulheres. O professor Gustavo, que era tesoureiro do Club nesse período, não consta na lista, mas pode ter facilitado a autorização para a realização do evento. Tal fato denota o trânsito, a agência e o intercâmbio existentes entre os espaços, sujeitos e atividades que, a princípio, não eram correlatos, mas acabavam se conectando por conta dos sujeitos que os colocavam em funcionamento. As atividades musicais poderiam ser exercidas por professores de maneira autônoma como no caso de Antonio Ignácio de Mesquita Júnior que apresentou no Teatro São Pedro de Alcântara uma sinfonia composta para João Caetano (Diário do Rio de Janeiro, 22 set. 1860). O professor também compôs uma música para o funeral do ex-inspetor Eusébio de Queiroz, em 1868 (Correio Mercantil, 09 jul. 1868).
Figura 30 – Nota de convocatória dos professores
Fonte: Gazeta da Tarde, 26 abr. 1884, Biblioteca Nacional.
Outra instituição administrada por Pardal, enquanto secretário, foi a
Sociedade Campestre. Ele também contou com um colega docente como parte da equipe diretiva no mesmo período, o professor da Escola Pública da freguesia da Candelária, Luiz Thomaz de Oliveira, na condição de procurador (Correio Mercantil, 15 abr. 1860). A parceria com colegas também se deu em outra instituição, a Sociedade Particular Recreio Dramático Riachuelense. Segundo o estatuto de 1877, tinha “por fim promover entre seus associados o recreio e instrução por meio de representações de dramas, tragédias, comedias, etc.”. A sociedade era proprietária de um terreno registrado no próprio estatuto:
Art. 7º Constituem fundo da Sociedade: vinte e dois metros de terreno à rua D. Anna Nery na Estação do Riachuelo e o teatro que se está edificando no mesmo terreno, tudo no valor de vinte contos de réis, representado por duzentas ações de cem mil réis cada uma.
Coincidentemente ou não, o terreno ficava na mesma rua em que Pardal
foi residir na freguesia do Engenho Novo, provavelmente em 1874, ano em que foi exonerado do cargo de subdelegado por motivo de mudança (Diário do Rio de Janeiro, 05 set. 1874). A proximidade geográfica entre residência e sociedade facilitava a presença do professor nos vários cargos que ocupou na diretoria da sociedade.
De acordo com o estatuto de 1877, a administração da sociedade era
composta por uma diretoria de sete membros e de um conselho de dez, todos acionistas. A diretoria era formada pelo presidente, vice-presidente, diretor de cena, 1.º Secretário, 2.º Secretário, tesoureiro e procurador. O professor Pardal ocupou vários cargos. Fez parte do conselho, foi secretário, vice-presidente e presidente. No mesmo período em que era vice-presidente, o professor Augusto Candido Xavier Cony - que nesse momento também se tornava eleitor na freguesia de Santana pelo Partido Liberal -, assumia a comissão de contas da entidade (O Cruzeiro, 13 jun. 1878).
A família de ambos os professores esteve envolvida em diversas
atividades teatrais da Sociedade Riachuelense. A segunda esposa de Pardal, Elysa, participou de várias encenações e recebeu diversos elogios nos jornais por seu talento. A primeira menção localizada foi em um artigo intitulado “Palcos, salões e circos” no jornal Gazeta da Noite (21 jan. 1880). O artigo destaca o brilhantismo da apresentação do drama “Os íntimos”, de Victorien Sardou, na Sociedade Riachuelense e faz a ressalva de que
Não costumamos trazer para estas colunas os nomes dos que, amando a arte, fazem, quase que em família, as oblações aquela imortal Deusa, já porque não é estilo, já porque não devemos ofender as modéstias de quem tão modestamente se oculta. Porém, hoje tomamos a responsabilidade grave de darmos os nomes daqueles que, nos entusiasmando tanto, obrigando-nos a lhes ofender a modéstia dizendo que: A Exma Sra. D. Elysa Pardal no papel de Cecília revelou mais uma vez seus altos talentos e principalmente no terceiro ato quando, com Maurício, luta para deixar sua honra ilesa. Toda a ação, toda a vida, todo o jogo necessários àquela cena foram perfeitamente compreendidos pela Sra. D. Elysa.
