A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências

A Primeira Escola Pública de meninos da freguesia de Santa Rita

O aspecto que se ressalta nas fontes, porém, é o fato de haver uma

significativa quantidade de escolas concentradas em uma mesma região no período. Haveria uma demanda da localidade por escolarização? O número de alunos da escola de Pardal também era consideravelmente grande, o que indica que, se não a frequentavam efetivamente, ao menos tinham um interesse pela escola.

 

A Primeira Escola Pública de meninos da

 

freguesia de Santa Rita

 

A Escola Pública de meninos da freguesia de Santa Rita – que em 1858

passa a ser chamada de 1ª escola em razão da criação de uma 2ª cadeira na freguesia – mudou de endereço várias vezes, sempre nas imediações do Largo da Imperatriz, até o ano de 1877, quando ganhou um prédio próprio, que hoje é ocupado pelo Centro Cultural José Bonifácio. Não foi possível precisar a data de sua criação, mas, segundo informações de Cardoso (1999), parece que funcionava antes mesmo de 1818, ano em que tomou posse o professor Venâncio José da Costa por causa da morte do professor João Esteves de Araújo. Venâncio pediu remoção para freguesia de Paquetá em 1837, o que possibilitou a entrada de Pardal em seu lugar. Diante disso, emerge a hipótese de que a escola tivesse funcionado como aula régia.

Em 1839, Pardal constava numa lista dos professores que usavam o

método mútuo (AGCRJ, códice 10.4.4, f. 3). Alguns anos depois, no entanto, em relatório sucinto ao final da folha de um mapa de alunos de 1855, o delegado da instrução de Santa Rita, José Agostinho Moreira Guimarães, asseverava que o professor, “um dos mais habilitados do Município”, seguia o método “misto, de mútuo e simultâneo”, com 153 alunos. Segundo o delegado, na escola a

 

[…] disciplina é rigorosamente observada, e de tal modo está estabelecida nos hábitos dos escolares que não se achando presente o Professor (como observei em uma das minhas visitas) os meninos guardam toda a regularidade nos movimentos escolares, a decência e aplicação necessárias debaixo das vistas de seus monitores (AGCRJ, Série instrução pública, Códice 14.3.8, 5 abr. 1855).

Entre os motivos de ausência estava a participação em bancas

examinadoras, em sessão do júri e aula no Imperial Colégio de D. Pedro II. Nesse sentido, cabe destacar um documento de 1856 em que o professor pede autorização para deixar a escola a cargo de seu adjunto nas tardes de quinta-feira para dar aula de desenho no Colégio (AGCRJ, códice 10.4.37, f. 10). A solicitação foi atendida e assim nos indica que a escola primária de Santa Rita atendia ao regime de duas sessões diárias, como previsto pelo Regulamento de 1854, e funcionava efetivamente no horário da tarde.

Um quadro chamado “Chave do sistema de ensino” registrado no verso

do mapa de matrícula de 10 de janeiro de 1855 apresenta como o professor distribuía os saberes de três áreas pelas dez classes em que organizava os alunos (AGCRJ, códice 14.3.15). Documentos posteriores sugerem que a divisão adotada pela inspetoria era de oito classes (Relatório da IGIPSC de 1872, anexo 4, p.12). No entanto, não foi possível saber se em 1855 estaria em vigor oficialmente uma divisão de dez classes, ou se tal organização tinha a ver com as concepções do professor.

 

Quadro 12 – Chave do sistema de ensino da escola de Santa Rita

Classes de leitura Classes de escrita Classes de

contabilidade

1ª Alfabeto 1ª Linhas retas oblíquas 1ª Números dígitos

2ª Monossílabas 2ª Das curvas 2ª Dos comp. tos (?)

a (dezenas)

3ª Dissílabas 3ª Letras de corpos 3ª Dos dos (?)

primitivos (centenas em

diante)

4ª Polissílabas 4ª Das de dos (?) e 4ª Adição pequena

asteas superiores

5ª Soletrado 5ª Das de dos (?) e das 5ª Da grande

inferiores

6ª Expositor português 6ª a b c 6ª Subtração

pequena

7ª Simão de Mântua 7ª A B C 7ª Da grande

8ª Historia do Brasil 8ª Bastardo 8ª Multiplicação

9ª Gramática 9ª Bastardinho 9ª Divisão

 

Fonte: Quadro feita pela autora com base em manuscrito do AGCRJ, códice 14.3.15.

Classes de leitura Classes de escrita Classes de

contabilidade

10ª Regência 10ª Cursivo 10ª Frações em diante

Fonte: Quadro feita pela autora com base em manuscrito do AGCRJ, códice 14.3.15.

