A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências
Irmandades e ritos religiosos
O investimento de professores em seguros de escravos, de vida e contra
fogo, sugere que possuíam algo que consideravam de valor e que temiam perder, por isso, os seguros possibilitariam uma forma de compensar para eles ou para as famílias perdas e danos de bens. Quanto à subsistência, as sociedades de socorros mútuos e os montepios eram instituições que poderiam conferir auxílio em situações difíceis. A inscrição dos professores em tais instituições pode ter a ver com o fato de não receberem salários condizentes com as suas necessidades e de não haver pensão levando-os a temer as condições em que deixariam suas famílias, após sua morte.
Irmandades e ritos religiosos
Pardal ocupou cargos na administração de três irmandades/devoção:
escrivão e secretário da Irmandade do Apóstolo Evangelista São Matheus; protetor da Devoção da Nossa Senhora da Madre de Deus; e definidor da Irmandade Nossa Senhora da Luz. Nos casos da Irmandade de São Matheus e da Devoção, a atuação de Pardal foi marcada pela autoria e publicação de notas com diversos fins nos jornais.
Enquanto protetor da “Devoção”, em 1860, Pardal convocava os devotos
a mandarem suas esmolas para o endereço da botica no Largo da Imperatriz, n. 121 (Correio Mercantil, 04 out. 1860). O anúncio coloca “botica” entre parênteses, para dar destaque, pois como já mencionado, esse endereço era o mesmo da Escola Pública de Santa Rita.
O processo de formação de um grupo de “devoção” tinha uma trajetória
simples, segundo Cavalcanti (2004). Bastava atingir certo nível de organização, registrar direitos e deveres em um “compromisso”, espécie de estatuto que definia regras disciplinas sem necessidade de oficialização formal: “Poderiam estruturar-se em torno de um oratório de rua, de casa particular, de altar de uma igreja com a permissão da Irmandade proprietária ou de seu pároco” (p. 206). A organização simples permite compreender o local combinado para entrega de esmolas dos devotos, a botica. Lugar conveniente para o “protetor” Pardal, pois era próximo do professor e não atrapalhava as aulas na escola.
Enquanto escrivão e secretário da Irmandade de São Matheus, Pardal
colocava anúncios nos jornais de grande circulação, Diário do Rio de Janeiro e O Mercantil, para divulgar festas em homenagem ao apóstolo, no período entre 1845 e 1850. Nos anúncios se informava que São Matheus estava “ereto” ou se “venera” na Igreja de Nossa Senhora de Lampadosa, local onde era realizada a festa. Tal igreja, localizada na freguesia de Sacramento, aparece na historiografia como um espaço frequentado por negros. Lopes assinala que a Igreja, na primeira metade do século XIX, pertencia a uma irmandade de mulatos, servida por clero negro e abrigava um “cemitério dos africanos abastados” (Lopes, 2006).
Figura 29 – “Enterro de uma mulher negra” de Jean-Baptiste Debret
Fonte: Biblioteca Nacional.
Uma pintura de Jean-Baptiste Debret, chamada “Enterro de uma mulher
negra”, tem como fundo a Igreja (Leenhardt, 2006). A cena, de acordo com Leenhardt, retrata um espaço com forte conotação simbólica:
[…] a igreja aqui representada, Nossa Senhora da Lampadosa, com seus signos religiosos inscritos no pórtico principal e os sinos em uma espécie de campanário erguido sobre um dos lados; a casa do senhor, um sobrado imponente, cujas janelas talhadas em ogivas góticas reforçam o clima eclesiástico para além do seu uso familiar (p. 123).
A imagem, segundo Leenhardt, é tratada como um documento no estudo
dos rituais da vida da população africana no Brasil. Por meio da pintura, ele ressalta, por exemplo, o fato das mulheres africanas estarem familiarizadas com a experiência religiosa católica, por serem obrigadas a seguir com suas patroas os rituais da religião. Tal análise é feita em contraposição à pintura “O enterro do filho de um rei negro”, também de Debret, em que a cena não denota a mesma perspectiva de ordem da pintura “Enterro de uma mulher negra” (Leenhardt, 2006).
Outra informação a respeito dos frequentadores da Igreja aproxima,
novamente, Pardal de um personagem já mencionado. Facioli (2008) afirma que a madrasta de Machado de Assis, após a morte do pai dele em 1851, passou a fabricar e vender doces como meio de sustento. Para ajudar, Machado se tornou auxiliar do sacristão da Igreja de Nossa Senhora de Lampadosa, que Facioli ressalta ser uma das mais importantes irmandades de escravizados, libertos e negros livres. Os caminhos na cidade de Pardal e Machado de Assis mais uma vez se cruzavam.
As características da sociedade brasileira nos Oitocentos tornam bastante
complexa a análise das relações travadas no período, como o modo que Pardal lidou com a questão da escravidão e do abolicionismo. Era membro da diretoria de uma irmandade ereta numa igreja de negros, num momento em que ele possuía escravizado, pois foi nessa época, mais precisamente no final do ano de 1848, que seu escravizado, João Congo, atentou contra sua vida, sendo preso por isto (Correio Mercantil, 31 dez. 1848). Foi membro de uma associação de seguro de escravos e, posteriormente, de uma sociedade abolicionista. Tais fatos ocorreram em fases diferentes de sua vida. O incidente com João Congo se deu quando Pardal tinha 30 anos de idade e a participação na sociedade abolicionista se deu aos 65 anos. Ao transitar por posições distintas, torna complexa a compreensão dos processos e das maneiras do professor se posicionar e agir quanto ao assunto, ao longo do tempo.
Outros professores também compunham a mesa diretora de irmandades,
como Francisco Antonio Augusto de Sá, mesário da Irmandade Santo Antônio dos Pobres e Nossa Senhora dos Prazeres (AL, 1861); José Theodoro Burlamaque, tesoureiro (AL, 1873) e definidor da Irmandade Nossa Senhora da Apresentação do SS. Sacramento da freguesia de Irajá (AL, 1876); Antonio Ignácio Mesquita, devoto da Irmandade do Senhor do Bonfim (Diário do Rio de Janeiro, 27 out. 1868); e José Bernardes Moreira que constava na lista de irmãos e devotos da Irmandade de Nosso Senhor do Bonfim que contribuíram para o translado da imagem do Nosso Senhor do Bonfim para Igreja de Santo Inácio (Correio Mercantil, 11 dez. 1857), era irmão de capela da Irmandade do Nosso Senhor Santo Cristo dos milagres (Diário de Notícias, 21 jun. 1871), secretário da Irmandade do Divino Espírito Santo da freguesia de Santa Rita (AL, 1885) e juiz jubilado da Irmandade do Glorioso Mártir São Braz (Gazeta de Notícias, 08 fev. 1881).