De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica
Enciclopédia carioca
I / Verbete da bota
S. f., pelo gênero e atualm ente (1971) pelo uso. Calçado de couro, plástico ou borracha, adotado pelas m ulheres para a travessia de florestas, cerrados, caatingas, pântanos, rios e cany ons da cidade, serve para protegê-las contra onças, cascavéis, j acarés, carrapatos, espinhos, urtigas, índios com anches e outras espécies selvagens encontráveis nas ruas, cinem as, restaurantes, salões etc. Envolve o pé e a perna até abaixo do j oelho (b. com um ), chegando um pouco acim a deste (b. de canhão) e m esm o cobrindo parte substancial da coxa ou a coxa inteira (b. de água).
Sua aplicação à defesa do corpo fem inino é m ais ou m enos recente. Até pouco tem po, reservava-se a b. para trabalhos rurais ou subterrâneos citadinos, constituindo privilégio dos hom ens; abria-se exceção para algum as dam as afeiçoadas ao hipism o. Ultim am ente, agravando-se a periculosidade da selva urbana, as m ulheres acharam de bom aviso defender pelo m enos suas pernas do ataque de agentes m aléficos, e a b. foi a solução. As prim eiras estatísticas nosocom iais indicam resultados positivos dessa prática. Dim inuiu em trinta e quatro por cento o núm ero de m ulheres atendidas nos hospitais públicos e clínicas particulares da Guanabara em consequência de lesões nos m em bros inferiores, produzidas por elem entos daninhos, que vão desde a j aguatirica até o paquera exaltado. Mesm o em casos de acidentes, com o p. ex. o m ergulho inesperado em crateras oficiais estabelecidas no asfalto, verificou-se que a m ulher de b. fratura m enor núm ero de ossos do que sua com panheira desprovida desse invólucro de segurança.
Especialistas em estética plástica deploram que o revestim ento coriáceo das pernas dê à m ulher o ar de am azona sem cavalo, ou de cowboy de western italiano dem itido por fraco desem penho. Em contrapartida, sociólogos do IPEVITR (Instituto de Pesquisas da Vida em Transform ação) adm item que a adoção da b. representa aporte decisivo à elevação do status fem inino em term os de igualitarização e absorcionam ento de diferenciações residuais de prim eiro grau, com vistas à sociedade futura de patrim atriarcalism o integrado. A b. exonera-se da condição de sím bolo com plem entar de m acheza, para assum ir papel de elem ento reivindicatório de m aior participação da m ulher no trato dos negócios do m undo, que, por sua com plexidade e aspereza, estão exigindo apetrecham ento intelectual e m aterial dos m ais resistentes, inclusive b.-espora (que virá num a segunda etapa, é só esperar o próxim o lançam ento das boutiques). Um a cadeia de m agazines cogita m esm o, a título experim ental, de oferecer à venda certo núm ero de cavalinhos brancos, adaptáveis à garagem dos edifícios, e pouco exigentes em m atéria de ração, para situar a b. na visão im pecável que de certo m odo fará em udecer a crítica dos estetas.
Os hom ens, entretanto, não assim ilaram a conveniência do uso desse elem ento protetor na j ângal urbana. Ao que se sabe, nenhum deles, até agora, circulou de b. preta, m arrom ou branca na rua Visconde de Piraj á, no Copacabana Palace ou no Monsieur Puj ol, o que levou os sociólogos j á aludidos a alvitrar, com o hipótese de trabalho, que ocorre, na porção m asculina da espécie, tendência à abdicação de características form ais sedim entadas, no rum o de um a fem inilização com pensatória da m archa m ulheril em sentido progressional gradualista.
A literatura da b. fem inina ainda é incipiente. Contudo, registre-se a produção do poeta alexandrino-m asoquista João Brandão Neto, que term ina com o apelo: “Vem , vem pisar de b. e short no m eu peito!” (v. verbete short). O autor subm ete-se no m om ento a análise de grupo, enquanto anuncia a publicação da novela A B., em que analisa o com portam ento m asculino perante as im plicações eróticas da b. de verniz da m ulher, e conclui propondo a Super B., dos pés à cabeça, detonadora m áxim a de desej o.
