De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 57 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Glória

 

 

— Meu filho é artista de televisão, contando o senhor não acredita. Eu m esm o às vezes penso que é ilusão. Com oito anos, im agine. Estava brincando na pracinha lá da vila quando passaram uns hom ens e olharam m uito pra ele. Meu filho, não é pra m e gabar, m as é um a lindeza de Menino Jesus, aí um dos hom ens falou assim pra ele. Quer fazer um teste, ó garoto? O que é teste? ele respondeu. Aí o hom em explicou, não sei bem qual é a explicação, levaram ele pra um edifício na cidade, tiraram um bocado de retratos dele, depois falaram assim : Você foi aprovado. Aí ele se espantou: Mas eu não fiz exam e, que troço é esse? Não é nada de exam e não, eles responderam , você foi aprovado pra fazer um com ercial, tá bem ? Ele neca de saber o que é um com ercial, nem eu, m as agora eu fiquei sabendo, é um a coisa à toa, a pessoa nem precisa falar, fica só fazendo um a coisa, com endo doce de leite, devagarinho, com um a carinha alegre, quando acaba passa a língua nos beiços, assim , olha, e pisca o olho, ele é tão engraçado, antes de acabar de com er ele j á estava fazendo isso, um negócio. Aí m andaram ele de volta pra casa, não, antes falaram assim pra ele: m anda seu pai aqui na agência receber o cachet. Ele ficou espantado, falou assim : Que troço é esse? Eles responderam . É tutu. Aí ele baixou a cabeça e respondeu baixinho: Eu não tenho pai. E m ãe você tem ? Ele respondeu que m ãe ele tinha, e levantou a cabeça. Então m anda ela aqui, m as o garoto é esperto, deu um a de sabido: Eu m esm o não posso receber? se fui eu que fiz tudo sozinho. Não, você não pode, tem que ser sua m ãe, diz a ela que venha das duas às quatro, trazendo carteira de identidade. Bonito, e eu que nunca tive carteira, j á pelej ei pra tirar um a, dei duro, pedi pro com padre Julião m e quebrar esse galho, com padre explicou que carece antes tirar certidão de nascim ento, essa é m uito boa, então a gente tem que provar que nasceu, eu não estou viva com a graça de Deus e forte e trabalhando? O pior é que nem sei se fui registrada lá em Pilão dos Palm ares, chão do m eu nascim ento, não tenho parentes neste m undo, só tenho no outro, e nem a poder de oração consegui até hoj e tirar o papel da tal certidão, afinal eu falei assim pro com padre: Deixa pra lá, sem carteira vivi até hoj e, sem ela vou viver até Nosso Senhor m e fechar os olhos. Vou lá na agência assim m esm o. Larguei m eu serviço. Fui. Tinha um m undão de gente, eu não sabia quem é que podia m e atender, andei rolando de um a sala pra outra, até que afinal um cara de bigodão, atrás da parede de vidro com um óculo no m eio, falou assim : É com igo, trouxe a carteira? Eu expliquei que carteira eu não tinha, m as sou lavadeira m uito acreditada na Zona Norte, m uitas m adam as da rua Conde de Bonfim podem atestar que eu sou eu m esm a e m ãe de m eu filho, há vinte e cinco anos que trabalho de lavar roupa. Ele abanou a cabeça, falou assim : Nada feito, não tenho ordem de pagar sem identidade. Mas o m eu filho trabalhou, m oço, eles ficaram satisfeitos com o trabalho dele, tanto que prom eteram pagar um tal de cachet, com o é que pra pagar a ele é preciso a carteira de outra pessoa, o senhor acha isso direito? Ele não respondeu nada, tornou a abanar a cabeça e eu fiquei m atutando: O que tu vai fazer pra sair dessa, Clem entina da Anunciação? E com ecei a chorar. Aí eles m e viram chorando, ficaram com pena de m im , um barbudo que passava disse assim pro bigodão: Paga a ela, Reginaldo. O bigodão resm ungou: Tá legal, e m e deu um papel passado em três folhas iguais, pra eu assinar nelas todas. Aí eu disse: O senhor m e desculpe, m as eu não sei escrever, a cabeça não dá. Então nada feito outra vez, o bigodão respondeu. Aí, eu não tinha m ais vontade de chorar e disse assim pra ele: Escuta aqui, m oço, quanto é que m eu filho tem pra receber? Ele respondeu: cinquenta cruzeiros. Ah, é isso? respondi. Pode ficar pra agência. Perdi m eu dia de trabalho, gastei trem , gastei ônibus, andei a pé neste solão, não vou m e chatear por causa dessa m ixaria. Um cara que estava escutando falou assim : A senhora vai j ogar fora esses cinquenta m angos? E daí? respondi pra ele. Meu filho vale m uito m ais, a gente não fica m ais pobre por causa disso, ele agora é artista, am anhã se Deus e a Virgem Maria aj udar, vai ganhar m ilhões. Nem precisa ganhar, só o orgulho que eu sinto por ele ter passado no teste! Saí de lá com esse orgulho bonito no coração, m eu filho é artista, m eu filho é artista, ia repetindo sozinha, na rua m e olhavam adm irados m as eu nem dei bola, fui pra casa e ligo a televisão o dia inteiro, trabalho vendo ela, até chegar a hora de m eu filho aparecer no com ercial com endo doce de coco. Pobre tem televisão, na vila todos têm , vai ser um estouro quando m eu boneco aparecer e piscar o olho, então isso não vale m ais que cinquenta, que quinhentos ou cinco m il cruzeiros, ou todos os cruzeiros do m undo?

E seu rosto enrugado cintilava de glória.