De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 62 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Economia & Mercado

econom ia & m ercado

conversa alheia

 

Escutar conversa alheia não é o m eu hobby, m as se as palavras entram pelos ouvidos da gente sem pedir licença, que rem édio senão escutá-las? No restaurante, em m esa quase encostada à m inha, j antavam dois rapazes de pouco m ais de vinte anos, vestidos e penteados com esm ero (apenas o cabelo um pouco longo), e m antinham o diálogo que reproduzo com possível fidelidade:

— Quanto a isso não há dúvida, m eu caro. Cheguei à conclusão de que tem os de prom over um a política inteligente de especialização setorial.

— É óbvio, m as você não acha que cum pre ao m esm o tem po equacionar o grave estrangulam ento do setor externo?

O prim eiro concentrou-se, antes de responder:

— Ora, essa m eta não oferece percalços, um a vez que se alcance a m édio prazo — eu disse a m édio prazo — a dinam ização de nossas rendas nos m ercados forâneos. Correto?

— Mas qual a processualística? Pela fixação de tetos perm issíveis?

— Talvez. Penso antes no escalonam ento gradativo do aporte de recursos.

O outro ponderou, m ansam ente:

— Mas você precisa ter em m ente a factibilidade das expansões proj etadas…

— E não tenho? Nunca perdi de vista o aspecto conj untural, m eu velho.

— Outra coisa. Se não cogitarm os tam bém , em escala prioritária, dos suportes de infraestrutura, j á se sabe: nada feito.

— Lá isso é verdade. Quer dizer, em term os. Neste caso, que é que você pretende: que se m onte um esquem a preferencial?

— Bom , depende. Em últim a análise, não m e parece que se deva im prim ir dem asiada ênfase à reform ulação da estrutura organizacional, m as, por outro lado, levando em conta determ inadas circunstâncias sazonais…

— Com preendi. De qualquer form a, há esse problem a da capacidade redim ensionada para prover as futuras necessidades de expansão. Correto?

— Correto. É com o eu costum o esclarecer lá no Centro de Investigações Socioeconôm icas de Alto Nível: tudo depende do desem penho do setor de produção, a m enos que…

— Já sei. A m enos que o processo de decom posição do setor…

— Não. Quanto a este tópico, não estam os absolutam ente em consonância. No caso especial — e você bem sabe com o ele é especial — da m axim ização das receitas cam biais…

— Lá vem você com m axim ização! Que é isso, filho. Você, ao contrário, m inim iza a evidência de que é necessário atuar ao nível de proj eto, tendo em perspectiva, por exem plo, os bons frutos do café flexível.

— Ah, é? E você, que em suas análises coloca em segundo plano a inelasticidade das dem andas de café? Você nega, faça o favor de m e dizer, você nega a distorção gradualista na com paração de preços?

— Calm a, não vam os entrar em conflito teórico e m uito m enos factual. Afinal de contas, convenham os, tudo resulta, às vezes, do com portam ento de equipam entos periféricos de processam ento de dados, que nos induzem a postulações suscetíveis de revisão.

— Nisso eu concordo com você. Operacionalm ente…

— Não é segredo para ninguém , na área inform acional, que eu vivo m e em penhando pela elevação do conteúdo tecnológico.

— Nem eu digo o contrário, fique certo disto. Porém , o relacionam ento…

— Espere um pouco. Antes que m e esqueça, há um ponto nodal: a sistem ática da arrecadação, integrada na problem ática geral de um a política agressiva de utilização de recursos geotécnico-sócio-hum anos, a serviço da globalização do esforço geracional total. Sim ples, com o vê.

— Muito. Eu dirigiria o enfoque para a capacidade subutilizada desse esforço.

— Perfeito. Vam os ao m elão com presunto?

— O.k. Ao m elão com presunto.

Não se deve escutar conversa dos outros, m as aprende-se m uito escutando conversa dos outros. Morm ente de econom istas.