De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 65 de 72

Páginas do PDF

De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Classificados

cartas de estim ação

 

I Cinquenta anos depois

Perdeu-se um pacote lacrado de cartas de estimação, com as palavras Em caso de m orte, ser entregue a Sinhá. Gratifica-se a quem achar. Entregar à rua Benjamin Constant, 139, a Virgínia.

Isto foi publicado em 7 de abril de 1921, e reproduzido em 1971, no alto do caderno de classificados do Jornal do Brasil. Casos hum anos sem pre m e interessaram profundam ente. O tem po não im porta. Alguém terá achado o pacote, entregando-o a Virgínia?

Meu prim eiro gesto foi procurar no guia dos telefones (endereços) o no 139 da Benj am in Constant. Não tem . Passo pelo local e encontro um edifício sem qualquer m em ória aparente da vida com o era a vida em 1921. Inútil sair indagando, apartam ento por apartam ento, com risco de receber um palavrão: Por obséquio, m ora aí um neto ou neta de d. Virgínia?

Já sei que não m ora, se bem que, em qualquer edifício de qualquer cidade, m orem sem pre netos, e, em alguns deles, m orem até Virgínias. Mas não é nada provável que, se por absurdo acaso, a Virgínia de 1921 estiver assistindo na televisão à novela O Cafona, ela m e dê a honra de esclarecer este anoso episódio de cartas de estim ação.

Fico sem saber se o pacote foi encontrado. Im agino a aflição de Virgínia. Perder um a preciosidade dessas, que levava sem pre consigo, dentro da bolsa… ou não levava, pacote desse tam anho, não são apenas cartas, tam bém flores e fotos, por isso Virgínia o lacrou e m eteu na gaveta do guarda-vestidos, havia guarda-vestidos sob o governo Epitácio Pessoa. A chave da gaveta é que ela trazia na bolsa. Mas aconteceu aquela m udança da rua Conde de Bonfim , o m óvel era um brutam ontes, um a catedral de vinhático, Virgínia teve de esvaziar as gavetas, e na confusão, m inha santa Maria Eterna, que fim levou m eu pacote lacrado?

Bem que Sinhá tinha prevenido. Olha, Virgínia, sei não, m as eu se fosse você, decorava bem essas cartas, palavra por palavra, beij o por beij o, depois queim ava tudinho. Você está doida, Sinhá, e se eu perco a m em ória? Ora, perde nada… Muito perigoso guardar essas cartas. Se caírem em outras m ãos, você está frita. O m áxim o que Virgínia faz, em purrada pela am iga, é lacrar o pacote, com que dor de alm a. Com o se enterrasse no quintal o sentim ento das cartas, e o lacre fosse um m árm ore pesado por cim a. Aliás, o lacre foi arranj ado por Sinhá, trabalha nos Correios, seção de vales postais, onde é que eu, pobre de m im , ia arranj ar lacre, Sinhá é m esm o um anj o. E ainda lhe recom enda: Olha, bota aí no pacote: Em caso de morte…

Tanto cuidado, tanta recom endação, e som e o pacote. Viu? Eu bem que te avisei, diz Sinhá, afagando os cabelos de Virgínia, que chora em seu om bro. Pôr anúncio é arriscado, m as não tem outro rem édio. Por sorte (agora é que eu adivinhei), Virgínia não se cham a Virgínia, é nom e inventado para não se com prom eter se alguém bisbilhotar o pacote. Assim , não vai aparecer o nom e verdadeiro de Virgínia, que não sei ainda qual sej a. E escusa de eu bater de porta em porta à procura de seus netos im prováveis, para saber o fim deste caso. O endereço de Virgínia é de fato a casa de Sinhá, que se cham a realm ente Sinhá. Quando o desconhecido chegar, tenho fé em Deus que chegue, e perguntar por Virgínia, Sinhá dirá sou eu, recebe o pacote, gratifica o desconhecido. Um anj o, Sinhá. Tem po em que havia anj os.

Tudo isto está m eio confuso, adm ito. Mas tam bém , à distância de cinquenta anos, todas as coisas são m ais ou m enos confusas, geralm ente m ais. Se eu tivesse de procurar por algum a das personagens, seria por d. Sinhá. E quantas d. Sinhás existem ainda no Brasil? Resultado, m esm o, nenhum . Tenho de resolver o problem a de outra m aneira. Verem os.

