De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 71 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Posfácio

 

as cabriolas de

carlos drum m ond de andrade

Eduardo Coelho

 

O livro De notícias & não notícias faz-se a crônica: Histórias — diálogos — divagações, de Carlos Drum m ond de Andrade, foi publicado em 1974 pela Livraria José Oly m pio Editora, reunindo textos originalm ente destinados ao Caderno B do Jornal do Brasil. De im ediato, o título e o subtítulo deste volum e sugerem ao leitor um repertório criativo no m ínim o variado, sobretudo ao levar-se em consideração as diversas acepções das palavras “história” e “divagação”, bem com o as num erosas possibilidades de um autor explorar as “notícias”, as “não notícias” e os “diálogos”. Trata-se de um a pluralidade técnica facilm ente constatada nestas crônicas, que ainda corresponde à sua variedade de assuntos.

Não há, contudo, um apanhado desconexo de crônicas. Ao contrário, observa-se no hum or um a das características que traz unidade ao seu conj unto. Entrevistado por sua filha para o j ornal O Globo, Drum m ond declarou que buscava, por m eio da crônica, “corrigir” o prim eiro caderno, onde se encontrava “um estoque fabuloso de terrem otos, assassinatos, intrigas, m isérias, pobreza, desabam ento de favelas, tudo isso”. Considerava então o ofício de cronista “o de um a espécie de palhaço, de jongleur, que dá cabriolas, dá saltos, faz m olecagens,

para distrair um pouco o leitor com um ”.1 O hum or é, sem dúvida algum a, um dos m ecanism os m ais vigorosos com que em enda a tragicidade das m anchetes do prim eiro caderno, além de oferecer, dessa m aneira, um divertido espetáculo em torno de m uitos tem as. Com parativam ente ao discurso da im prensa, revela ainda, m uitas vezes, um a com preensão m ais profunda acerca dos fatos retratados e do m undo.

Posteriorm ente afirm aria, em terceira pessoa, na crônica “Ciao”, quando se despediu do Caderno B do Jornal do Brasil, que “procurou extrair de cada coisa, não um a lição, m as um traço que com ovesse ou distraísse o leitor”. Em seguida, discute o papel da crônica e do cronista:

Crônica tem esta vantagem : não obriga ao paletó-e-gravata do editorialista, forçado a definir um a posição correta diante dos grandes problem as; não

exige de quem a fez o nervosism o saltitante do repórter, responsável pela apuração do fato na hora m esm a em que ele acontece; dispensa a especialização suada em econom ia, finanças, política nacional e internacional, esporte, religião e o m ais que im aginar se possa. Sei bem que existem o cronista político, o esportivo, o religioso, o econôm ico etc., m as a crônica de que estou falando é aquela que não precisa entender de nada ao falar de tudo. Não se exige do cronista geral a inform ação ou o com entário precisos que cobram os dos outros. O que lhe pedim os é um a espécie de loucura m ansa, que desenvolva determ inado ponto de vista não ortodoxo e não trivial, e desperte em nós a inclinação para o j ogo da fantasia, o absurdo

e a vadiação. 2

Em De notícias & não notícias faz-se a crônica, são frequentes “o j ogo da fantasia, o absurdo e a vadiação”, que tam bém concedem unidade a esta antologia. É j ustam ente essa “inclinação” do autor que evidencia m uito do hum or das situações, elaboradas com frequência com o texto ficcional ou com o testem unho — em bora os lim ites entre ficção e testem unho sej am regularm ente dissolvidos. Em m uitas crônicas, o testem unho se m anifesta por interm édio da ficção ou vice-versa.

Há um a estratégia refinada nas crônicas drum m ondianas de elaborar situações ficcionais a partir de fatos históricos ou de sintom as graves da realidade daquela época, m uitos dos quais perm anecem latentes. Porém , o hum or e o tom de conversa am istosa de suas crônicas, perm eadas regularm ente por fatos de linguagem do português falado no Brasil, atenuam o peso de notícias do prim eiro caderno, sem , no entanto, abandonar um a dim ensão crítica. É o caso de “Viadutos”, crônica na qual se estabelece um diálogo ficcional com um m orador de rua:

— Endereço do colega?