 

O sistema permitia que o aluno fosse classificado em diferentes classes

em qualquer época do ano, conforme demonstra os mapas de matrícula. A divisão também fazia parte do esquema do ensino mútuo e tinha a ver com os ritmos de aprendizagem: “O termo classe é totalmente exclusivo da noção da arquitetura ou de espaço. Só é entendido em relação à aquisição e ao conhecimento; a primeira classe é a dos iniciantes, e a oitava é a dos que concluem o curso escolar” (Lesage, 1999, p. 13). Cabe destacar que Cardoso (2002) levantou documentos a respeito de materiais didáticos do ensino mútuo e localizou uma Decisão de 16 de agosto de 1833 que mandou distribuir nas escolas tabelas de conteúdo para as classes de leitura e de aritmética. As tabelas dividiam os saberes por 16 classes e alguns dos conteúdos são similares aos listados por Pardal, bem como alguns compêndios, como o Expositor Português e Simão de Mântua. Apesar das diferenças, a semelhança existente entre as duas tabelas poderia sugerir uma reelaboração da prática docente, produzida com o passar dos anos e com as mudanças legais, que levasse em consideração experiências de ensino anteriores, como a do sistema mútuo.

Tal procedimento, que não era exclusivo da escola onde lecionava Pardal,

favorecia um trânsito fluido de alunos, atrelado à permissão de entrada e saída em qualquer época do ano, não sendo preciso esperar o começo de um novo período letivo para serem matriculados, questão que era uma queixa recorrente dos professores. Quando Pardal se tornou diretor das escolas municipais, implementou um programa de ensino mais elaborado e minucioso, baseado no sistema Rapet, como veremos no capítulo IV, que supostamente atenuaria o problema.

O documento também assinala que: “Além das classes acima

mencionadas há ainda as de declamação, doutrina cristã e desenho linear todas formadas pelos alunos da 8ª, 9ª e 10ª classes de leitura e diretamente dirigidas pelo professor”. O desenho linear e a declamação não estavam no conjunto de disciplinas obrigatórias do Regulamento de 1854, nem do Regimento de 1855, e podem assinalar uma agência formativa e a importância que o professor dava a esses saberes na escola elementar. Tais saberes eram ministrados nas classes em que os alunos já deveriam ler correntemente, estudar gramática e regência, multiplicação, divisão e frações. No caso da escrita, era o período da transição do uso da letra bastarda para letra cursiva, que era destinada à última classe, como se fosse o fechamento da aprendizagem da escrita.

Tal aspecto poderia sugerir que os vários alunos que saíam da escola

antes da 10ª classe não teriam aprendido as letras bastarda e cursiva. Não obstante, vale considerar as estratégias dos sujeitos para aprendizagem de saberes e técnicas ainda mais em um espaço compartilhado por alunos que estavam em diferentes fases. Entre eles, vários alunos que estavam na

última classe, como podemos observar na figura 18 (esta parte do mapa corresponde aos alunos mais antigos da escola). No entanto, documentos registram que o professor reclamava do fato de muitos pais retirarem os filhos da escola antes de chegarem à última classe.

Figura 18 – Recorte de foto do mapa de matrícula de 02 de abril de 1855 (AGCRJ)

Fonte: Foto da autora.

A mobília e os objetos de uso das escolas eram definidos pelo Regimento

Interno de 1855. De acordo com o artigo 7, as escolas deveriam ter: a imagem do “Senhor Crucificado”, o retrato do Imperador, um relógio, um armário, mesa com estrado e uma cadeira de braços para o professor, cadeiras para visitantes, bancos e mesas inclinadas com tinteiros fixos, uma ampulheta, mapa do Brasil e da Província do Rio de Janeiro, “um quadro de madeira pintado de preto”, esponja e giz para os exercícios de aritmética e ortografia, um quadro ou mapa com o sistema legal de pesos e medidas e dos valores das moedas do Império, quadros para leitura e com modelos de escrita, ardósias, papel, compêndios para os meninos pobres, ponteiros, cabides para chapéus, réguas com guarnição de metal, talha para água e vasilhas.

Entre os livros usados na escola naquele período estavam o Expositor

Português, Simão de Mântua e História do Brasil, todos incluídos no âmbito do ensino da leitura. Em outros documentos podemos ver outros livros que passaram a ser usados. O ofício do professor pedindo livros em 10 de dezembro de 1861 (AGCRJ, códice 11.2.3, f. 48) serve como exemplo: 50 volumes de gramática, 30 da História Universal, 30 do Epítome da História do Brasil, 40 dos episódios da História Pátria, 50 da coleção de Fábulas, 50 do Catecismo da Doutrina Cristã e 40 de aritmética. São sete tipos de compêndios usados. Mesmo que nem todos os alunos os usassem, por estarem em diferentes etapas de aprendizagem, consiste em uma quantidade considerável para o ensino de primeiras letras, com destaque para o ensino de história. A quantidade requisitada pelo professor também sugere que não eram poucos os alunos que deles faziam uso.

Os livros eram escolhidos pela Inspetoria Geral; portanto, as outras

escolas, a princípio, também poderiam dispor das mesmas obras. Uma reivindicação dos professores era que a Inspetoria, em vez de designar quais livros seriam adotados, aprovasse uma lista geral de livros autorizados para cada saber, deixando a cargo de cada professor escolher quais desses livros seriam usados na sua escola. A medida foi adotada em 1877, por decisão do Ministro do Império, quando foi aprovada a gramática do professor Augusto Cony “sem exclusão de quaisquer livros adotados anteriormente, ficando lícito a cada professor escolher entre as obras aprovadas, a que julgar mais conveniente ao ensino dos alunos” (O Globo, 03 abr. 1877).