 

II / Hipóteses

Sinhá e Virgínia seriam um a única e enrolada pessoa? Parado na rua Benj am in Constant, 139, que, com o inform ei, não existe, m as é com o se, pois existe o edifício plantado em lugar da casa, a dúvida m e assalta. Doze pavim entos. Em cada pavim ento, fácil a conta, quatro apartam entos, doze vezes quatro, são quarenta e oito pistas possíveis a explorar (sem tocar cam painha, desisto), partindo desse classificado de 1921 e adm itindo, para com odidade da pesquisa, que pelo m enos um a fração de propriedade continue em linha reta com os descendentes de Virgínia, digo Sinhá, digo quem perdeu as cartas de estim ação.

Nom e exato? Aquele ou aquela que em pacota sua vida em form a de papéis, preferindo m antê-la sem relê-la, e escreve por fora: em caso de m orte ser entregue a, não tem o m ínim o desej o de vê-la devassada por estranhos, e, escondendo-se de todo m undo, inclusive de si m esm o, procura esconder-se de sua vida. A sim ulação de nom e explica-se com o defesa contra todos, a com eçar pelo sim ulador. Eu m e troco. Eu m e subterraneio.

Virgínia, sem intenção de trocadilho, não é Virgínia. Sinhá nunca foi Sinhá. Disfarces a encobrir a identidade esquiva, sonho de eternizar a cham a oculta em papéis de estim ação, m as fazendo-a igualm ente incapturável por quem quer que sej a. Se continuam a achar-m e obscuro, m ais obscuro ainda é o conceito de cartas de estim ação.

Que espécie de estim ação? Reverencial, intelectual, erótica, sacra, econôm ica, infantil? E que cartas sigilosas são essas sobre as quais esvoaça, m orcego, a hipótese de m orte, que transform aria estim ação em escândalo, nossa m ãe, a Virgínia, hem ? quem diria, aquela santinha nunca m e enganou, pois há afetos que lá um belo dia, aliás um péssim o dia, explodem em tragédia, pelo m enos em vergonha pública. Estam os em 1921, convém não perder de vista que o Rio de Janeiro ainda não se incorporou à aldeia global, é aldeia apenas, ainda se guardam cartas para em caso de m orte etc.

Serão cartas, im agino, de Olavo Bilac à m usa escondidíssim a? Nada de Am élia de Oliveira nem Maria Selika da Costa, casos biograficam ente fichados, m as a paixão de outono do príncipe por alguém que ele cham aria de Virgínia para não com prom eter dam a do nosso escol social, m uito em foco nas crônicas m undanas que João do Rio publicara em O País. Ou cartas do próprio João do Rio, por que não? Ele am ou um a antepassada de Tônia Carrero, pode ter am ado outra m ulher, e as circunstâncias im punham m istério. Meu receio é que as cartas sej am de d. Pedro II à viscondessa de Tupaceratã, conservadas pela bisneta da destinatária, e dos frios túm ulos a legião de nam oradas do soberano se levante para exprobrar m ais essa infidelidade a cada um a em particular e a todas em bloco. Sim senhor, essa história secreta do Brasil nunca m ais acaba de se escrever.

São hipóteses de trabalho, que abandono logo depois de form uladas. Se tais cartas existiram , hoj e estariam publicadas por um a revista sem anal, com cham ada na capa, fotos e tudo. Os netos de Virgínia teriam negociado a bom preço o m aterial. Tudo se vende de nossos antepassados, inclusive am ores.

Parado em frente ao edifício. Rum inando essas coisas. Torno-m e suspeito. Quer dizer, suspeito de m im m esm o, pois ninguém na rua desconfia de m inhas rum inações. Um anúncio, um anúncio no ar, um anúncio no tem po, quem o decifra, quem recebe a gratificação, quem prefere abrir o pacote para m ergulhar na intim idade de Virgínia, lam buzar-se de seus segredos, saborear o am or ou o pecado alheio (m eio século depois), quem ? Sinto que estou rondando área proibida. Desisto? Continuo?

 

IIIRevelação

Prezado cronista — Hesitei longo tempo antes de lhe escrever estas linhas com as quais rompo um silêncio de meio século. Receava ser mal compreendido ou, pior ainda, reprovado pela ação que cometi em 1921, embora legalmente esteja mais do que prescrita a culpa que me pudesse ser atribuída. Mas depois de consultar o travesseiro e refletir muito, resolvi fazer-lhe esta confissão. Agora ou nunca. Estou com setenta e dois anos, já sofri dois distúrbios circulatórios, e do terceiro talvez não escape. Espero que corresponda à confiança que deposito em seu critério e que, antes de responder sim ou não, medite na proposta que vou lhe fazer.

