De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica
Montanhismo
m ontanhism o
duas m ulheres
I / Ao Bico do Papagaio
Duas m ulheres perdidas na floresta da Tij uca. Não chegaram a ser notícia. Eu conto.
A intenção delas (declarada) era subir ao Bico do Papagaio. Bico ou Pico? Discutem prelim inarm ente. Deve ser Pico, pois se tem novecentos e setenta e cinco m etros de altura. Mas, e a form a de bico recurvado de papagaio? Então é Bico. O Pico do Bico — assim deveria cham ar-se. Ou o Bico do Pico. Desta m aneira nunca chegarem os a um acordo — as duas riram e concluíram que nom e não tem realm ente im portância, im portante é chegar lá em cim a.
Problem a é que não eram , nunca foram m ontanhistas. No m áxim o, sobem ladeiras da Gávea, e com que vontade de não subi-las. Bom que tudo fosse plano na vida, m as a ideia de subir ao cocuruto do Pico (ou do Bico) do Papagaio se im plantara nelas. Deus sabe por quê. Mulheres. Só m esm o Deus é quem sabe o porquê de certas vontades fem ininas, se é que ele consegue saber.
Sem prática de galgar m ontanha, sem equipam ento, com o fazer? Sobe-se, ora essa. Com pra-se o essencial em m atéria de roupa e instrum entos, estuda-se bem o m apa da m ina, que no caso é um folheto descritivo da floresta, e saiam da frente que nós querem os passar. Saiam gatos-m aracaj ás fingindo de oncinhas, arreda, j araracuçu e cobra caninana, que eu não tenho m edo de vocês, eu tam bém não, quer dizer, m edo a gente tem m uito, pra que negar? Mas são Bento está lá no céu vigiando as cobras, e daí, isso de cobra no Rio de Janeiro, m esm o na floresta da Tij uca, é cascata de francês de bulevar.
Guia? De j eito nenhum . Guia para quê? Para ensinar a gente a m over as pernas? Para m ostrar, de passagem , que aquele bicho que está escondendo coquinhos na terra é caxinguelê, que esta borboleta m aravilhosa é a saíra-de-sete-cores? Isso a gente j á sabe, de ter nascido no interior do estado do Rio e de conferir nas estam pas. Som os capazes de identificar o m acaco-prego fazendo chacrinha no alto das árvores, tem pé de xaxim lá em casa, tem j uçara, tem sonho-de-ouro. E depois, a gente não vai fazer história natural. Vai é subir no Pico do Papagaio e ver os longes e ter a glória de — não, não é para curtir glória nenhum a, é claro, m as acabarão sabendo que duas alpinistas brasileiras am adoras, de vinte e sete e trinta e um anos, respectivam ente, por nom e Oranice e Gabriela, sem auxílio de hom em algum , só com a cara e a coragem , atingiram num dia de j unho de 1972 o com plicado ápice do Bico do Papagaio, dem onstrando a galhardia, o ím peto, o sangue-frio da m ulher m oderna.
Levam os farnel, Oranice? Não, Gabri, a gente com e no Esquilo. Sem essa, vê lá se vam os dar um a de turista. Montanhism o é coisa séria, e não serem os nós, m ontanhistas de prim eira viagem , que irem os desm oralizar a excursão. A gente leva com ida-água-refrigerante etc., calculado para um dia e um a noite. E cobertor, olha que deve fazer um frio danado lá em cim a! Quantos quilos a gente aguenta levar? Eu vou de travesseiro, dorm ir no chão de pedra não é m ole, hem ? Você é louca, m ulher, travesseiro coisa nenhum a, daqui a pouco você inventa carregar banheirinho plástico, torradeira, essas coisas. Guerra é guerra.
O m ais difícil de um a excursão, parece, é preparar a excursão. O resto corre fácil. Outra coisa difícil é guardar segredo da excursão, para evitar que as am igas adiram , e francam ente, subir ao Bico do Papagaio em assem bleia geral tira todo o charm e da aventura. Não vam os telefonar para ninguém , e se nos convidarem para algum program a na quinta ou na sexta, j á sabe: pas possible. Dá-se um a desculpa qualquer, m as quinta e sexta é sagrado: Ao Bico do Papagaio!
Acaba logo com essa história, diz o leitor, im paciente em busca de outros assuntos. Tanto m ais que as duas m ulheres não chegaram a fazer notícia. Mas eu não acabo. Eu torturo, eu continuo daqui a dois dias, e quem quiser saber do resto, faça o obséquio de aguardar a próxim a.
