A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências
Prefácio
Faz algumas semanas, Angélica Borges pediu-me para escrever
o prefácio à publicação de sua tese de doutorado, intitulada Na
urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na
trama de relações e agências, realizada na Faculdade de Educação-
USP, sob minha orientação. Ao dar início à escrita, percebi que a
tese tinha sido defendida há exatos dois anos. Apesar de ter ainda
viva na mente o período de trabalho e convivência com Angélica e
de lembrar-me com clareza da satisfação com que vi o produto
tomando forma e fui me surpreendendo com a capacidade
investigativa e argumentativa da então doutoranda, achei prudente
abrir novamente o arquivo e voltar ao texto.
Reli os agradecimentos, revi o resumo e o sumário, passeei pelos
capítulos. Uma sucessão de imagens e sentimentos foi me
acometendo: nosso primeiro encontro, ainda na UERJ; a frequência
de Angélica às aulas e atividades do NIEPHE; as sessões de
orientação; o semestre em que, como monitora, esteve ao meu lado
nas aulas da Licenciatura na FEUSP; as conversas sobre a
possibilidade de um estágio-sanduíche no exterior; a viagem à
França, quando pudemos visitar juntas os acervos de bibliotecas e
as instituições em Paris e Lyon, onde depois ela retornaria sozinha
com o apoio da bolsa CAPES; o cordeiro partilhado no almoço
oferecido generosamente por Max Butlen em sua residência na
banlieue pariense a nós e Anne-Marie Chartier; a primeira visão da
Torre Eiffel; a apresentação de trabalho conjunto no CIHELA, em
Toluca, no México; a escrita solidária de artigo para a Revista
Brasileira de História da Educação; e tantos outros momentos com
que fomos, nós também, tal como o professor Pardal, personagem
central da Tese, urdindo o mister da docência.
Nesses caminhos percorridos pela memória, vi a nós duas como
“professoras na trama de relações e agências”. Os eventos que nos
uniam constituíam a experiência do magistério em pós-graduação e,
se se distanciavam em grau das trajetórias traçadas no ensino
primário, se aproximavam no exercício da docência como ofício. O professor Pardal, mestre de primeiras letras da Corte, fio condutor
dos nexos evidenciados por Angélica na Tese ao analisar as várias
dimensões do magistério – saberes, fazeres, relações sociais,
apropriações, protagonismos, carreira –, como excepcional normal,
no dizer de Carlo Ginzburg, indiciava sujeitos do seu tempo.
Simultaneamente, oferecia elementos de um repertório docente
constituído como arte “imemorial”, como nos faz supor Michel de
Certeau, impregnado no ofício do magistério. Passado investigado e
presente vivido entrelaçados em experiências docentes que se
espraiam por gerações, sendo constantemente reinventadas.
Angélica condensa esse múltiplo agenciamento em sua prática.
Continua como professora do ensino fundamental na Prefeitura
Municipal de Duque de Caxias, enquanto exerce a função de
professora-adjunta da Faculdade de Educação da Baixada
Fluminense da UERJ. Atua na educação formal de crianças e
perscruta as sendas da história dessa mesma educação elementar.
Une pontas desse largo tecido do magistério, sem a pretensão de
concluir o tramado, mas movida pela beleza do ato de tecer. É essa
seriedade e compromisso com a docência, temperada com grande
sensibilidade que encontramos nas páginas de sua tese.
Para capturar aspectos do magistério Oitocentista na Corte
Imperial, Angélica, com maestria, faz uso de uma metodologia
inovadora. Se o professor Pardal é seu ponto de partida e de
chegada, não esgota a narrativa. Ao contrário, ele é pretexto para
que a autora possa incursionar pelas estratégias para constituir-se
mestre em um momento em que as escolas normais são escassas;
acompanhar os passos de conformação do magistério como
carreira; compreender a abrangência territorial das escolas de
primeiras letras; perceber a composição social e etária dos alunos
no século XIX; perscrutar as agências de famílias e professores nas
disputas com o Estado e no encaminhamento de demandas; e
investigar a circulação internacional de saberes pedagógicos e sua
apropriação no Brasil.
O período de estudo é amplo. Estende-se de 1830 a última
década do Império. O conjunto documental utilizado é vastíssimo:
relatórios, ofícios, correspondências de professores, mapas de
frequência de alunos, jornais, almanaques, mapas do centro da cidade do Rio de Janeiro. O método leva ao limite a proposta de
seguir o “fio do nome” de Carlo Ginzburg. São dezenas de alunos e
professores cujas trajetórias acadêmicas foram acompanhadas por
Angélica nas diversas fontes mobilizadas, exigindo um exercício de
memória impressionante.
Tramas, agências, relações são concebidas de forma plural no
desafio de perspectivar o passado na sua diferença, tencionando os
limites da interpretação histórica, por meio de uma escrita que
mesmo tendo os sujeitos por objeto, não os objetiva, mas procura
apreender os vestígios dessa humanidade pretérita.
Impecável talvez seja o adjetivo que melhor define esta tese que
ora vira livro, como impecável é o caminho traçado por Angélica e
impecável sua atuação acadêmica. Esta é uma leitura inesquecível
de um trabalho que pode ser considerado como modelar a outras
investigações. É também uma narrativa extremamente sedutora
pela destreza da pena e pela sensibilidade do olhar que se projeta
sobre a história da profissão docente e tenta captá-la na sua
dimensão humana e experiencial. O professor Pardal é um dos
vários mestres apreendidos nessa tessitura que, de modos distintos,
une outros tantos professores de vários níveis, em dimensões
sincrônicas e diacrônicas, e nos permite conceber essa antiga
experiência docente como uma arte sempre (re)novada.
São Paulo, novembro de 2016.
Diana Vidal