— Viaduto São Sebastião, pilastra no 4, lado esquerdo, na Presidente

Vargas. Apareça por lá.

— Ótim o. Vou aparecer, m as agora não. Estou de m udança. — Se não for indiscrição, pode-se saber para onde? — Não sei ainda. Moro no viaduto de Japeri, aliás m uito confortável, m as

com preende, né? Um pouco longe. Procuro um na cidade.

— Já experim entou Botafogo?

— Fui eu que inaugurei. Era um a habitação deliciosa, aliás duas, com

vista panorâm ica, banho de m ar em frente etc. Mas sabe o que aconteceu: estragaram aquilo, botaram j ardins, espelhos d’água...

— É. Estão sem pre atrapalhando.

— Espelho d’água, vá lá, serve para a toalete. Mas o j ardim ...

— Jardim não é bom para secar roupa?

— Em tese. Mas há sem pre um guarda querendo defender as plantas,

im plicando com os m oradores.

— Tem razão. Na vida, o essencial é paz.

O m esm o tipo de estrutura form ada por diálogos, com hum or e perspectiva crítica associados indissoluvelm ente, pode ser identificado em “O delicado” (acerca do desem prego e da com petição no m ercado de trabalho) e “Serás m inistro” (sobre a dificuldade de ascensão social). Portanto, seu intento de divertir o leitor não resulta em alienação. Sem qualquer sensacionalism o característico dos m eios de com unicação, ele pretende abordar questões caras ao m undo contem porâneo e oferecer ao leitor outra via de conscientização. Nesse sentido, é notável o papel de Carlos Drum m ond de Andrade com o testem unha de

3

fatos relevantes da história do Brasil e do m undo, o que ele próprio destacou na crônica “Ciao”:

Assistiu, sentado e escrevendo, ao desfile de onze presidentes da República, m ais ou m enos eleitos (sendo um , bisado [Getúlio Vargas]), sem contar as altas patentes m ilitares que se atribuíram esse título. Viu de longe, m as de

coração arfante, a 2a Guerra Mundial, acom panhou a industrialização do Brasil, os m ovim entos populares, frustrados m as renascidos, os ism os de vanguarda que am bicionavam reform ular para sem pre o conceito universal de poesia; anotou as catástrofes, a Lua visitada, as m ulheres lutando a braço

para serem entendidas pelos hom ens…4

Testem unha do regim e m ilitar, iniciado em 1964, Drum m ond aborda a “Censura” — tratada com cê m aiúsculo — com o a questão central da crônica “Peça nova”, em que o narrador, um dram aturgo, faz a seguinte consideração: “Tem -se visto a Censura desaprovar o que aprovou, m andando retirar do cartaz aquilo que antes autorizara a ser m ostrado. Dá o dito por não dito. Darei então o não dito por dito”. Por fim , diante de todos os obstáculos im postos pela “Censura”, conclui:

Prossigo pois no trabalho, com am or e pertinácia, anim ado do propósito de achar um a saída para o teatro nacional em face da Censura. Eis a fórm ula: a peça que, por onde quer que se lhe pegue, não se deixa pegar. Pela supressão da linguagem e das conotações im próprias que toda palavra traz consigo, senão intrinsecam ente, pelo j eito com que é pronunciada, pelo olhar que a sublinha, pelo gesto ou suspeita de gesto etc. Sentido? Deixa pra lá.

Em “Enciclopédia carioca”, na seção II/Verbete do guarda-chuva, analisa a política internacional “da tolerância e passividade em face da agressão nazifacista” do prim eiro-m inistro da Grã-Bretanha à época, Neville Cham berlain, a partir da qual “se viu: um a segunda guerra m undial, dura de vencer. E foi m esm o vencida? Multidões facistas, na Itália e em outros pontos do globo, sugerem dúvida a esse respeito”. O ponto de vista desenvolvido pelo cronista é m uito inusitado, pois atribui a responsabilidade desses fatos históricos às “varetas, dem asiado flexíveis” do guarda-chuva do referido prim eiro-m inistro. Em casos dessa natureza, em que se form am relações im previsíveis, com o a “política de tolerância” e as “varetas, dem asiado flexíveis” do guarda-chuva do prim eiro-m inistro, desponta não apenas a testem unha dos “ism os da vanguarda que am bicionavam reform ular para sem pre o conceito universal de poesia”, m as tam bém o excepcional poeta de A rosa do povo, de 1945, entre outros. Nesse exem plo, Carlos Drum m ond de Andrade parece ter levado em consideração a ideia surrealista de que nada está dem asiadam ente distante que não possa ser posto em relação. Por m eio de um a construção associativa inusitada, ele surpreende o leitor e o atrai para questões caras ao século XX, com o o nazifacism o, sem abandonar seu com prom isso com a diversão.