II / Pé na estrada
Com o ia dizendo, Oranice e Gabriela, solteiras, sem com prom isso (percebe-se), anim adas de súbito espírito m ontanhístico, pegaram táxi no Leblon, rum o ao Bico do Papagaio. Levaram , em apetrechos e m unição de boca, tudo que lhes pareceu necessário para a aventura. Não era m uito. Ou era dem ais? Pois logo que desceram do carro, iniciando a cam inhada, os m ateriais com eçaram a pesar m ais do que o desej ável.
Estrada do Im perador, em soberba m anhã de inverno tórrido, esse inverno que é invenção carioca 72. A bandeira dois registrava núm ero assustador de cruzeiros, m elhor descer aqui m esm o, desceram . Vam os dividir a tralha, dividiram . No a-pé a gente desfruta m elhor a natureza vivendo, cada pé de pau é um barato, cada bichinho surpreendido em sua casa sem paredes, casa de folhas e terra, telhado de nuvem , chuveiro natural, voo de beij a-flor cortando o ar que nem navalha colorida e depois pousando em si m esm o, com o é que pode? e você, sua boba, ainda não acredita na existência de Deus? É, m as esse calor, hem Orá? É m esm o, Gabri, a gente devia ter vindo é de short. Ou de nada, até que seria legal. Duas ninfas na estrada, e riam que riam , im aginando-se ninfas ao sol, que gozado, m as não brinca, m enina, este solão que não respeita nem m ata virgem , e a lagartixa sacudiu a cabeça dizendo para as duas: Estou acostum ada. Não disse m as pensou: Calor de vocês é em oção, a som bra está um a delícia na um idade do lim o e do m usgo e de tudo.
Bem , não vou descrever o espetacular painel que o Criador deu de graça ao hom em , e se continuo registrando as m enores reações das duas m ulheres diante de cada m oita de m aria-sem -vergonha, esta história que nem chega a ser história, eu preveni, só acaba no fim de 1974, quando as duas terão de descer im preterivelm ente para votar na m esm a seção eleitoral do Leblon, votar em quem m esm o? para — não im porta para quê, é obrigação, acabou-se. Mas o certo é que não pareciam dispostas a desafiar logo a m aj estosa aspereza do Bico do Papagaio, Oranice propôs um traj eto diversionista, o Açude da Solidão, e Gabriela, ia-m e esquecendo, confessou que tinha vontade de passar um m inutinho só na Gruta de Paulo e Virgínia, tão rom ântica! Lem branças que a gente guarda no coração de nosso coração né? Com o dizia o, com o é m esm o o nom e dele, ah, esqueci, deixa pra lá.
E se você topar, querida, eu queria ir ainda um pouquinho m ais longe, dar um a espiada na m inha cascata, que cascata, m ulher? Ora, a cascata Gabriela, no cam inho do Doutor Jardim , pois tendo um a cascata com o m eu nom e você acha que eu posso vir à floresta sem chegar até lá? Oranice sentiu a falta de um lago, um fio d’água, um trilho de paca cham ado Oranice, m as quem iria providenciar para ela, com todos os sítios e acidentes geográficos j á rotulados, desde o m aj or Archer até Raim undo de Castro Maia?
Estou m eio pregada, Gabri, m as se você faz questão eu topo. O Bico fica para logo m ais, né? Tá legal, o Bico não é tão urgente. Mas voltando àquele papo da gruta, que foi m esm o que aconteceu, você não quer m e contar? Ora, sua santa, não vai m e dizer que você tam bém nunca sentiu o apelo da natureza num lugar com o esse, em que tudo é convite a… a… bem , a celebrar a vida, com os passarinhos, as orquídeas, as resinas, as águas cum prindo o destino de viver, hem ? você é sonsa, Orá, m as a m im você não m e engana, sou capaz de j urar que. Não j ura, Gabri, não é preciso, eu tam bém sinto essas coisas, tam bém sou filha de Deus, viu? E com eçava a dizer o que a vista do Alm irante representa para ela, não com um alm irante no m eio, m as com um segundo-tenente, não sei que fim levou esse segundo-tenente, a Marinha viaj a tanto, a últim a notícia que tive dele foi num postal que não dizia a cidade nem o país, o carim bo era ilegível, não tinha selo, enfim , está navegando aí pelos m ares do m undo… enquanto eu prom eto, a algum leitor que chegou até aqui, a conclusão definitiva do caso na próxim a, tenha paciência, tchau.
III / Helicóptero
O sol ia baixando, e as duas m ulheres, depois de longo peram bular, tam bém baixavam de tom . Olhavam para os lados, para cim a, nada de seta ou cartaz recepcionista: “É aqui. Podem com eçar a subida. Eu, o Bico do Papagaio, lhes dirij o m uito saudar, não tem problem a, providenciei para vocês um cam inhozinho suave. Chegando à m inha cum eada, j á sabem , façam lanche sem cerim ônia, descansem , fiquem o tem po que quiserem , absolutam ente não m e incom odam nem pagam im posto de panoram a, a altura é grátis. Digo m ais, se pretendem passar a noite aqui em cim a, não tem colchão de m olas, m as sem pre se arranj a tapete de gram a e sono estrelado. Subam , am izades”.
