De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 67 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Viúva loura

 

— “Viúva, vinte e um anos…”

— Tadinha. A vida é isso.

— “Loura…”

— Melhorou.

— “Fazendeira, rica…”

— Epa, m uda com pletam ente de figura.

— “Pertencente a tradicional fam ília m ineira…”

— Corta essa!

— “Recém -chegada do interior…”

— Então, não custa sondar a barra.

— “Procura com panhia m asculina…”

— Ainda bem que é m asculina. Tou às ordens.

— “Que sej a j ovem …”

— Você acha que trinta e oito anos está na pauta?

— “Bem -intencionado…”

— Nunca fui outra coisa na vida.

— “De fino trato…”

— Não é por m e gabar, m as…

— “Conhecedor dos pontos pitorescos do Rio…”

— Que é que ela entende por pontos pitorescos? Eu prefiro pontos estratégicos.

— “Para passeios e…”

— Etc., lógico.

— “Futuro com prom isso m atrim onial…”

— Corta! Corta!

— É m esm o.

— Aliás, eu não tenho m ais trinta e oito. Tinha, sem ana passada.

— E rica… Rica de quê? Talvez de predicados, apenas.

— Poxa, até parece que você está querendo a viúva pro seu bico. Pera aí, m au-caráter.

— Eu? Vê lá se eu vou nessa onda de anúncio. Tou prevenindo pra você não se grilar. Viúva m ineira, loura… Se é m ineira, não deve ser loura. Se é loura, é artificial. Se é artificial…

— Deixa a viuvinha ser loura e m ineira, deixa.

— Olhe, eu conheci um a loura que, além de outros negativos, era careca.

— Ora, peruca resolve.

— Sei não, m as tudo isso j unto — m ineira, viúva, loura, vinte e um anos, rica…

— Que é que tem ?

— É exagero. Não precisava ter tantas qualidades.

— Foi um a graça de Deus.

— Você não m erece tanto.

— Será outra graça de Deus.

— Deus não deve ser assim tão desperdiçado com suas graças.

— Lá vem você querendo dar instruções ao Altíssim o. Perde essa m ania.

— Bom , m as você não sabe que m ineiro esconde m ilho até do m onj olo?

— Continua.

— “Cartas com sigilo absoluto…”

— Evidente.

— “Indicações pessoais…”

— Minha ficha é m ais lim pa do que caixa-d’água de edifício quando o síndico vai ao terraço.

— “E fotos…”

— Arrgh! Só tenho 3x4, m uito faj uta. Mas tiro de calção, frente, perfil e fundos.

— “Para a portaria deste j ornal, sob no 019 834.”

— Pera aí. Tou anotando. 019?

— 834.

— Legal. 834 é o núm ero do m eu edifício, dezenove é pavão, que tem a perna dourada. Lê m ais.

— Já li tudo, ué.

— Lê outra vez. Repete.

— Vai decorar?

— Vou gravar m elhor na cuca, vou raciocinar em bloco, vou…

— Se habilitar, né?

— Correto.

— Calm a, rapaz. Sabe lá que espécie de viúva é essa?

— Vou ver pra conferir.

— Pode nem ser viúva.

— E daí?

— Diz que tem vinte e um anos, m as quem garante que não é m odéstia? Às vezes tem três vezes vinte e um .

— Então você adm ite que ela é m ineira.

— E que cria galinha sem ração, na base da parapsicologia?

— Tam bém sou m ineiro, uai.

— E nunca m e confessou! Eu j urava que você fosse capixaba.

— Fui. Questão de lim ites, m inha terra passou pra banda de cá. Não espalha, sim ?

— Me tapeou esse tem po todo!

— Esquece.

— Vai ser dura a parada: m ineira loura versus m ineiro m ascarado.

— Fica em fam ília, né?

— A tradicional?

— As duas. Eu na m inha, ela na dela.

— Agora sou eu que digo: tadinha.

— Por quê? Se ela botou anúncio, quer transar. Eu transo. No figurino.

— É verdade que tem m uito carioca por aí, m uito paulista, m uito nortista, espiando m aré. Talvez você chegue tarde.

— Duvido. Você sabe que nessas coisas sou m eio Fittipaldi. Com igo é Fórm ula 1.

— Mineiro contando prosa? Nunca vi isso.

— Bem , m ineiro é capaz de contar prosa só pra esconder que é m ineiro…

— Chega, am izade, você j á ganhou a viuvinha com fazenda e tudo, podes crer!