Dito isto, apresento-me. Sou funcionário aposentado da Estrada de Ferro Central do Brasil, onde trabalhei com Agripino Grieco. Solteiro, nascido em Miracema, estado do Rio, na mocidade cultivei as letras, do que dá testemunho o meu álbum de recortes de jornais e revistas do Rio de Janeiro e Niterói. (Posso lhe mandar xerox de alguns trabalhos.) Sempre tive paixão pela literatura, mas a vida e a Central não me permitiram alcançar a felicidade de publicar um livro sequer.

Agora a confissão. O pacote de cartas de estimação perdido por Virgínia está em meu poder. Ninguém me confiou esta correspondência. Não a furtei de ninguém. Achei-o num banco da antiga estação da Central, em cuja secretaria eu trabalhava. A imprudente destinatária das cartas esqueceu-as ali, não se tendo, pois, verificado a hipótese formulada em sua crônica, de extravio quando de uma suposta mudança de domicílio. Sei o que são cronistas como o senhor e o José Carlos Oliveira: brincam com a imaginação, de vez em quando. Mas o que conto são fatos. O pacote lá estava chamando alguém que o pegasse, e se não fosse eu, talvez caísse em mãos de um chantagista — e já pensou o que ele faria com essa presa?

Dirá o senhor: Tendo encontrado o pacote, por que não o entregou no endereço indicado, e ainda por cima o abriu, pois do contrário não saberia que o conteúdo dava pretexto a chantagem? Sim, de fato não o entreguei, e podia justificar-me com um sofisma: a recomendação escrita era: em caso de morte. Perto não havia cadáver. Como poderia eu saber se a proprietária do pacote tinha morrido? Não recorro porém a esta justificação. A promessa era: gratifica-se a quem achar. Por muito que me tentasse a gratificação, prevaleceu outro interesse. Palpitei ali dentro um romance sensacional. Levei o volume para casa, dilacerei o lacre e devassei o conteúdo. Ação reprovável? Eu tinha vinte e um anos (só completei vinte e dois no dia seguinte) e era, ou pretendia ardentemente ser, escritor de ficção. Errei? Quem tiver a mesma idade que eu tinha, e alimentar idênticas ambições, me atire a primeira pedra.

Li as cartas dirigidas a Virgínia e fiquei fascinado. Continham a mais estranha e perturbadora história de amor que poderia acontecer no Rio de Janeiro no começo do século. Era material de primeira ordem para um romance superior a tudo que então se escrevia por aqui e mesmo no estrangeiro. O am ante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, ainda dormia no cérebro de seu autor, e só dez anos depois Henry Miller começaria a trabalhar Tropic of Cancer. Por aí o senhor faz ideia da natureza das “cartas de estimação”. Depois de as ter lido, como entregá-las a Virgínia ou Sinhá, se eram dirigidas por esta àquela, criando profundo constrangimento para nós três, e para mim a responsabilidade penal da revelação do sigilo, além da perda de um tema soberbo?

Este segredo posso revelá-lo agora. Desde então me interessei, de longe, pela vida de ambas as mulheres, que já não são deste mundo e não deixaram descendência nem parentes próximos ou remotos. Não penso em divulgar as cartas como documentário humano ou de costume, longe disto. Mas é evidente que delas se pode extrair um romance ou argumento de filme capaz de competir com as produções avançadas desses dois gêneros, que correm mundo. Estou velho para escrever o romance, falta-me técnica para compor o argumento. Daqui a pouco morrerei também. Que fazer com este pacote que já me pesa e que contém uma história de 1971 vivida há cinquenta anos? Proponho o seguinte: o senhor transforme-a num produto literário acabado, e o assinamos de parceria. Abro mão de direitos autorais, não da coautoria. Não lhe dou endereço para resposta. Não telefonarei. Responda-me em sua crônica: “Autor Irrealizado: procure-me tal dia, em tal lugar, a tantas horas”. Cordialmente, (a) Autor Irrealizado.

 

IV E agora?