O poeta tam bém envereda por um a série de crônicas sobre questões linguísticas, com o em “Entre palavras”, “Excelências”, “Modos de xingar”, “Receita”, “O outro” e “O verbo m atar”. Na prim eira dessas crônicas, adota a técnica da enum eração caótica, m uito presente em sua poesia e teorizada por Leo Spitzer — a quem inclusive faz referência — no livro Chaotic Enumerations in Modern Poetry. Cada parágrafo de “Entre palavras” apresenta um a listagem caótica de palavras, que não se associam pela via lógico-racional:

Você que m e lê, preste atenção. Não deixe passar nenhum a palavra ou locução atual pelo seu ouvido sem registrá-la. Am anhã, pode precisar dela. E cuidado ao conversar com seu avô; talvez ele não entenda o que você diz.

O m alote, o cassete, o spray, o fuscão, o copião, a Vem aguette, a

chacrete, o linóleo, o ny lon, o nycron, o ditafone, a inform ática, a dublagem , o sinteco, o telex... existiam em 1940?

A crônica form a-se através do registro de palavras recém -criadas ou incorporadas há pouco, naquela época, ao uso corrente. Mediante o arranj o caótico de vocábulos, a listagem cria um a série de choques sem ânticos, destacando, consequentem ente, o som e o sentido de cada palavra, com o a j ustaposição de “Vem aguette”, “chacrete” e “linóleo”. O estranham ento que causam as palavras reunidas pelo cronista ilum ina, paradoxalm ente, cada um dos vocábulos. É um procedim ento extensam ente desenvolvido por ele em sua poesia, conform e “Nosso tem po” e “Canto ao hom em do povo Charlin Chaplin”, am bos de A rosa do povo:

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,

ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,

moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,

pessoas e coisas enigmáticas, contai;

capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;

velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;

ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da costureira, luto no

braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.5

E:

[...] Mas, ó mitos

que cultuamos, falsos: flores pardas,

anjos desleais, cofres redondos, arquejos

poéticos acadêmicos; convenções

do branco, azul e roxo; maquinismos,

telegramas em série, e fábricas e fábricas

e fábricas de lâmpadas, proibições, auroras.6

Já na crônica “Excelências” discute a questão dos m odism os linguísticos, substituídos de um a para outra geração. Trata-se de um registro sem elhante ao da história da língua, que indica o caráter orgânico do uso do idiom a, bem com o a criatividade dos falantes ao cunhar novas palavras (“bacana”, “bacanérrim o” e “balacobaco”) ou subverter o sentido de expressões j á consagradas (“legal” e “é o suco”).

No conj unto de crônicas em torno do uso do idiom a, com preende-se m elhor o significado das “divagações” do subtítulo deste livro, pois não há qualquer dim ensão acadêm ica em sua análise. O cronista se põe com o observador e não intenta, em torno desse lugar que ocupa, engendrar qualquer discurso científico. Ao contrário, firm a-se m ais um a vez, agora nessas crônicas, o hum or e a leveza de quem se ocupa prazerosam ente das palavras e dos fenôm enos linguísticos. As “divagações” aqui não se caracterizam por um a linha tortuosa de raciocínio, à m oda rom ântica; revelam , porém , um desprendim ento e um a m obilidade criativa que, no cam po das letras, só o cronista parece ter, até m esm o por se tratar de um gênero sem receituário lim itador.