Para acompanharmos o posicionamento geográfico da 1ª Escola Pública

em relação às demais (públicas) da mesma freguesia, apresento o quadro

13, com os endereços das escolas que puderam ser rastreadas por meio do Almanak Laemmert e os professores que nelas atuaram por ordem cronológica, com a data de suas nomeações. Cabe alertar que as datas apresentadas possuem uma discrepância de mais ou menos um ano em relação à data real, em decorrência da peculiaridade desse tipo de publicação. Não foram usados os dados dos relatórios da Inspetoria em todos os casos pelo fato de que só passaram a ser feitos a partir de 1855 e por não informarem o endereço das escolas com regularidade. As datas que foram retiradas do Almanak estão sinalizadas pela sigla AL.

 

Quadro 13 – Endereço das escolas públicas primárias da freguesia de

Santa Rita

Escola do sexo Professores Escola do sexo Professoras

masculino com data de feminino com data de

nomeação nomeação

1ª cadeira 1ª cadeira 1ª cadeira 1ª cadeira

Rua da Imperatriz, 1837 - Candido Rua dos 1837 - Francisca 42 (AL, 1844) Matheus de Faria Pescadores, 59 de Paula de

Rua da Imperatriz, Pardal (AL, 1844) Moraes e Lima 121 (AL, 1852) 1874 - Januário Rua das Violas, 1871 - Maria José Largo da dos Santos 121 (AL, 1847) dos Santos Lara

Imperatriz, 121 Sabino Rua das Violas (AL, 1856) Largo 1880 - Antonio 141 (AL, 1850)

da Imperatriz, 125 José Marques Rua d’Alfandega, (AL, 1866) 1889 - Vaga (AL) 133 (AL, 1853)

Rua Nova do Rua do Fogo, 32 Príncipe, esquina (AL, 1856)

com a da Rua das Violas,

 

1868) Rua da Rua Nova do Imperatriz (AL, 95(AL, 1858)

 

Príncipe, 125 (AL, 1861) 1871) Rua Nova Conceição, 7 (AL,

do Príncipe, 80 88 (AL, 1862) Rua da Imperatriz,

 

80 e Rua da Príncipe, 80 (AL, 1863) Imperatriz, 125 Rua da Imperatriz, (AL, 1874) Nova do Príncipe, Rua Nova do (AL, 1873) Rua

103 (AL, 1868)

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nos relatórios da IGIPSC, Praça Municipal, 1 (AL, 1874) documentos manuscritos do AGCRJ e no Almanak Laemmert .

Escola do sexo Rua da Imperatriz, Professores Escola do sexo Professoras

masculino 65 (AL, 1880) com data de feminino com data de

nomeação nomeação

Rua do Príncipe,

80 (AL, 1875)

Rua da Imperatriz,

70 (AL 1876)

Edifício da Rua da

Harmonia, (AL,

1878)

Edifício da Rua da

Harmonia, 62 (AL,

1879) – Onde hoje

funciona o Centro

Cultural José

Bonifácio.

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nos relatórios da IGIPSC, documentos manuscritos do AGCRJ e no Almanak Laemmert.

Escola do sexo Professores Escola do sexo Professoras

masculino com data de feminino com data de

nomeação nomeação

2ª cadeira 2ª cadeira 2ª cadeira 2ª cadeira

Rua da Saúde, 1858 - José Rua do Propósito, 1858 - Delphina 170 (1858) Bernardes Moreira 19 (1858) Rosa da Silva

Largo de Santa 1889 - Vaga (AL) Rua do Vasconcellos Rita, 12 (AL, Livramento, 21 1866 - Alcida 1874) (AL, 1861) Brandelina da

Rua dos Costa Seixas Rua do

Andradas, 87 (AL, 1871 - Vaga (AL) Livramento, 64

1879) 1871 - Thereza (AL, 1868)

Rua da Prainha, Leopoldina de Preenchida (s/e),

 

Rua S. Joaquim, (Depois passa a Rua do se chamar 132 (AL, 1889) 138 (AL, 1882) Araujo (AL, 1872)

vaga Thereza Livramento, 122

Rua do Leopoldina de (AL, 1873)

Livramento, 130 Araujo Jacobina)

(AL, 1875) Edifício 1881 - Amélia da Rua da Emilia da Silva

Harmonia, 62(AL, Santos 1878) – Mesmo

prédio da 1ª

escola de

meninos.

3ª cadeira – 1871 3ª cadeira 3ª cadeira – 3ª cadeira

AL -- 1871 - Vaga (AL) Praça Municipal 1871 - Josepha

Rua Senador 1877 - Não 1D (1872) Thomazia da Pompeu, 23 (AL, mencionada (AL) Largo de Santa Costa Passos

1882) Rita, 14 (AL, 1872 - Luiza 1878 - Agostinho Rua Imperatriz, 1 1874) Joaquina de José Soares

(AL, 1889) Queiroz Paiva Brazil (AL) Rua da Saúde,

109 (AL, 1878) Mendes

Rua dos Ourives,

185 (AL, 1789)

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nos relatórios da IGIPSC, documentos manuscritos do AGCRJ e no Almanak Laemmert.