A personagem Cecília mesclada à atuação de Elysa foi assunto de outro artigo em edição posterior do jornal. Apesar dos elogios, Elysa fazia parte de um grupo
considerado amador, como pode ser visto nas observações dos jornais. A esposa de Pardal atuou em atividades de outras instituições, como, por exemplo, ao recitar uma poesia na cerimônia de posse da nova administração da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária (A Folha Nova, 02 ago. 1883).
Também fazia teatro amador o filho do professor Augusto Candido Xavier
Cony, de mesmo nome. Cony Júnior estudou na Escola Pública de Santana, onde o pai lecionava e onde ganhou uma medalha prateada, nos prêmios distribuídos aos alunos no ano de 1875 (O Globo, 21 dez. 1875). Cony Júnior fundou um grupo de teatro amador, um ano antes do pai morrer, chamado Grupo Dramático de Ouro, com sede na chácara de sua residência. Era “diretor de cena” e os membros do grupo, com pelo menos quatro da família de Cony, foram fotografados para compor um artigo da Gazeta de Notícias (29 jul. 1905).
Figura 31 – Artigo sobre o Grupo Dramático de Ouro, com sede na chácara da família Cony
Fonte: Gazeta de Notícias, 29 jul. 1905, Biblioteca Nacional.
O envolvimento do professor Augusto Cony com as atividades teatrais
pode ter motivado o filho a se inserir no meio. Durante sua participação no Recreio Riachuelense, Cony teve participação direta na definição das encenações (Gazeta de Notícias, 30 nov. 1881): “A distinta sociedade particular Recreio Dramático Riachuelense dá, na noite de 3 de dezembro, uma recita, na qual se representará o drama Uma Paixão, extraído pelo Sr. Augusto Cony do romance do mesmo título”. O que significaria “extraído”? Uma possibilidade seria a realização de adaptação da obra pelo professor para o formato do gênero teatral.
A Sociedade igualmente serve de exemplo de que as questões políticas
também aparecem sobremaneira nos espaços de lazer. Enquanto Cony, ligado ao Partido Liberal, atuava na parte teatral da Sociedade, o mesmo espaço foi lugar da reunião de eleitores da freguesia do Engenho Novo, em 1882 (AL, 1882), grupo do qual Pardal fazia parte. Também no teatro, tomou posse a diretoria da Associação Libertadora Visconde do Rio Branco da qual Pardal se tornou presidente e que, em discurso, propôs a mudança do nome para Sociedade Abolicionista Visconde do Rio Branco (Gazeta da Tarde, 04 jun. 1883; 07 jun. 1883), como dissemos. Assim como no caso do Club Mozart o lugar era usado para reuniões de outros tipos que não as recreativas.
Tais aspectos não devem ser encarados como mera coincidência. Não
dispomos de mais informações que assinalem o processo que levou à instalação de reuniões de professores em espaços pertencentes a uma instituição de atividade distinta como as recreativas e literárias. No entanto, os sujeitos que transitam por tais lugares devem ser considerados nos processos de agência e articulação social, política e profissional que demandam a mobilização de espaços, pessoas e instituições. Desse modo, cabe demonstrar a lista de instituições, levantada de forma não exaustiva, das quais os professores fizeram parte:
Quadro 25 – Instituições recreativas e literárias
N. Nome Posição
1 Luiz Thomaz de Procurador da Sociedade Campestre
Oliveira (Correio Mercantil, 15 abr. 1860).
2 José Alves da Reunião da Sociedade Alfa Literária (O
Visitação Globo, 19 out. 1874).
3 Carlos Antonio Presidente da Sociedade Alfa literária (O
Coimbra de Gouvea Globo, 12 out. 1874).
4 José Bernardes Sociedade Alfa Literária (O Globo, 29 nov.
Moreira 1875).
Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no Almanak Laemmert.
N. Nome Posição
5 Luiz Augusto dos Reis Sociedade Alfa Literária (O Globo, 29 nov.
1875).
6 Francisco Alves da Discurso na inauguração da Sociedade –
Silva Castilho Instituto Filarmônico (O Apóstolo, 27 fev.
1870).
7 Antonio Cypriano de Primeiro secretário do Instituto Filológico
Figueiredo Carvalho Brasileiro (Jornal da Tarde, 27 abr. 1877); .
8 Manoel José Pereira Presidente da Sociedade Brasileira Ensaios
Frazão literários (AL, 1868).
9 Jose Joaquim Pereira Secretário da Sociedade Musical Rio-
de Azurara Pretana (AL, 1866).
10 Augusto Candido Comissão de contas do Recreio Dramático
Xavier Cony Riachuelense (O Cruzeiro, 13 jun. 1878);
sócio da Associação Literária Gonçalves
Dias (O Paiz, 04 nov. 1884); sócio
benemérito do Congresso Juvenil Literário
(O Paiz, 18 dez. 1885).
11 Januário dos Santos Membro efetivo da Academia filosófica (AL,
Sabino 1856); redator de jornal literário chamado
Cysne (Constitucional, 19 maio 1864).
12 Gustavo José Alberto Tesoureiro do Club Mozart (AL, 1884).
Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no Almanak Laemmert.
A Sociedade Alpha Literária, por exemplo, havia sido fundada por
professores, quatro dos quais listados no quadro acima – Carlos Antonio Coimbra de Gouvea, José Alves da Visitação, José Bernardes Moreira, Luiz Augusto dos Reis –, com o fim, segundo o estatuto de 1871, de “desenvolver e cultivar a inteligência dos sócios”.
Silva (2007, p. 10) afirma que “o desenvolvimento desses clubes se dá
em paralelo ao declínio das reuniões dentro do lar, já que se cria um ambiente próprio à discussão, à audição, aos jogos e à leitura”. Podemos observar igualmente que emergiram como espaços onde professores buscavam um momento para recreação e que, ao mesmo tempo, poderiam funcionar como lugar importante de desenvolvimento de sociabilidades e experiências diversas. Nesse sentido, música, teatro, literatura e demais atividades de caráter recreativo poderiam ser espaços para o lazer como também para fazer política, movimentos sociais e reuniões profissionais, aparentemente alheias ao espaço de diversão, mas com várias conexões.
Os dados mostram que os professores públicos primários, longe de
viverem na obscuridade, como acreditava Almeida de Oliveira em 1873 (2003), possuíam uma inserção variada e bastante ativa na sociedade. Nota-se que tanto o governo quanto a população reconheciam no professor uma figura importante nos processos sociais, podendo auxiliar tanto o governo na tarefa de administrar a sociedade quanto nas associações de iniciativa popular ou elitizada. Cabe assinalar que, nas notas e publicidade das sociedades nos jornais, era comum, ao mencionarem os nomes de seus membros, indicar antes do nome completo a condição de professor. Isso aponta que o processo de profissionalização docente também pode passar pelo reconhecimento da sociedade. Contar com professores públicos primários em seus quadros, poderia conferir mais legitimidade às instituições, auxiliar sua organização e o cumprimento de seus objetivos.
De uma maneira bastante heterogênea, observamos professores
envolvidos em abaixo-assinados tanto para resolução de problemas locais, quanto de maior alcance geográfico, em favor da eleição de políticos; na organização de comissões contra a supressão de trens do subúrbio, quanto em comissões da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional. A atuação e a experiência de professores como sócios, conselheiros e administradores mostram um protagonismo docente na cidade, exercido em diferentes níveis de atuação, instituições e intensidade diversas. De uma forma geral, os professores estavam envolvidos com a ordem, a política, economia, a beneficência, a religiosidade e o lazer na cidade. Apesar dos baixos salários, os professores usavam estratégias variadas e fugiam da representação de um professor passivo, recatado, que teria como única dedicação o ensino.