De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica
Barata
Aberto o envelope, susto: a barata dentro dele, im óvel, expectante, sobre o cartão!
Quem foi que teve ideia dessa brincadeira repulsiva? E com o conseguiu que passasse pelo Correio sem esm agar a barata? Por que ela está viva, vivinha da silva & santos. Não se m exe é de sabida.
— Joga fora essa im undície! Ou antes, não j ogue…
Esta é um a barata de lei, com cerca de cento e cinquenta anos de existência. Criação verista de Debret, sua reprodução da capa do convite para a exposição de inéditos do artista é de tal m odo convincente que engana qualquer um .
Ou não engana, é a barata m esm o, e m esm a. As outras, que circulam entre farelos e som bras, têm existência m iseravelm ente curta. Desprezadas e com batidas, que ninguém quer saber de barata em casa. Mas se foi Debret que a viu, assuntou, desenhou, coloriu, vale um a nota firm e, e a esta hora está alegrando a vista do colecionador que a com prou do m archand Luís Buarque de Holanda:
— Barata linda!
— Am or de barata!
— Que barato de barata!
E a baratinha, iaiá, a baratinha, ioiô, está se rindo por dentro, se é que barata ri, por dentro ou por fora, da vária fortuna dos seres (e das coisas) no plano real e no plano ideal. Barata ao vivo é noj enta, chinele-se a bicha. Barata pintada é arte. Maçã na casa de frutas, ferra-se o dente ou açucara-se em torta, vita brevis, e não se fala m ais nisso. A m açã de Cézanne, m as para que a m açã? as cebolas de Cézanne, e m ais a garrafa de rouge, o copo com vinho pela m etade, a rolha, a faca, a toalha em bolada, em Nature Morte aux Oignons, refutam o princípio de destruição inevitável das form as, pelo m enos enquanto o quadro existir.
Ideia velha, barata nova. Debret foi m ais docum entarista do que criador, m as nem por isto sua barata é m enos criação. Porque Debret pegou do bicho im undo e disse:
— Agora vou te dar vida longa, m aior que a m inha, vou te representar. Representar é ser outra vez, e m ais. Tudo quanto posso fazer por m im , e por nós, é fazer-te e fazer-m e. Representando-m e, e aos obj etos e cenas a que assisto (coroação, feira, inseto), asseguro a tudo a m ais-valia de um a vida suplem entar, que se cham a vida das figuras, das aparências, que são m ais do que as essências, pois estas se evolam , e aquelas persistem . Entendeste?
— Não — baratifalou a barata.
Nem era para entender: conversa de pintor ou de grafôm ano com o m undo em redor não tem sentido não, pois ele pergunta e ele m esm o responde, ou prossegue:
— Pensando m elhor, a essência está na aparência, que nos propicia o conhecim ento im ediato do cosm o. O resto é im aginação ou confirm ação. És habitante vil de um planeta confuso, que adotou padrões de classificação baseados em nada. Vil por quê? Por que assim te rotularam ? Que achas das criaturas que te rotularam , ó barata m inha?
A barata ia responder que por sua vez as achava asquerosas, m as silenciou, por m edo ao chinelo, que é sem pre argum ento contrário às baratas, e fortíssim o. Preferível que esse cara (foi o seu raciocínio) continue a dizer bobagens e, dizendo-as, se esqueça de m e aplastar. Quanto a ele m e im ortalizar, m esm o discretam ente, isto é, por cento e cinquenta ou quinhentos anos, pouco se m e dá. Eu sou aqui e agora, m inha finitude m e cerca por todos os lados, e tenho que curti-la. No papel, em im agem , não dá pé. Com licença, M. Debret — e escafedeu-se.
— Espera um pouco, falta só com pletar um a perninha!
Não sei se esperou. Sei que a representação é com pleta e fiel, tão fiel, tão vera, que a representação da representação, no convite, fez um a senhorita j ogar fora papel e envelope, e correr para lavar as m ãos:
— Ui, que horror! Um a baratona.
— Calm a, ela é pintada.
— E daí? Parece m ais real que um a verdadeira!
O m aior elogio a Debret que j á ouvi.