Os diversos endereços que cada escola ocupou mostram que a mudança

frequente devida à falta de prédios escolares fazia com que professores, alunos e pais/encarregados ficassem sujeitos às especulações imobiliárias da época. Escolas e seus atores se viam obrigados a mudar de prédio por motivos variados como inadequação ao espaço (quando não era possível nenhuma forma de ajuste), insalubridade, barulho, má localização, aumento do aluguel, muito dos quais vinham conjugados.

Mas ao mesmo tempo em que a escola mudava de endereço várias

vezes, o uso do prédio ocupado pela escola também poderia ter concomitantemente várias finalidades. Uma busca no Almanak Laemmert pelo endereço Largo ou Rua da Imperatriz, n.º 121, no período em que a escola estava instalada nele, mostra que o local era utilizado como moradia, comércio, oficina e escola. O uso do prédio como escola pode ser visto antes mesmo da instalação da escola pública no endereço. Cabe observar que a pesquisa no Almanak indica que os endereços Rua da Imperatriz, n.º 121, e Largo da Imperatriz, n.º 121, tratam-se do mesmo lugar. Com exceção da escola, que informava o endereço de forma padronizada, Gregório Corelli que também fazia uso do espaço, ora informava o Largo, ora a Rua, mantendo sempre o mesmo número 121, bem como o endereço do professor Pardal, quando mencionado em outras ocupações.

 

Quadro 14 – Endereço Largo/Rua da Imperatriz, n. 121 no Almanak

Laemmert (1852 a 1860)

 

ANO Usos do endereço Largo/Rua da Imperatriz, 121

 

1852 ---

 

1853 Gregório Corelli – preparador de objetos de História Natural

 

1854 Gregório Corelli – preparador de objetos de História Natural,

“com uma riquíssima coleção dos três reinos da natureza”.

Gregório Corelli – pintor de paisagem e retratista

 

1855 ---

 

1856 ---

 

1857 ---

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base no Almanak Laemmert.

ANO Usos do endereço Largo/Rua da Imperatriz, 121

 

1858 Residência de David Petra de Barros – capitão-tenente do

Corpo da Armada Nacional e Imperial

 

1859 Francisco José Loureiro aparece na lista de farmácias e

boticas com este endereço, sendo que sua residência era na Rua do Costa.

 

1860 Residência de David Petra de Barros – capitão de fragata

 

1861 Escritório do médico Antônio José Moreira Guimarães

Escritório do médico Emílio Gonzaga Farmácia de Antonio Maurício de Carvalho

 

1862 Farmácia de Antonio Maurício de Carvalho

Oficina do carpinteiro de José Fernandes do Couto

 

1863 2º andar – endereço do secretário da Companhia de

Estrada de Ferro de D. Pedro II José Ignácio de Mesquita

Armazém de mantimentos secos de Joaquim José Monteiro de Faria

Oficina do carpinteiro de José Fernandes do Couto

Nº 121 A – João José Gonçalves (Oficina de funileiros, latoeiros, fundidores e picheleiros)

 

1864 Armazém de mantimentos secos de Joaquim José Monteiro

de Faria

Oficina do carpinteiro de José Fernandes do Couto

Oficina do carpinteiro de Joaquim Alves da Silva

 

1865 Armazém de mantimentos secos de Joaquim José Monteiro

de Faria

Oficina do carpinteiro de Joaquim Alves da Silva

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base no Almanak Laemmert.

 

Contrastando os quadros, observa-se que a posição geográfica da

escola, os usos do prédio e os indivíduos que o ocuparam colocam em evidência o espaço que pode ser apreendido a partir de diferentes perspectivas, como a dos sujeitos da cidade, a dos profissionais da escola e a do público atendido. No âmbito dos indivíduos que não eram professores, alunos ou seus encarregados, mas que tinham relação com o endereço, se destaca o artista italiano Gregório Corelli, que parecia estar com condições difíceis de vida, a considerar pela realização de um espetáculo beneficente, organizado por João Caetano, em prol do artista. Teria o professor Pardal cedido uma parte do prédio para abrigar as atividades de Corelli? Pardal havia se formado pela Academia de Belas Artes e, por isso, existia a probabilidade do professor ter contato com pessoas do meio. Corelli também mudou de endereços várias vezes, conforme registros do Almanak e a nota de jornal acerca do espetáculo beneficente informa que Corelli estava residindo no endereço da “loja da moradia de Mme Dejean” (Diário do Rio de Janeiro, 03 ago. 1857).

No caso dos profissionais da escola, nas fontes pesquisadas, observa-se

uma série de conexões entre o professor Pardal e seus colegas da mesma freguesia, algumas sinalizadas no capítulo I. José Bernardes Moreira, que passou a ocupar a segunda cadeira de Santa Rita criada em 1858, atuou com Pardal em bancas examinadoras e comissões de avaliação. Francisca Paula de Moraes e Lima, professora da escola de meninas da mesma freguesia. Josepha Thomazia da Costa Passos era casada com o filho de um ex-adjunto da escola de Pardal. João José Moreira, professor da freguesia de Santana, mas cuja escola, entre 1857 a 1877, ocupou prédio na Rua da Princesa, na freguesia de Santa Rita, foi signatário do Manifesto dos professores de 1871. Ele participava de comissões com Pardal, como a que causou polêmica por reprovar um compêndio para uso nas escolas, e ambos compunham mesa diretiva da Academia Pedagógica. O adjunto José Antônio Campos Lima teve o exame para ingresso no 3º ano avaliado por Pardal e José Bernardes Moreira. O mesmo ocorre em relação às freguesias próximas. Luiz Thomaz de Oliveira, professor da freguesia da Candelária, também estava na mencionada comissão de avaliação de livro. Marcos Bernardino da Costa Passos professor da freguesia de Sacramento tinha sido adjunto de Pardal. Tais professores não apenas se conheciam, mas tinham conexões que se materializaram no movimento docente, na aprendizagem do ofício, na cultura material escolar por meio da aprovação ou rejeição de obras pedagógicas para adoção das escolas públicas.