II / Verbete do guarda-chuva
S. m . Instrum ento constituído de um a um bela preta de ny lon, sustentada por varetas flexíveis, que se abre e fecha conform e a estação e, em geral, a vontade de quem o usa. (Use sem abusar: o gc costum a esquivar-se à abertura, ou voar, em m om entos críticos de tem pestade.) Sua finalidade ostensiva é proteger a pessoa contra a chuva, m as tam bém protege a chuva contra si m esm a, acolhendo-a através de orifícios na forração, que a conduzem à pele e à roupa, onde ela se sente abrigada. Outra com petência é, ou era, servir de arm a de ataque, m esm o com sacrifício de sua estrutura; nesta função, acabou substituído por aparelhos m ais eficazes, que, após o serviço, conservam o poder de fogo. Um a terceira finalidade consiste em testar o grau de m em ória do proprietário: pesquisadores concluíram que perder m ais de doze gcs por m ês indica processo avançado de am nésia; a taxa de norm alidade oscila entre três e cinco. Entretanto, estudiosos da psicologia do gc (ciência ainda em form ação) asseveram que, na m aioria dos casos, é ele, gc, que espontaneam ente abandona o proprietário, para levar a vida ao sabor da aventura; deixa-se ficar em cinem as, escritórios, veículos coletivos; depois, segue rum os caprichosos, e j am ais regressa ao dom icílio. Sua capacidade de ocultação é superior à dos agentes secretos: com o os chineses, parece feito em série, o que lhe perm ite escapar à identificação. Contudo, cada gc tem m aneira particular de sum ir; há os que fogem da m ão sem que esta o perceba, e sabe-se de outros que circulam sozinhos, com o balões. Devido à coloração negra, convencionou-se atribuir m elancolia ao gc, m as o certo seria reconhecer-lhe hum or negro. Diverte-se em pregar peças ao dono e ao próxim o, sej a obstruindo o trânsito (a procissão de guarda-chuvas abertos equivale a engarrafam ento de autom óveis), sej a espetando sem aviso prévio os transeuntes, por m eio da virola ou da ponta das varetas, que se desprendem do forro para este fim . Seu bico de retenção é especialm ente ardiloso. Evita de todas as m aneiras que o instrum ento sej a utilizado, chegando a ferir os dedos quando eles insistem em abrir o gc sem disposição de prestar serviço. Outras vezes, produz abertura tão rápida que o indivíduo, fugindo ao tem poral, não escapa do pronto-socorro.
A origem do gc perde-se na noite das enciclopédias. Carece de fundam ento histórico a versão de tratar-se de produto m ineiro, com o o queij o de m inas (fabricado em São Paulo) e a m atreirice. Já na Antiguidade, era usado para o conforto de faraós e príncipes, no Egito e na Assíria; a iconografia francesa do século XVI m ostra-o adotado por personagens da corte. Em Minas, só aparece no final do século XIX, com o peça inseparável do equipam ento de políticos do extinto PRM, e hoj e serve de sím bolo à segurança bancária. Mas o gc do prim eiro-m inistro Cham berlain, da Grã-Bretanha, são outros quinhentos: suas varetas, dem asiado flexíveis, inspiraram a política da tolerância e passividade em face da agressão nazifascista, e foi o que se viu: um a segunda guerra m undial, dura de vencer. E foi m esm o vencida? Multidões fascistas, na Itália e em outros pontos do globo, sugerem dúvida a esse respeito.
A literatura do gc inclui, entre outros, poem as de Mauro Mota (que o com para a um a rosa negra, recolhida, durante m eses, à estufa, crescendo e abrindo-se na rua, debaixo da chuva) e de Cassiano Ricardo, disposto a atirá-lo ao m onte de obj etos inúteis, pois hoj e, “sob a poeira de estrôncio-90, não sabem os se está chovendo ou não”. Chove sem chuva, diz o poeta, e para essa chuva-sem -chuva não há gc que valha. Dois escritores franceses j á m eio esquecidos, Paul e Victor Margueritte, j untaram -se para escrever um conto com m oralidade: nunca esqueça o gc em casa de am igos; se um m inuto depois se lem brar, e voltar à sua procura, surpreenderá o pessoal da casa falando m al de você. E o gc participando da conversa. Não facilite. E ande descoberto, pois tanto faz.
