De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 47 de 72

Páginas do PDF

De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Ecologia

civilização

 

O veado-galheiro-do-norte reuniu a fam ília e:

— Rápido, pessoal, vam os dar o pira que isto aqui na Am azônia está cheirando a fum aça!

O veado-m ateiro, seu prim o, e a capivara, vizinha dos dois, sentiram o m esm o odor e dispararam tam bém . Com pouca sorte: no Maranhão ouviam -se tiros, em Mato Grosso pairava cheiro de carne assada; em Goiás…

Lá em baixo, no Rio Grande do Sul, pobre do m arrecão-da-patagônia; distraiu-se e seu dia chegou. Não lhe serviu de consolo ver o m açarico-preto e a caturrita tom barem do m esm o galho.

Pelo Brasil inteiro ouve-se: Pum ! Pum ! Pum ! Ou, se preferem versões am ericanas, de quadrinhos: Bam! Zing! Crash!

São os bichos caindo, as aves baixando em voo m orto, a caça legal, autorizada pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvim ento Florestal. Até 31 de agosto, aproveitem , caçadores. Podem m atar a seu gosto. Com apenas três restrições:

1) Cacem por esporte; não cacem para ganhar dinheiro ou por m aldade.

2) Evitem caçar certas espécies, que são sagradas.

3) Não cacem m uito; lim item o núm ero de anim ais caçados, para que sem pre restem alguns no m ato.

Tirante isso, m eus prezados, a fauna lhes pertence. Gosta de codorna, e não sim plesm ente de ovos da dita? Então, vá a Minas, vá a São Paulo, ao Paraná. Estado do Rio, não; codorna sob o governo do dr. Padilha tem de ser respeitada. É para o inham bu que vai o seu paladar? Não queira prová-lo no Espírito Santo nem na Bahia; dirij a-se a São Paulo. Paca, essa boa carne, está pulando à sua disposição no extrem o Norte, m as desista desse prato em Santa Catarina. O m esm o bicho é caçável num estado, incaçável noutro.

Carece de o caçador levar na m ão a arm a e a portaria do Instituto, para não se enganar, e um bom m apa do Brasil tam bém . O m esm o recom endo aos bichos: vocês têm que aprender a ler, queridos; ou pelo m enos arranj ar um radinho de pilha, que os oriente para onde devem se m andar, se residirem em unidade federativa onde foi perm itida a m atança de vocês. Cuidado com inform antes e dedos-duros: qualquer descuido pode ser fatal. Estudem as questões de lim ites que ainda persistem entre alguns estados, para evitar o pior. Narcej a pousada no galho, precisa saber se o tronco fica do lado de cá ou do lado de lá; o brej o que ela aprecia j á foi fotogram etrado? Olhe o risco de um tiro legal, procedente de qualquer das m argens.

Outro problem a, a num eração. Saracura, o caçador licenciado tem direito de

liquidar cinco; a no 6, que andar escondida por perto, não está livre de ser im olada à contagem errônea. Caça e caçador geralm ente não chegam a acordo, e que adiantaria m ostrar a este a estatística de saracuras sacrificadas? Ele se enganou, pronto: m ata seis, m ata sete.

Recom endar a presença de fiscal j unto ao caçador licenciado, para que não derrube m ais de dez m arrecas-dos-pés-encarnados? Não quero pôr em dúvida a integridade dos fiscais de qualquer natureza, m as carne de m arreca é tão sublim e, quando bem preparada! Vá lá, pode derrubar ainda um as três ou quatro, de pinga. Mas não se esqueça aqui do titio, hem ? E a ideia de instalar um com putador nos capoeirões brasileiros, para controlar o teto das caçadas, m ostra que o surrealism o continua vivo. De qualquer m odo, fiquem sabendo: caçar dez irerês é esportivo; onze, j á constitui abuso contra a natureza. Quer acabar com a raça?

— Mas eu sou cam peão de caça a irerê e queria bater m eu recorde!

Calm a, am izade. Você ainda tem direito a abater dez inham buxororós, dois inham bus-canela-roxa, dez codornas… Seu clube lhe dará novos troféus.

Bem , a caça é perm itida nas regiões e períodos em que não se desenvolve a fase de reprodução das espécies. É princípio universal, a que se subm ete nosso Código de Caça. Respeita-se a reprodução, para que ela assegure a estocagem de anim ais a serem caçados por esporte, sob tais e quais condições restritivas. Garante-se a natureza, por um lado; por outro, garante-se o esporte, que desfalca a natureza. Mas que esporte é esse, fundado na m orte de anim ais inocentes, e não na alegria da vida, que dá sentido às com petições da força e da higidez?

Palavra que não entendo. Não o entendia Paul Léautaud, que se rej ubilava quando o tiro destinado à caça pegava a nádega de outro caçador. Não chego a tanto, m as suspeito que falta ainda m uito para se inscrever nos dicionários o exato sentido da palavra civilização.