De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 11 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Aconteceu alguma coisa

aconteceu algum a coisa

 

Dois guardas à porta, barrando a passagem . O bolo de gente na calçada, espichando pescoço para assuntar.

— Vai ver que m ataram alguém no edifício.

— Com certeza assaltaram o banco, e…

— Que banco? Não está vendo que não tem banco nenhum aí?

— Já sei. Pegaram lá em cim a um grupo de subversivos, e eles estão encurralados, não querem se render. Não saio daqui enquanto os caras não aparecerem .

Cresce a confusão. Tão rápido, que até parece organizada. Todo m undo colabora para que sej a total. E fala, fala.

— Olha aquela velha desm aiando!

— Velha coisa nenhum a, é um a lourinha m uito da bacana. E não está desm aiando, está é brigando de unha e dente, alguém apalpou ela ou afanou a bolsa.

— Te garanto que houve m orte. Um padre abriu cam inho e entrou lá dentro, apesar dos guardas. Padre m esm o, desses de batina, sacum é?

— Se o cara j á m orreu, não adianta ele entrar, ora essa. Salvo se ainda está agonizando. E quem garante a você que por estar de batina esse que entrou lá não é padre de araque? Tem m uita falsificação pelaí.

— Não estou vendo fum aça. Incêndio não é.

— Pode ser nos fundos. Espera até a fum aça aparecer. O últim o incêndio que eu assisti, na Tij uca, levou horas pra convencer.

— Quem sabe foi um a m anicure que se atirou no pátio? Já vi um caso assim .

— Por essas e outras é que só m oro em casa, e casa térrea, sem escada, pra não dar grilo. Eu, hem ?

— É, m as tem m uito inconveniente. Nas casas baixas a poluição é servida a dom icílio.

— Repara aqueles dois entrando na raça.

— E na raça foram rechaçados, tá vendo?

— Pronto, interditaram o edifício.

— Pior. Estão esvaziando o edifício.

— Corta essa. Todo m undo tem direito de entrar e direito de sair. E os que trabalham lá em cim a, por que irão deixar de trabalhar? Os que precisam subir para ir ao dentista, ao m édico, sei lá, com que direito são im pedidos? Tá errado. Qual, isso é um país sem …

— Calm a, Secundino. Acho bom você m oderar suas expansões.

— É, m as o senador Farah Diba entrou com passe livre, espia só.

— Não tem senador com esse nom e, siô.

— Tem um parecido, m as é deputado.

— Deputado ou não, com esse ou com outro nom e, m as entrou. Eu vi.

— Então não há tragédia, ele não é de ir aonde pega fogo.

— Cerraram as portas de aço!

— Isso tá m e cheirando a elevador despencado. Não tem dia que não caia um em Copacabana. E essa am bulância que não vem ? Devia ter sem pre um a am bulância de plantão na porta de cada edifício.

— O diabo são os palestinos. Im agina se o carteiro deixou na portaria um a daquelas cartas com bom ba…

— Já não se tem onde m orar sossegado. Até entrar pelo cano é perigoso. Lá dentro tem assaltante à espera.

— E na rua, então? Que é que nós estam os fazendo aqui, am eaçados de todos os lados, prestando atenção num negócio que não é da nossa conta, m e diga o senhor?

— Sei lá. Mas agora está saindo um caixotão, não atino o que sej a. Quem sabe se não é um novo crim e da m ala!

— Nem m e fale nisso. Só de pensar, fico toda arrepiada; passe a m ão no m eu braço, vej a com o estou. Cortar um pobre de Cristo em fatias, feito m ortadela, depositar na m ala e despachar de avião!

— Era de trem que as m alas com cadáveres se despachavam , sua ignorante.

— Isso foi no seu tem po, vovozinho. Hoj e, quem é que passa pra trás o avião pra dar preferência a trem de ferro?

— Pois então vam os chegar perto e espiar o caixão do defunto.

— Não é caixão, gente, é geladeira!

— O quê? O defunto estava dentro da geladeira?!

— Ah, m eu chapa, tu não m orou que isso é um a liquidação de eletrodom ésticos?