De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 61 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

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Parou, hesitante, em frente à banca de j ornais. Exam inou as capas das revistas, um a por um a. Tirou do bolso o recorte, consultou-o. Não, não estava incluída na relação de títulos, levantada por ordem alfabética: Stern, Swank, Tic, Tim Dane… Mas quem sabe havia relação suplem entar, feita na véspera?

Na dúvida, achou conveniente estudar a cara do j ornaleiro. Era a m esm a de sem pre. Mas talvez ocultasse algum a coisa, sob a aparência habitual. O j ornaleiro olhou para ele, sem transm itir inform ação especial no olhar, além do reconhecim ento do freguês.

Peço? perguntou a si m esm o. Ou é m elhor sondar a barra?

— Com o vão as coisas?

— Vão indo, m eio paradas.

— Não tem vendido m uita revista?

O j ornaleiro fitou-o, sério:

— Nem todo dia é dia de vender m uita.

— Eu sei, m as tem revista e revista.

— Lá isso é.

— A lista está com pleta?

— Que lista?

— Das revistas proibidas.

— Ah, sim , o listão. O senhor queria que não estivesse com pleto?

— Eu? Perguntei apenas. Gosto de saber das coisas com certeza. Às vezes a gente pede um a revista que não tem m ais, que não pode m ais ter à venda, e…

— Caso sério — suspirou o j ornaleiro.

— Por isso que perguntei. Não quero grilo, entende?

— Entendi.

— Nem para o senhor nem para m im , é lógico.

— Tá legal.

— Além do m ais, gosto de cum prir a lei. O senhor tam bém não gosta?

— Muito.

— Sou assim . Sem pre gostei. Cum pro a lei, cum pro o decreto, cum pro o regulam ento, cum pro a portaria, cum pro tudo.

— Eu tam bém . E daí?

— Daí, não estou vendo a revista que eu queria, e fico sem saber se posso querer, se a lei m e autoriza a querer m inha revista.

— Bem , se não está no listão, eu tenho.

— E por que não expõe?

— Não posso expor tudo ao m esm o tem po. Tenho que m ostrar as revistas esportivas, as de palavras cruzadas, as de cozinha, os fascículos de bichos e viagens, as leis de im pacto… Com o é que sobra lugar?

— Com preendo. Mas não achando a revista exposta, receei que ela não pudesse m ais circular.

— Por quê? Tem m uita m ulher nua, colorida, página dupla?

— Não.

— Marm anj o nu, com o está na m oda?

— Tam bém não. De vez em quando publica um as fotos pequeninas, de cenas de film es ou peças de teatro, com barrigas e pernas de fora.

— Bem , sendo assim …

— Sendo assim , o quê? Estou vendo na sua banca m ulheres de posterior de fora, bem salientes, em páginas abertas.

— Ah, m as estas são revistas nacionais privilegiadas. Porque é a m inha vez de dizer: tem revista e revista.

— E tem posterior e posterior. Não im porta. Não é posterior nem anterior que m e interessa ver em revista. Estão na rua, para que procurar no papel? Me interessa é as notícias, é com o vai o m undo, e o que se com enta sobre ele. Quero um a revista de atualidades.

— Por que não disse logo?

— Porque tem atualidade e atualidade, então não sei? Pode m e vender, o Time, ou ele tam bém j á foi proibido, com o Der Spiegel e Stern? Vej a bem , não desej o com prom etê-lo. E m uito m enos a m im , é evidente. Mas só quero o Time se o senhor garantir que posso levar ele para casa sem infringir a lei.