No universo de famílias que buscaram ou tiveram que submeter seus

filhos e tutelados à escolarização no prédio da Rua da Imperatriz, n.º 121, cabe indagar: quantos meninos eram e de onde vinham para aprenderem as primeiras letras na Escola de Santa Rita? O primeiro mapa de matrícula, constando uma listagem de alunos da 1ª Escola de Santa Rita, foi localizado durante a pesquisa no AGCRJ data de julho de 1854. Não obstante as “Providências” de 1836 terem instituído anteriormente a organização de mapas como parte da burocracia escolar, a data do documento coincide com o ano da reforma da instrução na Corte em 1854 que determinou a obrigatoriedade da confecção de mapas de matrículas, sendo alguns com periodicidade trimestral e outro anual, a serem remetidos aos delegados da instrução de suas respectivas freguesias. No fim de cada trimestre os professores deveriam remeter “um mapa nominal dos alunos matriculados, com declaração de sua frequência e aproveitamento; e no fim do ano um mapa geral, compreendendo o resultado dos exames, e notando d’entre os alunos os que se fizeram recomendáveis por seu talento, aplicação e moralidade” (Art.66).

Importante peça para compreender o funcionamento escolar, os mapas

de frequência, segundo Vidal (2008, p. 43), eram um expediente similar aos mapas estatísticos que “despontaram, no início do século XIX, como dispositivo de governo, fundando-se em uma prática escriturística que, ao mesmo tempo, nomeava, classificava e hierarquizava os sujeitos e a realidade social”. Para Vidal, ao preencherem os mapas, os professores renovavam táticas de sobrevivência profissional, por meio das estratégias de escrita, garantindo a manutenção das escolas e o recebimento de salários. Também construíam “identidades ao trabalho docente e à infância escolarizada”, normatizando o exercício profissional e o aluno. Vidal também elenca um conjunto de reflexões possíveis a partir dos mapas:

 

[…] a análise dos mapas de frequência permite desenhar aspectos da experiência coletiva de ser professor na primeira metade do século XIX, ela, também, oferece-nos pistas sobre a experiência individual e coletiva de ser aluno – as burlas realizadas; as sociabilidades; as dificuldades de aprendizagem, entre outros –, e das intricadas relações entre escola e sociedade no período (Vidal, 2008, p. 65).

 

Com intuito de apreender tais questões, bem como de acompanhar a

movimentação de matrículas e dos sujeitos escolares da 1ª escola de meninos da freguesia, selecionei um conjunto de cinco mapas trimensais que datam de 10/01/1855 até 25/01/1856 – percorrendo aproximadamente o transcurso de um ano. Os mapas contêm os campos: nomes dos alunos, idade, nome dos pais ou encarregados, naturalidade, endereço, data da matrícula, grau de instrução na entrada, grau de instrução na atualidade, inteligência, aplicação, moralidade, faltas no trimestre e observações. A partir das informações organizei uma listagem geral como o nome de todos os alunos matriculados (apêndice 6). Foi possível observar que, no decorrer de um ano, houve um total de 202 matrículas. No gráfico a seguir, podemos visualizar o total de alunos de cada mapa. Para efeito de comparação, os dados de 1854 e de 1857 também foram incluídos no gráfico.

Gráfico 2 – Total de alunos em cada mapa de matrícula

 

Fonte: Gráfico elaborado pela autora com base nos mapas de

matrícula de 1854 a 1857 localizados no AGCRJ.

 

Observa-se que ocorreu uma oscilação no número de matrícula, mas o

total se manteve acima dos 120 alunos em cada ano ou trimestre. Um número significativamente alto para uma escola que não funcionava em prédio próprio e que mesclava o ensino mútuo e o simultâneo.

Figura 19 – Mapa trimensal de matrícula da Escola Pública de Santa Rita de 12 de julho de 1855 (AGCRJ)

 

Fonte: Foto da autora.

 

A faixa etária dos alunos listados se estendia dos 5 aos 15 anos de idade,

distribuídos conforme indicado no gráfico 3. Corresponde ao intervalo de idade permitido pelo Regulamento de 1854: “Art. 70. Às lições ordinárias das escolas não poderão ser admitidos alunos menores de 5 anos, e maiores de 15.”

 

Gráfico 3 – Idade dos alunos no ato da matrícula entre janeiro de 1855 e janeiro de 1856

Fonte: Gráfico elaborado pela autora com base nos mapas de

matrícula de 1854 a 1857 localizados no AGCRJ.

