De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica
O busto proibido
Em oção na praia. Alguém bracej a entre as ondas, desesperadam ente. O salva-vidas, de costas para o m ar, nem ligou.
— O senhor não vai salvar a vida daquele desgraçado, que está m orrendo?
— Calm a, tudo a seu tem po. Ordens são ordens. Prim eiro tenho que salvar o pudor público, detendo aquela senhorita ali, que está com as m am inhas de fora.
Mas a senhorita, se estava com as ditas ao sol, recolheu-as im ediatam ente, ou seria m iragem do deserto? O salva-vidas esfregou os olhos, encarou o busto prim averil, que absolutam ente não oferecia pasto com pleto à gulodice visual, e não pôde fazer nada.
— Os cavalheiros que se acham nas proxim idades não viram por acaso esta senhorita atentar contra a m oral?
— Não senhor.
— Eu não vi.
— Nem eu.
— Corta essa, aqui som os todos partidários da m oral e do Mobral, e ninguém viu nada.
— É a tal história. Mandam a gente exercer fiscalização severina sobre o vestuário das m oças, quer dizer, sobre a falta de vestuário, e não sei o que é que vou fazer para m ostrar serviço. Tá tudo legal. A senhorita m e desculpe.
— De nada.
A essa altura, que foi feito do afogado? Se não esperou, azar dele. A ronda continua pela praia. Essa outra enterrou-se totalm ente na areia, só a cabeça aparece, e desperta suspeita. Ou não? Pelas dúvidas, convém sindicar:
— A senhorita quer ter a bondade de sair para fora da areia?
— Ah, seu salva, estou tão bem aqui.
— Acredito, m as o delegado…
— O delegado proibiu a gente de se esconder na areia?
— Que eu saiba, ainda não. Mas estou vendo o seu sutiã do lado de fora, com o bronzeador e outras coisas, e saquei as m inhas conclusões.
— E daí? Dentro da cova de areia posso até ficar pelada cem por cento, ninguém tem nada com isso.
— É, m as e na hora de sair da areia?
— Aí o senhor m e prende, antes não. Eu estou decentem ente vestida de areia, não estou?
— E se um gaiato passar por aqui e levar o seu sutiã, com o é que a senhorita se arranj a para sair da praia?
— O senhor m e prende, uai. Problem a seu. Agora, j á im aginou o grilo que vai dar o senhor m e levando para o distrito nessas condições?
— Mineira, hem ? O pessoal em Minas está ficando m uito pra frente.
— Faz-se o possível. Mas vocês, no Rio, não colaboram , inventam cada um a.
— Por m im , não. Tam bém sou m ineiro e com m uita honra, viu? Mas é a tal de ordem superior, sabe com o é? Mineiro é vidrado em m ar, isso influiu na escolha de m inha profissão. Até, se eu pudesse, não estava aqui de salva-vidas e salva-não-sei-o-quê. Estava dando um a de banhista, sim plesm ente.
— Legal. Eu sabia que você não ia m e prender por um a bobagem dessas.
— Bem , eu…
— Mineiro tem que ser solidário tam bém na pouca roupa, entende?
— Falou. Então, na hora de sair, m e avise.
— Pra quê? Vai bancar o voyeur?
— Sei lá o que é isso. Pra fazer a cobertura, dar proteção, im pedir que a turm a entusiasm ada arranque até a parte de baixo…
— Não precisa, m eu chapa. Eu estou de duas peças, sabe? Botei do lado de fora esse sutiã de reserva, não foi pra perturbar, é porque um a onda m ais velhaca pode deixar a gente com o Eva é servida, e eu sou m ineira, m ineiro acorda prevenido pra tudo!