A liberdade é tam anha que há crônicas nas quais tanto as inventividades do falante da língua quanto os fatos de linguagem — que se desviam das orientações da gram ática norm ativa — são incorporados aos diálogos. É o caso de um a série de frases de “Aconteceu algum a coisa”: “Não saio daqui enquanto os caras não aparecerem ”; “… alguém apalpou ela…”; “Um padre abriu cam inho e entrou lá dentro […]. Padre m esm o, desses de batina, sacum é?”; “Tem m uita falsificação pelaí”. Desse m odo, o cronista não se põe som ente com o observador, m as com o agente de dispersão da inventividade linguística.

O cronista-observador é, no m esm o grau, um cronista-voy eur, sem pre atento aos acontecim entos da cidade. É nesse papel que lhe cabia recolher fatos curiosos, líricos e/ou perturbadores. Em “Conversa alheia”, afirm a, dissim uladam ente: “Escutar conversa alheia não é o m eu hobby, m as se as palavras entram pelos ouvidos da gente sem pedir licença, que rem édio senão escutá-las?”. E que rem édio — o leitor pode questionar — senão reproduzi-las criativam ente?

Se não há intenção acadêm ica nesse processo de registro e incorporação de criações e recriações linguísticas, bem com o nos fatos de linguagem , a longo prazo suas crônicas ganham até m esm o um a função “m useológica”, podendo servir a estudiosos do português falado no Brasil. Há um sabor inquestionável nas ocorrências do português falado recolhidas em um a série de textos deste livro. Parte do prazer da leitura relaciona-se ainda ao fato de que as transform ações linguísticas evidenciam sintom as das m udanças de hábitos sociais ou m esm o da coexistência de com portam entos contrastantes diante de um m esm o fenôm eno, de qualquer dim ensão ou relevância. Sua função “m useológica-docum ental” é am pla, e escrutina-se por sendas das m ais distintas faunas.

De notícias & não notícias faz-se a crônica revela um elogio da diferença, um encantam ento pela invenção e um contentam ento acerca do surgim ento ou da retom ada de certas atividades que estavam à m argem de algum tem po passado. Exem plo notável desse últim o caso é a crônica “Um bigo”, em que Drum m ond trata das m eninas de bicicleta, para depois analisar a exposição de seus um bigos:

Com ou sem bicicleta, o um bigo fem inino, particularm ente o j uvenil, é hoj e um a festa da cidade. Os olhos pousam nele antes de tudo; não m ais no rosto, ou nas pernas, e isso está certo e conform e às leis do ser hum ano, pois no um bigo se localiza o centro, o ponto fundam ental da figura, na estética da natureza.

Com o de costum e nesse gênero da literatura, Carlos Drum m ond de Andrade contem plou questões da m ais diversa im portância: do nazifacism o ao um bigo das m ulheres, dos grandes fatos históricos aos acontecim entos m ais triviais; o que tam bém é notável em sua poesia, igualm ente sintom ática da excepcional variedade de técnicas adotadas e assuntos desenvolvidos. Sua habilidade estilística era im ensurável: capaz de engendrar enredos a partir de diálogos; associar elem entos aparentem ente incom patíveis entre si; fazer descrições sucintas, m as de alta eficiência; lançar atenção sobre fatos m enosprezados. Talvez o grande segredo da literatura drum m ondiana estej a em um a afirm ação da crônica “Cartas de estim ação”: “Casos hum anos sem pre m e interessaram profundam ente”. É desse interesse que o cronista oferece o seu m elhor, de m odo divertido e, ao m esm o tem po, profundo.

1 Ver “Carlos Drum m ond de Andrade fala a Maria Julieta Drum m ond de Andrade”. O Globo, Rio de Janeiro, 29 j an. 1984.

2 Carlos Drum m ond de Andrade, “Ciao”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 nov. 1984. Caderno B, pp. 8-9.

3 Acerca dessa questão, ver João Cam illo Penna, Drummond: testemunho da experiência humana. Brasília: Abravídeo, 2011. É possível fazer download do livro no site do Proj eto Mem ória, m antido pela Fundação Banco do Brasil.

4 Carlos Drum m ond de Andrade, op. cit., p. 8.

5 Carlos Drum m ond de Andrade, A rosa do povo. São Paulo: Com panhia das Letras, 2012, p. 25.

6 Ibid., p. 162.