De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica
Peixe-boi
Inform ado de que a próxim a Feira da Providência terá, entre m il atrações, um vasto peixe-boi, deliberei entrevistar esse triquequídeo, absolutam ente inédito na Guanabara e adj acências.
Não foi difícil localizá-lo. Apesar de sua fam a de esquivança e cautela, o peixe-boi faz um barulho dos diabos ao alim entar-se fora d’água. Ouvindo inusitado rum or à m argem da piscina, onde cresce erva abundante, para lá m e dirigi, e logo identifiquei o nosso hóspede, que pastava seus quarenta e cinco quilos de vegetação.
— Senhor peixe-boi, poderia atender à curiosidade dos leitores de m inha coluna, respondendo a algum as perguntas?
— Não gosto de conversar na hora das refeições — resm oneou — m as sej a tudo pelo am or da Feira da Providência, a que com pareço com o convidado especial. Fale, e responderei. Mas, antes de m ais nada, eu é que vou lhe perguntar um a coisa. Já voltou a carne aos açougues?
— Veio a congelada.
— Ainda bem . Eu receava um a traição.
— Com o assim ?
— Sabe, esse nom e, peixe-boi, pode dar m argem a equívocos. Se falta o boi propriam ente dito, peixe-boi deve botar as barbas de m olho. Não m e esqueço da m ixira.
— Que que é isso?
— Mixira, m eu caro desinform ado, é chouriço de m inha carne. Dizem que ela é insípida, e acho bom que o sej a, para não atrair o apetite de vocês, m as por que faziam m ixira de m im ? Leia o dr. José Veríssim o, que conta o processo. Carne de peixe-boi, m oqueada e cozinhada na gordura do próprio peixe-boi! Se j á não se pratica m ais isto, é porque a raça está acabando. Sou um dos poucos sobreviventes, e m e cuido.
— De fato, parece que o senhor é m ais um a originalidade que um exem plar.
— E olhe que até no Espírito Santo, nos tem pos do padre Anchieta, nós circulávam os felizes, sem problem as. Depois, com eçou a m atança. Mania de fazer óleo e azeite de cozinha com o m eu toucinho. De fazer chicotes com o m eu couro. Até m angueira d’água para os trens m aria-fum aça tiravam de m eu lom bo! Não estou m entindo, ouça o que diz d. Flávia da Silveira Lobo, na sua enciclopédia anim al. Tanto caçaram m inha espécie que ela virou raridade, digna de ser m ostrada em feira, com entrada paga.
— Louvo sua generosidade, com parecendo.
— Prezado colunista, ainda há generosidade nos peixes. Nos últim os da m inha fam ília, pelo m enos. De resto, não sou propriam ente peixe. Sou m am ífero, com o você, tenho algum a coisa de hum ano, com o os próprios hom ens têm . Confesso que não vim ao Rio só por altruísm o. Vim tam bém para saber das coisas, entende? Mam ífero da Am azônia observa o com portam ento dos m am íferos da Guanabara, que com em , bebem e dançam para aj udar os pobres. Peixe-boi se divertindo a olhar os que se divertem olhando o peixe-boi. Não sabem que estou achando graça neles. Meu focinho de bezerro inspira-lhes gracinhas. Tam bém m e rio dos que têm cara de m acaco ou de foca. Nenhum deles tem de altura o que tenho de com prim ento, nenhum pesa tanto quanto eu. Portanto, sou superior a vocês por m ais de um título, e nem por isso m e considero rei da natureza. Pasto m inha relvinha — licença, vou papar m ais um feixe, com a m inha rica série de m olares — e não chateio os outros, com o vocês gostam de fazer.
Ouviu-se um estrondo: era o peixe-boi m astigando. Cessada a m anducação, não resisti:
— Mas o senhor faz tantas restrições ao gênero hum ano. Por que, afinal, atendeu ao convite?
— Am igo, até peixe-boi gosta de publicidade.
E m ergulhou. Só então m e espantei de que ele falasse, e falasse tanto. Expliquem os sábios na escritura que segredos são estes de Natura.