De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 28 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Diálogo imaginário

diálogo im aginário

 

Sei de um hom em que está fazendo cento e onze anos, e fui entrevistá-lo.

— Com o é: cento e onze?

— Você é que está contando por m im . Eu não conto.

— E nem parece que é tanto assim . Puxa vida, o tem po não o m udou em nada: voz, olhar, o bigode caído. A seriedade.

— Bem , agora j á não poderia m udar.

— Pois olhe, pra m im o senhor — você, se m e dá licença — não m udou nunca, sabe?

— Mudei. O m enino era um , o hom em ficou sendo de outra m adeira.

— O fato é que você m e deu sem pre um a tal im pressão de força!

— Não terá sido defeito de visão de sua parte? Em todo caso, adm ito que procurei sem pre cultivar, entre m inhas fraquezas, um princípio de energia.

— Isso. Quando o conheci (e conheci j á tarde, gostaria tanto de term os convivido m ais cedo), você era pura energia. Às vezes um pouco… um pouco dura, não?

— Engraçado. Você nunca percebeu com o essa dureza, às vezes, senão sem pre, era contra m im m esm o. Contra o m enino que tam bém fui, fraco no cam po dos fortes.

— A gente nunca percebe direito as coisas, face a face com elas.

— Se percebesse, m esm o assim não as aceitaria.

— Quem sabe? Pode ser que um a palavra…

— A palavra é j ustam ente o que dificulta a percepção.

— Um gesto.

— O m ais difícil é esboçar um gesto, o m ovim ento de m ão que anule a palavra errada.

— Então, com o é que a gente se entende?

— A gente só se entende, isto é, só prepara o tardio entendim ento, pela oposição, pelo contraste, pelo choque.

— Não haverá um cam inho m enos cruel para isso?

— Você sabe perfeitam ente que não. E que não é a diferença de naturezas que produz o choque. É a identidade.

— Tem razão. Forças do m esm o tipo; desencadeadas em duas pessoas, agem em sentido contrário.

— Até se fundirem , pacificadas.

— Exaustas?

— Não. O resultado da fusão não é o cansaço. É a paz, um a paz diáfana, um silêncio.

— Ela habita em você?

— Não propriam ente em m im . Na im agem de m im em você.

— Então, essa energia que se derram ou por sua vida não encontra repouso?

— Estará latej ando sem pre, m as o conflito cessou. Veio um a hora m ansa, infindável, de que está ausente qualquer ideia de conflito. E em você?

— Tam bém sinto que essa hora se aproxim a, ou por outra, sei agora que ela soa num relógio diferente de todos, e soar não é bem a expressão: ela pulsa.

— Parece que você tem m edo.

— Medo suportável, tornado m enor pela capacidade de aceitação, que se acentua com a capacidade de renúncia. Com o você resolveu este problem a?

— Sozinho, sem os recursos de que vocês hoj e dispõem . Não havia análise para a angústia. Nem com prim idos extasiantes. A luta era entre um hom em e o resto do m undo. Não tive aliados.

— Que beleza, a sua vitória!

— Com o se houvesse vitória. Houve cum prim ento de tarefa, apenas.

— Devo ter perturbado um pouco.

— A perturbação fazia parte da tarefa. Todas as perturbações.

— Eu via que perturbava, sabe? e era com o se no fundo de m im sentisse necessidade de m e atritar. Hoj e estou calm o.

— Tanto quanto pensa que está? Vej a bem . Por que m e interroga?

— Pelo gosto de conversarm os.

— Não. Porque falta ainda algum a coisa a escavar, a descobrir. No dia em que você a encontrar, não m e perguntará m ais nada.

— Que coisa seria essa? Nos entendem os tão bem .

— Mas a si m esm o, você se entende com pletam ente?

— Bem , eu…

— Chega por hoj e. É a sua vez de descansar, entrevistador.