De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 45 de 72

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Saúde

coração segundo

 

— De acrílico, de fórm ica, de isopor, m eticulosam ente com binados, fiz m eu segundo coração, para enfrentar situações a que o prim eiro, o de nascença, não teria condições de resistir. Tornei-m e, assim , hom em de dois corações. A operação sigilosa foi ignorada pelos repórteres. Eu m esm o fabriquei m eu coração novo, nos fundos da casa onde m oro. Nenhum vizinho desconfiou, m esm o porque sabem que costum o fechar-m e em casa, sem anas inteiras, m odelando bonecos de barro ou de m assa, que depois ofereço às crianças. Oferecia. Meus bonecos não têm arte, representam o que eu quero. Fiz um Einstein que acharam parecido com Lam pião. Para m im , era Einstein. Os garotos riam , tentando adivinhar que tipos eu interpretara. Carlito! Não era. Às vezes, não sei por quê, adm itia que fosse Carlito. Nunca dei im portância a leis de sem elhança e verossim ilhança, que sufocam toda espécie de criação.

Mas, com o disse, fiz m eu coração sem ninguém saber. E à noite, em perfeita lucidez, abrindo o peito m ediante processo que não vou contar, pois m inha descrição talvez horrorizasse o leitor, e eu não pretendo horrorizar ninguém — abrindo o peito, instalei lá dentro esse coração especial, regulado para não sofrer. Ao m esm o tem po, desliguei o outro. Com o? Tam bém prefiro não explicar. Possuo extrem a habilidade m anual, aguçada à noite, e sei o que geralm ente se sabe dos órgãos do corpo e suas funções e reações, depois que ficou na m oda tratar dessas coisas em j ornais e revistas. Além disto, m inha capacidade de resistir à dor física sem pre foi praticam ente ilim itada. Desde criança. Mas as dores m orais, as dores alheias, as dores do m undo, acim a de tudo, estas sem pre m e vulneraram . Recom pus a incisão, senti que tudo estava perfeito, e fui dorm ir.

Na m anhã seguinte, ao ler as notícias que falavam em fom e no Paquistão, guerra civil na Irlanda, soldados que se drogam no Vietnã para esquecer o m assacre, explosão experim ental de bom bas de hidrogênio, tensão perm anente no canal de Suez, golpes vitoriosos ou m alogrados na Am érica Latina, bem , não senti absolutam ente nada. O coração funcionava a contento. Fui para o trabalho experim entando sensação inédita de leveza. No cam inho, vi um corpo de hom em e outro de m ulher estraçalhados entre restos de um autom óvel. Pela prim eira vez pude contem plar um espetáculo desses sem m e crispar e sem envenenar o m eu dia. Fitei-o com o a obj etos de um a casa expostos na calçada, em hora de m udança. E passei um dia norm al. Trabalho, refeições, sono, igualm ente norm ais, coisa que não acontecia há anos.

Meu coração fora planej ado para evitar padecim ento m oral, e desem penhava bem a função. Assisti im passível a cenas que antes m e fariam explodir em lágrim as ou protestos. Felicitei-m e pela excelência. Mas aí com eçou a ocorrer um fenôm eno desconcertante. Eu, que não sofria com as doenças que m e assaltavam , passei a sentir reflexos de m oléstias inexistentes. Sim ples corte no dedo, sem inflam ação, afligia-m e com o chaga aberta. Dor de cabeça que passa com um com prim ido ficava durante sem anas. Meu corpo tornou-se frágil, exposto ao sofrim ento. E eu não tinha nada. Consultei especialistas, fiz checkup, não se descobriu qualquer lesão ou distúrbio funcional. Eram penas im otivadas,

gratuitas. Meu coração no 2 passava pela radiografia sem ser percebido. Irredutível à dor m oral, era invisível a aparelhos de precisão.

Com ecei a sofrer tanto com os m eus m ales carnais que a vida se tornou insuportável. A dor aparecia especialm ente em horas im próprias. Em reuniões sociais. Em concertos. No escritório, ao tratar de negócios. Então fazia caretas, em itia gem idos surdos, assum indo aspecto feroz. Assustavam -se, queriam cham ar am bulância, eu recusava. Tinha m edo de que descobrissem o coração fabricado.

Outra coisa: as crianças com eçaram a achar estranhos m eus bonecos, não queriam aceitá-los. Sem pre gostei de crianças. E elas m e repeliam . Esm erei-m e na feitura de peças que pudessem cativá-las, m as em vão.

Hoj e vi um hom em encostado a um oiti, diante do m ar. Sua expressão de angústia dava ao rosto o aspecto de chão ressecado. Tive pena dele. Surpreso, ignorando tudo a seu respeito, m as participando de sua angústia e trazendo-a com igo para casa.

Agora à noite, decidi-m e. Voltei a abrir o peito e exam inei o coração segundo. Com pequena fissura no isopor, j á não era perfeito. Ao tocá-lo, as partes se descolaram . Inútil restaurá-lo. Joguei fora os restos, liguei o antigo, e fechei o cavernam e. Talvez pela falta de uso, sinto que o coração velho está rateando. Que fazer? E vale a pena fazer? A m anhã tarda a chegar, e não encontro resposta em m im .