III / Verbete do telefone
S. m ., singularíssim o. Aparelho inventado pelo físico norte-am ericano Alexander Graham Bell, no decurso de pesquisas para fazer os surdos ouvirem . Mais tarde, seu aperfeiçoam ento no Brasil deu-lhe finalidade oposta: veda a transm issão de sons de qualquer natureza, entre indivíduos à distância, elim inando um dos m ais terríveis fatores da poluição sonora que aflige a hum anidade. Hoj e, quem quiser assegurar-se o gozo de vinte e quatro horas diárias de silêncio pessoal, ou proporcioná-lo a seus am igos, deve alugar um desses engenhosos aparelhos, que vêm acom panhados de três grossos volum es im pressos, contendo, por ordem alfabética: a) nom es de pessoas, firm as ou entidades oficiais a quem podem os oferecer o benefício da surdez, ou de quem se alm ej a receber o benefício da m udez; b) nom es de ruas, avenidas, praças, becos etc., onde tais entidades, firm as e pessoas têm endereço, para se fruir sensação m ais nítida de que realm ente existem e não é vão nosso propósito de estabelecer com elas o relacionam ento da surdo-m udez; c) relação de utilidades e/ou inutilidades de toda espécie que renunciam os a adquirir ou vender por m eio do t., tornando assim m ais positiva a natureza delicada do citado relacionam ento alheio a qualquer interesse m ercantil.
A enorm e popularidade do t., em época de ruídos m il que afetam o equilíbrio psicossom ático, gerou o abuso de sua utilização, determ inando o excesso de correntes de silêncio que, entrecruzando-se e em aranhando-se, produziam ruído inesperado, contrário ao obj etivo que inspirou o seu m odelo nacional. Daí a providência drástica, adotada sabiam ente, de se lim itar a três por dia o núm ero de cham adas-silêncio, com que gratificam os os dem ais usuários ou som os gratificados por eles.
A partir desse teto, um a taxa extra é cobrada em proveito da assistência a doentes m entais que teim am em falar e ouvir algum a coisa — pelo m enos um a velha palavra de significação obscura: “alô” — por interm édio do t. Desgraçadam ente, o núm ero desses enferm os não é pequeno, pois ainda não se conseguiu extirpar com pletam ente do ideário popular a noção obsoleta de que o t. se destina à com unicação oral, e a frustração da expectativa conduz a neuroses e distúrbios psíquicos m ais graves. Am pla cam panha educativa está sendo planej ada para esclarecim ento dos recalcitrantes.
Basicam ente, o t. é constituído de um m icrofone, um auscultador, um gancho com utador, um disco de cham ada num erado, um a cam painha e um silenciador; esta últim a peça representa contribuição brasileira para o seu aprim oram ento. Um inventor sergipano propôs elim inar todos os elem entos, criando o t. puro, em form a de vácuo, m as esta invenção im plicava o desem prego de m ilhares de técnicos, trabalhadores incum bidos do controle e expansão da rede telefônica, e entregadores dos três volum es de catálogos de endereços, pelo que foi considerada antissocial e posta de lado.
Nada m ais sim ples do que o uso do t. Basta pegar o fone do gancho e colocá-lo ao ouvido direito ou esquerdo, com o se preferir, e recebe-se a m ensagem antissonora; a m esm a coisa para transm itir m ensagem idêntica, aproxim ando os lábios dos orifícios transm issores. O disco num erado serve de elem ento decorativo, m as tam bém convida à elaboração de cálculos m atem áticos sobre a duração, o grau pacificador e autopacificante da m ensagem , em term os de energia espiritual. Um ou outro pequeno chiado, zum bido, estalo e interferências congêneres devem ser levados à conta de m á disposição m oral da pessoa do outro lado da linha, e não a defeito do aparelho: este é incapaz de em itir o ruído m ínim o de um a pata de m osquito cam inhando sobre veludo.