Telefonem a I

— Alô! Eu queria falar com o cronista das “Cartas de Estim ação”. É o senhor m esm o? Boa tarde. Aqui fala… bem , o senhor não m e conhece. Mas eu lhe peço um a coisa. Me ouvir com atenção cinco m inutos. Estou acom panhando a série, e a carta de hoj e do Autor Irrealizado m e obrigou a telefonar para o senhor. Eu não podia ficar em silêncio diante dessa coisa m onstruosa. Com o? Isso m esm o que eu disse, m onstruosa. Esse tal de autor m ostra que nunca se realizou, por isso inventa essas infâm ias todas. O que ele escreve é só m entira, m entira, m entira. Hem ? Não senhor, ignoro quem é esse cara. Mas j uro por Deus que não há um átom o de verdade nas fofocas que ele espalha sobre Virgínia. Com o que eu posso j urar? Ora, Virgínia era m inha tia-avó, m eu senhor. Tia Viviu. Morreu há trinta e cinco anos, eu não cheguei a conhecê-la. Ela era solteira, de fato, m as tinha um coração m aternal, por isso criou m am ãe, que ficou órfã de pai e m ãe com dois anos de idade. Mam ãe, que m orreu m uito j ovem , coitada, m e contava de tia Viviu as coisas m ais bacanas, o am or que ela dedicava à hum anidade, à natureza, à criação em bloco. Tia Viviu era um sonho, bonita por fora e por dentro, na alm a, nos sentim entos puríssim os. Sinhá? Sinhá era am iga de infância de tia Viviu, entende? Elas cresceram j untas, m am ãe falava que Sinhá tam bém era um a doçura de gente. Ah, aquele cretino não pode com preender o que é um a am izade assim (essa gente põe Freud em tudo), feita de absoluta confiança, de doação m útua de alm as. Então envolve nesse lixo a m em ória de tia Viviu e Sinhá. Aquele im undo, aquele… O senhor tem razão, vou m e conter, fazer força para. Olho o retrato de tia Viviu, tão m eiga, um a expressão tão lim pa nos olhos claros, os olhos dela eram de um a claridade de água-m arinha, sabe? e fico um a leoa: o que que esse… desculpe, escapou, foi dizer dessa santinha que está no céu ao lado das santas m ais santas? Olhe, eu estou por dentro dessa história de cartas de tia Viviu, sabe? Mam ãe m e contou que tia Viviu não se conform ava de ter perdido um pacote de cartas de estim ação, assim m esm o que ela dizia, m as foi só por um a sem ana, ela botou anúncio e o pacote apareceu. Está vendo com o é papo furado o que esse porcaria lhe contou? Tia Viviu m orreu em 1936, Sinhá tinha m orrido um ou dois anos antes. Mam ãe ia entregar o pacote a quem ? Queim ou, lógico. O senhor queria que ela abrisse? Ah, pensei, pelo tom da sua voz… É, queim ou bem queim adinho, era o que tinha a fazer, né? Tia Viviu não recom endou m ais nada depois da m orte de Sinhá, ficou tão abatida, o senhor não calcula: am izade da vida inteira. Agora pergunto: se as cartas foram queim adas, com o é que o canalha conserva o pacote em seu poder, coisa aliás que se fosse verdade seria um a vileza? Conserva coisa nenhum a. Está sacando para cavar publicidade. Hem ? Francam ente, não sei inform ar. É possível sim . Possível que esse velho bandalho tenha querido nam orar tia Viviu e fosse repelido. Mam ãe contava que tia Viviu recusou m ontes de pedidos de casam ento. Inclusive de um deputado federal, Marques de Sousa, ou Buarque de Sousa, m e esquece o nom e direito. Ela dizia que não podia am ar ninguém em particular, porque am ava o m undo inteiro, desde as estrelas e os seres hum anos até os insetos, as ervinhas, areias… essa coisa toda. Com certeza ele foi repelido, guardou ressentim ento, e cinquenta anos depois, lendo sua crônica sobre o pacote… Mas eu queria um a coisa do senhor. Na hora de se encontrar com o velho, eu estar presente. O senhor m e leva? Eu quero, eu faço questão de desm ascarar esse suj eito. Eu… Por favor, por favor, não desligue!

 

Telefonem a II

— Alô, é o poeta? Boa noite. Olhe, poeta, um conselho: não entre nessa j ogada das cartas de Virgínia. Assunto m uito sério… Quanto ao Autor Irrealizado, não passa de um m itôm ano. Quem sou? Não im porta. Sou um que sabe das coisas. Estou avisando. As cartas estão m uito bem guardadas em lugar sigiloso. Só em 2015 poderão ser publicadas… Para com eço de conversa, Virgínia e Sinhá não eram Virgínia e Sinhá, nem eram m ulheres, nem se am avam . Linguagem em código, m eu caro. Negócio m exendo com gente im portante daquela época, os descendentes estão aí, coisas de política internacional, grupos econôm icos, um bololô dos diabos. Vam os deixar isso em paz, tá? Já falei dem ais, não devia explicar tanto. Durm a bem , poeta!