 

Havia uma concentração maior de alunos entre seis e doze anos de

idade, sendo a mais alta a faixa etária dos dez anos, e uma queda entre os mais novos e os mais velhos. Pode-se cogitar um retardamento na iniciação da escolarização, bem como sua interrupção, em razão da iniciação ou participação das crianças no mundo do trabalho ou das famílias não verem necessidade na continuidade dos estudos, após a aquisição dos rudimentos da leitura e da escrita, conforme sugerido pelos relatos dos professores.

Faria Filho e Bertucci (2009), em uma análise das contribuições de

Thompson para uma história social da escolarização, assinalam que “as idades escolares, inventadas e reinventadas sucessivamente pela escola, remetem continuamente para os novos modos de produção de identidades sociais e emergência de novas tecnologias de controle das diversas gerações e das relações entre gerações.” (p. 20). Alertam que a recusa da frequência, o encurtamento ou o alargamento da permanência na instituição escolar “não podem ser vistos apenas como o resultado da ação dos imperativos escolares, mas também como uma forma como os alunos e suas famílias interpretam a importância da escola no conjunto de suas vidas” (p. 19). Igualmente ressaltam que a “experiência de ir para a escola nunca foi a mesma para meninos e meninas, alunos/as e professores/as” (p. 19). Segundo os autores, para os meninos, o tempo escolar “compete com o tempo livre das brincadeiras ou o trabalho fora de casa”, e, no caso das meninas, “concorre com o aprisionamento no trabalho da casa sob supervisão direta ou indireta da mãe” (p. 19).

A maior parte dos alunos iniciou os estudos em 1854 e em 1855. Nesse

grupo havia meninos de idade entre 5 e 15 anos, sendo cinco com 14 anos e um com 15 anos de idade. Mas, alguns meninos faziam o trajeto em direção à escola da freguesia havia vários anos. Três alunos tinham matrícula desde 1849, ou seja, estavam na listagem havia pelo menos seis anos. Eram os dois irmãos de sobrenome Gomes da Costa e o menino Alfredo Candido Pereira de Souza.

O que seis anos de matrícula em uma escola poderia indicar? Todos os

três alunos haviam iniciado os estudos na 1ª classe de leitura, de escrita e de contas. Amâncio Lourenço Gomes da Costa estava na 10ª e última classe quando saiu da escola, em 1855, e o motivo registrado no mapa era de que iria seguir estudos superiores. Era classificado como aluno de muita inteligência, boa aplicação e moralidade. Seu irmão, Vicente Lauro, com a mesma avaliação escolar, em 1858, aos prováveis 15 anos, tornou-se aspirante do Quartel da Companhia de Aspirantes a Guardas-Marinhas e depois soldado do Corpo de Artilharia de Mato-Grosso, quando sua mãe pediu sua baixa ao Ministério da Guerra, em 1860, como veremos adiante.

Alfredo de Souza, no mapa de 1856, era classificado como 9ª classe de

leitura, 8ª de escrita e de contas, com regular inteligência e aplicação, e boa moralidade. Ele perdeu o pai (que era solteiro segundo jornais) em 1858 e tornou-se guarda do Corpo de Artilharia da Guarda Nacional. Os irmãos Gomes da Costa concluíram os estudos da escola primária e Alfredo, apesar de adiantado, não sabemos se fez o mesmo.

Os seis anos de escolaridade permitiram a Amâncio vislumbrar estudos

superiores e a Vicente a carreira militar, aparentemente interrompida a pedido da mãe. Quanto a Alfredo, não foi possível localizar mais detalhes sobre suas ocupações, mas os anúncios de 1858, acerca de arremate do espólio de seu falecido pai, mostram que a família tinha vários escravizados, animais e móveis de valor, bem como as “taxas” das barreiras do comércio, barca de Ubá e Fonte do Desengano (apêndice 7).

Os Gomes da Costa apresentavam como endereço o Morro do

Livramento e Alfredo Candido Pereira de Souza, a Rua da Pedreira da Conceição (depois se mudando para Rua Nova do Príncipe, ainda em 1855), áreas próximas à escola. No entanto, o perímetro da área de residência de alunos que buscavam a escola pública do professor Pardal era mais alargado, extrapolando os limites da própria freguesia de Santa Rita.

A maior parte dos alunos morava nas imediações da escola e do

Livramento, seja no próprio morro, na rua ou na ladeira que levam o mesmo nome. O Livramento aparece como endereço de 24 meninos e 17 residências – o endereço não corresponde ao número de residências, pois alguns eram irmãos ou parentes. Entre as ruas do entorno da escola, a Rua da Princesa agregava mais meninos (16), com dez residências. A partir da listagem, também organizei um quadro com os logradouros registrados, indicando quantas residências estavam situadas em cada um deles, permitindo entender a distribuição geográfica desse grupo de alunos, pais e encarregados.

 

Quadro 15 – Ruas das residências organizadas por ordem de quantidade

de alunos

Logradouro N° de alunos N° de

residências

1 Rua da Princesa 16 10

 

2 Rua do Livramento 9 5

 

3 Morro do Livramento 8 6

 

4 Rua da Imperatriz 7 6

 

5 Rua da Saúde 7 4

 

6 Rua do Jogo da Bola 7 4

 

7 Rua da Alfandega 6 5

 

8 Rua da Harmonia 6 3

 

9 Rua das Violas 6 5

 

10 Rua da Pedreira 5 5

 

11 Rua da Prainha 5 4

 

12 Ladeira do Livramento 4 4

 

13 Praia da Saúde 4 3

 

14 Rua da Vala 2 2

 

15 Rua de S. Pedro 2 2

 

16 Rua de S. Pedro (C.N.) 2 2

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nos mapas de matrícula de 1854 a 1857 localizados no AGCRJ.