Claro, seria dem ais exigir de um a pedra linguagem sem elhante. Mas custava deixar aberto um cam inho de rato, por onde elas fossem devagar e sem pre conquistando a m ontanha, custava? Era tudo escalvado ou espesso, espesso e escalvado, m ato-rocha-risco-vertical-m ortal. Não dá: as duas ao m esm o tem po, conclusivas.
E agora, Gabriela Nunes? Oranice Duarte, e agora? Estam os realm ente no m ato sem cachorro, nem latido dele ao longe se escuta, é m esm o a selva am ericana de onde não tardam a sair as piores onças, e nossos pés sangrando nas sandálias desprotetoras, nossa água acabou, nosso farnel acabou, acabou nosso proj eto de altas azuladas paragens, se ao m enos a gente resistisse até am anhã dariam por falta da gente no Leblon, telefonavam para os bom beiros, descia um helicóptero — as duas se encararam pronunciando ao m esm o tem po helicóptero, olharam ao m esm o tem po para o céu despido de qualquer sinal, qualquer m ensagem , não vinha helicóptero nenhum , não vinha…
Por que você falou helicóptero? Por que você tam bém falou? Falei, que que tem , m as falou de um a certa m aneira, você tam bém falou de um a certa m aneira, engraçado, falam os j untas no m esm o tom , nunca andei de helicóptero, você j á? Eu tam bém não, e agora até que ele seria bacana, m as não adianta pensar, vam os é sentar no chão de espinho e carrapato, carrapato é o de m enos, e as onças? Vam os cobrir o rosto com as m ãos e chorar am argam ente, espera aí, filha, isso tam bém não, vam os é procurar a estrada, vam os voltar de qualquer j eito, m as voltar com o?
E acenavam lenços brancos, aliás verm elhos, que tinham incluído com previdência nas m ochilas, em lugar de cordas de ny lon e gram pos de escalada, pois pensavam (ou tinham dito um a para a outra) que um a vez chegando ao pico do Bico içariam um a bandeira bem visível para assinalar, não perante o Brasil, m as perante si m esm as, o term o da façanha. E gritavam e tornavam a gritar, ei, gente, acode, socooooorro, m as o vento levava a angústia da vogal e com ela sum ia cada vez m ais a tarde, sum ia a esperança, cri-cris do crepúsculo tom avam conta do silêncio, e eram duas m ulheres sozinhas na floresta encravada na cidade de não sei quantos m ilhões de habitantes desinform ados, pois a ninguém tinham dito que iam conquistar o Bico do Papagaio, program a de dois dias, quinta e sexta, sábado descansariam felizes, enquanto a glória, que absolutam ente não nam oravam m as viria assim m esm o, explodia em m anchetes e reportagens a cores na TV, e o que havia para contar, m ostrando fotos, e a invej a das am igas e a pele dilacerada m as triunfante, cabelos entrançados de liquens, m ulheres que tinham virado vegetal, m ulheres terra granito… que m ulheres! Sem treinar no cam po-escola de Cascadura, sem preparo físico, sem consultar o livro excelente de Alice A. P. Mary an, Vida de pedra, que conta a experiência de escalar nossas m ontanhas, tinham vencido — m as venceram ?
A custo chegaram a um a clareira, perceberam um som que não vinha de feras, som de quatro ferraduras e cantiga de hom em , m isturadas. Aparição, santo invocado que vinha salvá-las? Era um vendedor de palm ito, m ontado num burrinho, saco de taquara na garupa. Calm o, parou, assuntou, a Cascatinha ficava longe m as se quisessem ele conduzia as duas até lá, um a no burrinho outra no calcante, se revezando. Quiseram , salvaram -se, era noite de m uita consciência rem oendo ao com passo do burrinho e as duas vinham se interrogando caladas, até que Oranice disse para Gabriela, confessa, você fez isso tudo para ser salva de helicóptero, não fez? E Gabriela não queria confessar m as disse para Oranice, fiz, e você tam bém fez, é, nós duas fizem os escondido um a da outra, e as duas se sentiram libertas do peso da intenção, tanto espavento para nada, não há helicópteros disponíveis para a fantasia de m ulher sem com prom isso, de duas m ulheres solteiras, sem com prom isso, am anhã a gente planej a outra form a de acontecim ento, é a vida, il faut tenter de vivre, disse Valéry, e disse bem .