 

V / (In)conclusão

Chovem com unicados sobre o paradeiro, a natureza, a existência ou inexistência das cartas pertencentes a Virgínia-1921. Até o m om ento em que escrevo, cinco pessoas afirm am possuí-las e pretendem : a) conservá-las inéditas; b) doá-las à seção de m anuscritos da Biblioteca Nacional; c) vendê-las pela m elhor oferta (este diz que até j á botou classificado no j ornal); d) transform á-las em fotonovela; e) aguardar o term o destes escritos para m elhor deliberação. Três outras pessoas garantem que as cartas j am ais existiram : o anúncio era reclam e de um a papelaria m uito avançada para o tem po, que vendia sous le manteau certo tipo de literatura m arota hoj e de trânsito universal; cada sem ana saía um anúncio estranho ou pitoresco, servindo de senha para os consum idores. De Almanaque Laemmert em punho, o sr. M. A. B. prova, ou j ulga provar, que o no 139 da rua Benj am in Constant, dado com o endereço de Virgínia, era delegacia de polícia naquela época. Delegacia, não: padaria, corrige o sr. G. L., dizendo-se neto do proprietário do estabelecim ento, o que não prova nada, pois Virgínia podia trabalhar no balcão ou no forno.

Com eço a suspeitar que esta história não acabará j am ais: irá se desdobrando em possibilidades que levarão às ruas vizinhas, a outros bairros e até a outras cidades e países; em princípio, nada im pede que as cartas tenham ido parar na Bósnia-Herzegovina. Os testem unhos se sucedem e se anulam uns aos outros, m as todos encerram aquele m ínim o de verdade que flui da boca dos m entirosos.

Basta que um bebê, um dia, tenha sido batizado ou registrado em cartório com o nom e de Virgínia, para que um infinito de situações existenciais se desenrole em seu redor, engaj ando-o em m últiplas direções e cruzam entos; Virgínia, ou outro nom e qualquer. Que direi então de Sinhá, a brasileiríssim a Sinhá que todos nós conhecem os em diferentes edições físicas e um a só edição m oral, Sinhá nossa tia/m adrinha/cam aradérrim a, que fazia e guardava doce de leite para a criança que fom os um dia e, m esm o, continuam os a ser, em bora hoj e dem os preferência acentuada a salgadinhos e uísque? Sinhá não se liga apenas à sorte num erosa de Virgínia, m as às sortes tão variadas e divergentes de nós todos. Im possível figurar o núm ero de variações a que o nom e de Sinhá, o de Virgínia e os nom es próprios em geral (por que próprios? às vezes são de um a im propriedade crispante), ricos, gordos de acontecim entos viáveis, cotidianos, singulares, m inúsculos, de m eia altura, gigantescos, enigm áticos, problem áticos, podem estar ligados, no m over desta m áquina de potencialidades que é o m undo. A rua Benj am in Constant, 139, que digo? o sim ples corredor que leva a um dos quartos desse núm ero, a escadinha de três degraus que dá acesso a esse corredor oferecem apenas o esboço de um a epopeia urbano-psicológica em oitocentos volum es, e não estou exagerando, é cálculo m odesto de m ineiro.

Sinto que não posso ir tão longe. Não devo. Nem é m inha intenção dar um a de Pirandello barato, cosi è se vi pare… Já se disse que de um lugar-com um ele tirou um trabalho de arte. Eu faço croniquinhas, por m uito favor cinco, sobre o tem a, e faltam -m e condições de repórter, dram aturgo, pesquisador social, historiador, detetive e folclorista.

Dou por encerrada aqui m inha visita à rua Benj am in Constant, 139, às suas som bras e papéis. Deixo, a quem quiser e souber, o encargo de prosseguir nas investigações, deduções e bolações, ler as cartas (cartas, sem pre cartas!) que continuam a chegar, contendo revelações surpreendentes sobre as duas supostas m ulheres, ou hom ens, j á nem sei m ais o que são, atender aos telefonem as idem , apurar a verdadeira verdade ou as verdadezinhas subj acentes, e concluir — se é que algum a coisa se conclui, na infindável cadeia de acontecim entos e de não acontecim entos igualm ente plausíveis.

Adeus, m istério postal de 1921.