Logradouro N° de alunos N° de

residências

 

17 Rua do Aljube 2 2

 

18 Rua do Conde 2 1

 

19 Rua do Fogo 22

 

20 Rua do Nuncio 2 1

 

21 Rua do Pedregulho 2 1

 

22 Rua do Regente 2 2

 

23 Rua do S. dos Passos 2 2

 

24 Rua do Saco d’Alferes 21

 

25 Rua do Saco 2 2

 

26 Travessa das Mangueiras 2 1

 

27 Rua de S. Diogo 4 4

 

28 Rua do Príncipe 4 4

 

29 Beco das Partilhas 3 2

 

30 Catumby Grande 3 2

 

31 Largo da Imperatriz 3 2

 

32 Rua da Candelária 3 1

 

33 Rua do Coito (Rua do 3 3

Costa?)

 

34 Rua Estreita de S. Joaquim 3 2

 

35 Rua Formosa 3 2

 

36 Rua Larga de S. Joaquim 3 3

 

37 São Cristóvão 3 1

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nos mapas de matrícula de 1854 a 1857 localizados no AGCRJ.

Logradouro N° de alunos N° de

residências

 

38 Beco de João Ignacio 2 1

 

39 Gamboa 2 2

 

40 Ilha das Cobras 2 2

 

41 Largo da Prainha 2 2

 

42 Lazareto 2 1

 

43 Mato Grosso 2 2

 

44 Morro da Saúde 2 1

 

45 Morro do Valongo 2 1

 

46 Praia da Gamboa 2 2

 

47 Praia Formosa 2 2

 

48 Campo de S. Cristóvão 1 1

 

49 Escadinha do Tijolo, Saúde 1 1

 

50 Ladeira de João Homem 1 1

 

51 Largo de S. Rita 1 1

 

52 Livramento 1 1

 

53 Morro de Paula Mattos 1 1

 

54 Pedra do Sal 1 1

 

55 Praia do Saco 1 1

 

56 Rua da Lampadosa 1 1

 

57 Rua da Pedreira Conceição 1 1

(?)

 

58 Rua da Providencia 1 1

 

59 Rua de S. Lourenço 1 1

 

60 Rua de Sant’Ana 1 1

 

61 Rua do Bom-Jardim 1 1

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nos mapas de matrícula de 1854 a 1857 localizados no AGCRJ.

Logradouro N° de alunos N° de

residências

 

62 Rua do Sabão (C.N.) 1 1

 

63 Rua do Sabão 1 1

 

64 Rua do SS Sacramento 1 1

 

65 Rua dos Ourives 1 1

 

66 Rua do Aterrado 1 1

 

67 Travessa do Mato Grosso 1 1

 

68 Sem endereço 12 -

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nos mapas de matrícula de 1854 a 1857 localizados no AGCRJ.

 

Para compreender melhor a distribuição das residências fiz um

agrupamento por proximidade de logradouros, no qual registro o nome dos alunos, pais e encarregados, bem como a numeração dos endereços, com o intuito de observar possíveis relações de vizinhança (apêndice 7). A seguir apresento no mapa um esquema de agrupamento de residências que permite visualizar melhor essa distribuição geográfica dos alunos.

Figura 20 – Esquema de agrupamento dos endereços dos alunos a partir da Planta da Muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro de 1852

Figura 21 – Distritos administrativos em 1870

 

Fonte: Holloway (1998).

 

A suposição de que as famílias procediam a uma escolha da instituição

que iria ensinar aos seus filhos as primeiras letras é uma variável a ser considerada e nos aponta importantes questões sobre o papel das famílias na escolarização dos filhos. A existência desse tipo de prática na Corte está assinalada no relatório da “Comissão visitadora das escolas públicas e estabelecimentos particulares” que alegava, entre as razões apresentadas para justificar a realização das aulas em uma só sessão, que:

 

Nem sempre são os meninos de cada freguesia os que frequentam as escolas das mesmas; os pais conforme as simpatias, as relações, ou a confiança que têm num ou

n’outro professor, para ele é que mandam seus filhos, às vezes de muito longe, e para estes é penoso percorrer 4 vezes por dia essa grande distância debaixo de sol ou de chuva, acontecendo, por conseguinte, que deixarão de ir, as mais das vezes, à aula da tarde (Relatório da IGIPSC, anexo 7, 1873, p. 54).

 

Munhoz (2012) observou fenômeno similar em Paranaguá, onde famílias

optaram por transferir seus filhos quando houve a criação de uma segunda cadeira. A autora trabalhou com a hipótese de que a preferência das famílias pelo novo professor se deu pelo fato dele ser um padre, uma vez que a religião se associava a uma expectativa de qualidade de ensino. Nesse sentido, a postura das famílias também contribui para compreendermos a posição da escola na sociedade. Seria a condição da escola dirigida por Pardal atraente para os responsáveis pelos alunos que, por exemplo, residiam na freguesia de São Cristóvão, Santo Antônio e da região chamada de Saco do Alferes, que eram áreas distantes da escola?

