De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 23 de 72

Páginas do PDF

De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

O outro

 

— Com o diz o outro…

Que outro? E desde quando ele se cham a Outro? Estranho nom e, este, que não identifica, não responsabiliza, não consta de nenhum registro civil: Outro, nascido em tal data, em tal lugar, de sexo m asculino. Por que nunca se diz: Com o diz a outra? A outra não diz nada, lim ita-se a ouvir o Outro, se é que o ouve?

Depois, não é só um Outro. São m uitos, são vagos, são indefinidos: os Outros. Que é que os outros vão dizer? Mas os outros nunca dizem nada, apenas se receia que eles digam algum a coisa desabonadora ou cruel. Quem costum a dizer, e é antes abonador, é o Outro. Mas abona escondido, sopra ou insinua a sentença oportuna, para que ela corra m undo sem que o Outro, pessoalm ente, se com prom eta. O Outro tem m edo?

Tudo indica que o Outro é cúm plice de quem diz: Com o diz o outro. Fornece-lhe j uízos, anexins, glosas para circunstâncias que requeiram este ou aquele enunciado. Mas pode ser tam bém que o Outro sej a senhor daquele que diz que ele disse. Senhor poderoso e incógnito, que m anda seus súditos sem earem pelo m undo aquilo que convém ser sem eado, visando a determ inadas colheitas — de quê? Só o Outro sabe.

Mas o Outro existe realm ente? Não será inventado na hora e no calor do interesse, da im aginação, do acaso? Quem é o Outro? Um sábio? Sabido? Pseudônim o, heterônim o? Quem sabe se o Outro não serei eu m esm o, com o pretendia um outro, este conhecido, que disse: Je est un autre?

A ideia de eu ser o Outro de m im m esm o, ou de outro Outro, ou m esm o de outríssim os Outros, não chega a constituir m atéria de m editação transcendental, na fórm ula do Maharishi Mahesh Yogi. A todo instante sinto que há vários, senão m uitos outros em m im , se bem que nenhum deles sej a o tal Outro que costum a dizer coisas repetidas por outros. Tam bém não ignoro que os outros m e acham o outro, que em qualquer lugar, situação ou m om ento sou sem pre o outro dos outros, e o serei sem pre, inapelavelm ente. Mas em nenhum m om ento, situação ou lugar terei sido nem serei j am ais o m isterioso e sábio Outro, de quem se repetem as palavras sábias ou sim plesm ente sabidas do “com o diz o outro”.

Minha alteridade é incontroversa, com relação aos dem ais habitantes da Terra, assim com o a alteridade dos dem ais habitantes com relação ao m eu eu. Mas isso, m ultiplicando ao infinito os outros, e fazendo com que todos os sej am os cada vez m ais, não chega a anular o sentim ento do eu, que luta ferozm ente, não digo por se afirm ar: sim plesm ente por se saber existir, dentro do outrism o geral.

E por que o Outro diz certas coisas e om ite outras, por que varia tanto no que diz conform e a boca a repeti-lo? O Outro é incoerente, na China em ite conceitos totalm ente diversos dos que são divulgados em Mato Grosso. Nesta m esm a cidade do Rio, o Outro varia com os bairros, as profissões, o nível de cultura. O Outro são outros, quantos, quais?

Estou exagerando. A verdade é que o Outro não é m uito citado ultim am ente. Citam -se m ais Barthes, Mendilov, Jakobson, Lévi-Strauss, Baccherozzo, Kästchen. Menos, Sartre, Toy nbee, Lukács. O Outro, m enos ainda, e há até alguns encabulados, que, arriscando-se a citá-lo, recorrem ao pretérito:

— Com o dizia o outro…

Dizia. Já não diz. Ou diz pouco, prudentem ente parco, na m aioria das vezes não diz nada. Está secando essa outrora fértil reserva de opiniões que fazia autoridade, sob a capa do anonim ato.

Que diz agora o Outro? Quem é capaz de sabê-lo e transm iti-lo, se o Outro se fechou em copas e desm entirá tudo quanto se disser que ele disse? O Outro diz que vai chover? O Outro é capaz de desm entir e am eaçar-nos com processo, pois claro que a afirm ação pluvial envolve delicadas responsabilidades, podendo espalhar a insegurança nacional. Por que vai chover? Chover é bom ou perigoso? O Outro garante que a chuva não tem segunda ou quinta intenção? O Outro pensou bem antes de dizer algo sobre a chuva?

Não. A frase correta seria:

— Com o não diz o outro.