De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 27 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Margarida

m argarida

 

A garota em êxtase brandiu o postal que recebera do nam orado em excursão na Grécia:

— Coisa m ais linda! Olhe só o que ele m e escreveu: “Eu queria desfolhar teu coração com o se ele fosse a m ais m argarida de todas as m argaridas”. Marquinhos é genial, o senhor não acha?

— Pode ser que sej a, não conheço Marquinhos. Se bem que antes da era Pierre Cardin, genial era Dante, Da Vinci, Einstein, outros assim . Mas essa frase não é de Marquinhos.

— Não é de Marquinhos?! Tá com a letra dele, assinada por ele.

— Estou vendo que assinou, m as é de Darío.

— Quem ? O Darío, do Atlético Mineiro? Sem essa!

— Não, m inha florzinha, Darío, Rubén Darío, o poeta da Nicarágua.

— Não conheço. Então Rubén Darío falou pra Marquinhos e Marquinhos achou bacana e pediu em prestado a ele?

— Tenho a im pressão que o Marquinhos não pediu nada em prestado a Rubén Darío. Tom ou sem consultar.

— Com o é que o senhor sabe?

— É m uito difícil consultar o Darío.

— Por quê? Ele não dá bola pra gente? Não gosta da m ocidade? É careta?

— Não é nada disso. O Darío não é encontrado em parte algum a.

— Ah, ele gosta de bancar o invisível, né?

— Não creio que goste, m as é exatam ente o caso dele: invisível.

— Não dá pra entender.

— Vai entender logo. Ele m orreu em 1916.

— Ah! E com o é que o Marquinhos descobriu essa m argarida, m e conte!

— Sim ples. Leu num livro de poem as de Rubén Darío.

— Marquinhos não é ligado a leitura. Duvido.

— Se não leu no livro, leu em algum a revista, em algum a parte.

— Hã…

Ficou tão triste — os olhos, a boca, a testa franzida — que achei de m eu dever confortá-la:

— Que im portância tem isso? A frase é de Darío, é de Marquinhos, é de toda pessoa sensível, capaz de assim ilar o coração à m argarina… Desculpe: à m argarida.

Muxoxo:

— Se é de todos, não é de ninguém , não vale nada.

— Pelo contrário. Fica valendo m ais, torna-se sentim ento universal.

— Ah, o senhor está por fora. Eu queria a m argarida só pra m im . Copiada não tem graça. A graça era im aginar Marquinhos, m uito sério, desfolhando m eu coração transform ado em m argarida, para saber se eu gosto dele, um pouquinho, bastante, m uito loucam ente, nada. E a m argarida sem pre com um a pétala escondida por baixo da outra, entende? pra ele não ter certeza, por que essa certeza eu não dava… Era gozado.

— Continue im aginando.

— Agora não dá pé. Marquinhos roubou a m argarida, quis dar um a de poeta. Não colou.

— Espere um pouco. Eu disse que a m argarida era de Rubén Darío? Esta cabeça! Esquece, m inha filha. Agora m e lem bro que Rubén Darío nem podia ouvir falar em margarita, com eçava a espirrar, a tossir, ficava sufocado, um a coisa horrível. Alergia — que no tem po dele ainda não estava batizada. Pois é. Garanto a você, posso j urar que a m argarida não é de Darío.

— De quem é então?

— De Marquinhos, ué.

— Tem certeza que nunca ninguém antes de Marquinhos escreveu “a m ais m argarida de todas as m argaridas”? O senhor lê m ilhões, pode m e responder. Tem certeza?

— Absoluta. Marquinhos é genial, reconheço. Mas, por via das dúvidas, continue escondendo um a pétala de reserva, sim ?

— Pode deixar por m inha conta. Puxa, quase que eu parava de transar com o Marquinhos por causa do senhor. Agora tá legal, tchau, vovô!

Vovô: foi assim que ela m e agradeceu a m entira generosa, a bandida.