Por outro lado, observam-se muitos endereços próximos e a proximidade

dos números de certas casas em um mesmo logradouro indica que vários alunos eram vizinhos. João Miguel Salgueiro (7 anos), Simeão Joaquim do Nascimento (10), Alfredo da Sª Serra (6) e o lisboeta Antonio M. da Silveira (10) tinham como endereço a Ladeira do Livramento, nos números 2, 11, 13 e 15. Percebe-se que três deles moravam praticamente um ao lado do outro. Infelizmente, não foi possível localizar mais informações acerca dos responsáveis por meio da pesquisa nos periódicos, apenas o rumo tomado por alguns alunos.

Na rua da escola, da Imperatriz, moravam o baiano Agostinho Borges da

Cunha (7 anos), Jesuíno José Pires (11), Manoel Machado Fagundes (8), Euclides da Fonseca Saldanha (14), os meninos Leopoldo Augusto da Câmara Lima (9) e Leopoldo Thimoteo de Carvalho (8), nos números 2, 17, 30, 113 e 114, e também João Baptista d’A. Coelho (6 anos) cujo endereço aparece sem indicação de número, mas que provavelmente deveria ser o número 107, onde funcionava o armazém de secos e molhados de seu responsável, João Baptista Coelho. O já mencionado pai de Manoel Machado Fagundes também possuía armazém de secos e molhados no mesmo endereço da residência. O responsável por Leopoldo Lima e Leopoldo de Carvalho era “fiel” de obras da Câmara Municipal e depois se tornou escriturário da Diretoria das obras municipais, e o pai de Agostinho Borges da Cunha era ferreiro, trabalhava no Arsenal de Guerra, mas veio a falecer no final de 1855. Comerciante, funcionário público e ferreiro. Três atividades distintas de sujeitos que moravam na mesma rua, cujos filhos frequentavam a mesma escola.

O logradouro com mais alunos em situação de vizinhança é a Rua da

Princesa (dos Cajueiros), onde residiam dezesseis alunos (ver apêndice 8). Ela começava na Rua da Imperatriz e terminava na Rua Nova do Príncipe. Os alunos Antônio Cosme Monteiro (5 anos); Joaquim José Alves (9), Firmino de Aquino Brandão (11) e Manoel Theodoro de Lima Ferreira (8) moravam nos números 5, 19, 22 e 24; João José Barbosa (7) e Antonio Bernardes de Monteaury (11) nos números 38 e 40; José Bernarbé do Espírito Santo no número 105; os irmãos Francisco José Ferreira Villaça (7) e João Ferreira Villaça (6), no número 150; os irmãos Francisco da Rocha Paranhos (10) e João Silvestre da Rocha Paranhos (9) no 154, e os cinco irmãos Ferreira Leal no número 156. A ocupação das quatro famílias identificadas também era bem diversificada. Havia procurador, despachante de casa comercial, contínuo (administração pública) e proprietário de pedreira, por exemplo.

Outros exemplos de residência na mesma rua que chamam atenção são

aqueles em que o próprio número da casa era igual. Como era o caso dos alunos Zacharia José de Carvalho, Francisco Alves da Silva e André Avelino de Carvalho, cujo logradouro era a Rua do Jogo de Bola – que segundo Rios Filho (2000) possuía esse nome em razão dos jogos praticados por “capoeiras e vagabundos”. A residência dos três ficava no número 8, mas tinham responsáveis diferentes. Seria possível cogitar que o endereço fosse um cortiço? Embora tivessem responsáveis diferentes (Leonarda Mariana da Silva, Delfino José da Silva, João José de Carvalho), Zacharia e André possuíam o mesmo sobrenome que o terceiro responsável, e Francisco o mesmo que os dois primeiros, sugerindo que fossem da mesma família. Apesar do estigma trazido por Rios Filhos acerca dos seus frequentadores, os mapas de matrícula de Pardal, que registram mais quatro alunos residentes nessa rua, informam que os meninos tinham boa moralidade, com exceção de José dos Santos, considerado “irregular” pelo professor.

A rua da escola desembocava na Rua Estreita de São Joaquim onde, no

número 28, residiam os alunos Francisco Lopes Barbosa (5 anos) e João Francisco Coelho Pereira (12) e o que chama atenção aqui é que o responsável por Francisco era um padre de mesmo nome, Francisco Lopes Barbosa, e a responsável por João era uma mulher, Deolinda Rosa. O endereço era de propriedade do próprio padre. Ele comprou metade do sobrado de Thomaz Alves de Souza Bastos e de sua mulher em um processo de venda iniciado em 1842 (Diário do Rio de Janeiro, 19 dez. 1842). O padre, que era vigário da Vila de Iguassu, onde também era vereador da Câmara Municipal, faleceu em 1855, conforme indica nota de arremate de três escravizados do seu espólio divulgado no Correio Mercantil (25 out. 1855). O arremate do sobrado na Rua Estreita da São Joaquim foi anunciado no ano seguinte no mesmo periódico (06 jun. 1856). O aluno Francisco saiu da escola, alegando ir para outra da freguesia, e João faleceu em setembro de 1855.