De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 29 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Sociedade

o convidado agradece

 

Há dias, em certo j antar naquela cobertura da Zona Sul, um convidado pediu a palavra, e tal foi a surpresa que ninguém se m exeu para recusá-la. É de lem brar que há m uito na Zona Sul desapareceu o hábito de usar da palavra à m aneira clássica: um falando e os dem ais reduzidos ao silêncio, ouvindo. Há talvez m eio século que se instituiu a conversa generalizada, isto é, todos falando ao m esm o tem po, com a voz ou com o garfo, pois com er é tam bém m aneira eficiente de com unicar-se: o apetite cham a o apetite, e os apetites porfiam no diálogo m anducativo. Esta segunda técnica de com unicação é, m esm o, a preferida.

Não se lhe tendo recusado a palavra, ela tam bém não lhe foi concedida, pois o espanto dom inava as fisionom ias e os talheres. À falta de sim ou não, perem ptório, o hom em tom ou a palavra resolutam ente, e disse que ia agradecer. Agradecer o quê? perguntou a si m esm o. E a si m esm o respondeu, com o o saudoso m inistro Ataulfo de Paiva: tudo. E prosseguiu:

— Tudo é para agradecer, a com eçar pelo fato de estarm os aqui reunidos, degustando o excelentíssim o arroz com castanha-de-caj u, digno da m esa dos deuses, com o outro igual ainda não com i, e creio que todos os presentes j urarão o m esm o. Gozar da am izade de Baby e Lulu Fontam aro é um a felicidade para o coração e para o paladar.

Mas, se estam os aqui reunidos, papando o bom arroz do casal, obviam ente é porque em placam os m ais este setenta e um , e se em placam os, é forçoso agradecer o em placam ento. Já im aginaram se todos nós houvéssem os tom ado a barca de Caronte antes desta noite am ena sob as estrelas, pois até estrelas Lulu e Baby providenciaram neste dezem bro de chuva? Que desolação reinaria nesta casa, que abandono, que gélidas im agens de finitude — m as nem quero insistir, rendo graças à vida e à sua conservação, à m aravilhosa circunstância de term os vencido todos os elem entos que conspiravam contra a nossa perm anência em nossos respectivos dom icílios, gabinetes, escritórios, em pregos e m esm o desem pregos, pois há quem viva disto, e viva bem .

Agradecer à vida é agradecer inclusive os seus m ales, porque nos pouparam ou só de leve nos atingiram com sua farpa. Nossas gripes não se entenebreceram em pneum onias duplas; nossos em baraços gástricos e/ou financeiros não nos derrubaram . Passo os olhos em torno desta m esa florida (que soberbo arranj o de flores você conseguiu com sua criatividade, Baby !) e não vej o nenhum aleij ado. Se alguém aqui usa perna m ecânica, eu o felicito, pois absolutam ente não se percebe, e noto nos convivas um a aérea leveza de Nurey ev. Graças! graças sej am dadas à vida, em sua plenitude às vezes contraditória, m as, no fundo, dialética, perfazendo a síntese expressa nesta gratíssim a reunião!

Agradeço ao charuto do nosso am igo Nivaldo, que, ao acendê-lo antes de term inado o j antar, e soprando baforadas j unto às faces pulcras de Jeanete Taborda, nem por isto eleva o índice de poluição am biente na Guanabara, pois com o este índice j á chegou ao m áxim o, pretensão inútil seria tentar aum entá-lo. Eis um a dem onstração obj etiva que devem os ao Nivaldo (obrigado, com panheiro), ao m esm o tem po em que cabe agradecim ento especial ao referido índice de poluição, de vez que ele com provou a fortaleza de nossos organism os, resistentes a tudo. Enfrentarem os sorridentes os futuros flagelos sociais que se desencadearem sobre nossas cabeças, um a vez que o hom em provou ser sem pre superior a qualquer flagelo na história, sem em bargo das baixas sofridas na sem piterna pelej a.

Agradeço à língua portuguesa por m e haver obsequiado com esta palavra sempiterna, que suponho pronunciada pela prim eira vez na Zona Sul, onde se diz que tudo é passageiro, as situações não duram m ais que um a estação de praia ou um drink no Country, e am anhã j á é ontem . Agradeço às guerras não declaradas, ou declaradíssim as, no Vietnã, no Cam boj a, no Oriente Médio, no Paquistão Oriental, por absurdo que pareça m eu ponto de vista: elas estim ulam o estudo da geografia através de notações concretas, dão m atéria a correspondentes, fotógrafos e com entaristas internacionais, e assegurando a continuidade dos debates acadêm icos na ONU, garantem trabalho infindável às delegações. Eu quisera estar lá (na ONU, não na guerra) em pessoa, m as, com o nem sem pre as aspirações elevadas são factíveis, dar-m e-ei por satisfeito (e agradecerei) se o governo se lem brar de m eu filho Joanito para assessor de qualquer coisa naquela Assem bleia. Ele é habilitado.

Em sum a, agradeço. De coração. A tudo. Seria im possível m inudenciar as gratidões, pois chegam os à sobrem esa, e quero agradecer desde logo esta espetacular m usse de m anga gelada, nunca outra igual saboream os antes, ou não é de m anga? ah, é de pêssego, pois eu afirm o do m esm o m odo que…

Aí faltou luz, e o hom em acrescentou:

— Agradeço à Light: ela não falha nunca nestas horas.