De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 9 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

O busto proibido

 

Em oção na praia. Alguém bracej a entre as ondas, desesperadam ente. O salva-vidas, de costas para o m ar, nem ligou.

— O senhor não vai salvar a vida daquele desgraçado, que está m orrendo?

— Calm a, tudo a seu tem po. Ordens são ordens. Prim eiro tenho que salvar o pudor público, detendo aquela senhorita ali, que está com as m am inhas de fora.

Mas a senhorita, se estava com as ditas ao sol, recolheu-as im ediatam ente, ou seria m iragem do deserto? O salva-vidas esfregou os olhos, encarou o busto prim averil, que absolutam ente não oferecia pasto com pleto à gulodice visual, e não pôde fazer nada.

— Os cavalheiros que se acham nas proxim idades não viram por acaso esta senhorita atentar contra a m oral?

— Não senhor.

— Eu não vi.

— Nem eu.

— Corta essa, aqui som os todos partidários da m oral e do Mobral, e ninguém viu nada.

— É a tal história. Mandam a gente exercer fiscalização severina sobre o vestuário das m oças, quer dizer, sobre a falta de vestuário, e não sei o que é que vou fazer para m ostrar serviço. Tá tudo legal. A senhorita m e desculpe.

— De nada.

A essa altura, que foi feito do afogado? Se não esperou, azar dele. A ronda continua pela praia. Essa outra enterrou-se totalm ente na areia, só a cabeça aparece, e desperta suspeita. Ou não? Pelas dúvidas, convém sindicar:

— A senhorita quer ter a bondade de sair para fora da areia?

— Ah, seu salva, estou tão bem aqui.

— Acredito, m as o delegado…

— O delegado proibiu a gente de se esconder na areia?

— Que eu saiba, ainda não. Mas estou vendo o seu sutiã do lado de fora, com o bronzeador e outras coisas, e saquei as m inhas conclusões.

— E daí? Dentro da cova de areia posso até ficar pelada cem por cento, ninguém tem nada com isso.

— É, m as e na hora de sair da areia?

— Aí o senhor m e prende, antes não. Eu estou decentem ente vestida de areia, não estou?

— E se um gaiato passar por aqui e levar o seu sutiã, com o é que a senhorita se arranj a para sair da praia?

— O senhor m e prende, uai. Problem a seu. Agora, j á im aginou o grilo que vai dar o senhor m e levando para o distrito nessas condições?

— Mineira, hem ? O pessoal em Minas está ficando m uito pra frente.

— Faz-se o possível. Mas vocês, no Rio, não colaboram , inventam cada um a.

— Por m im , não. Tam bém sou m ineiro e com m uita honra, viu? Mas é a tal de ordem superior, sabe com o é? Mineiro é vidrado em m ar, isso influiu na escolha de m inha profissão. Até, se eu pudesse, não estava aqui de salva-vidas e salva-não-sei-o-quê. Estava dando um a de banhista, sim plesm ente.

— Legal. Eu sabia que você não ia m e prender por um a bobagem dessas.

— Bem , eu…

— Mineiro tem que ser solidário tam bém na pouca roupa, entende?

— Falou. Então, na hora de sair, m e avise.

— Pra quê? Vai bancar o voyeur?

— Sei lá o que é isso. Pra fazer a cobertura, dar proteção, im pedir que a turm a entusiasm ada arranque até a parte de baixo…

— Não precisa, m eu chapa. Eu estou de duas peças, sabe? Botei do lado de fora esse sutiã de reserva, não foi pra perturbar, é porque um a onda m ais velhaca pode deixar a gente com o Eva é servida, e eu sou m ineira, m ineiro acorda prevenido pra tudo!