De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 20 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Excelências

 

Que tal a Liza Minnelli, em Cabaret? Legal. Mas legal paca é a Twiggy no trailer do Namoradinho!

Assim se exprim em hoj e as adm irações, em linguagem criativa. Recuo m ais de m eio século, e ouço dizerem de Mabel Norm and:

— É o suco!

Qualificativo que, para definir o bom do bom , correu longam ente o Brasil e chegou a m erecer citação em discurso de Rui Barbosa. O próprio Rui era o suco, em m atéria de eloquência e galhardia cívica, assim com o Brom il era o suco em se tratando de com bater a tosse.

Em tem pos m ais rem otos, batizava-se deste m odo o obj eto da m elhor qualidade:

— É x.p.t.o. London.

London, com sílaba final abrasileirada. A princípio, segundo Castro Lopes, era m arca de cobertor inglês, de m uita cotação; depois, ficou sendo tudo que se recom endasse pelo acabam ento esm erado. Pessoas m ais respeitosas do vernáculo recorriam ao trivial da língua:

— Superior.

Este superior, dito com entonação valorativa. Com o o desvalorizado “ótim o”, em que o “ó” concentrava a ênfase do elogio, antes de ser batido irrem ediavelm ente por estes dois poderosíssim os adj etivos:

— Bacana!

— Bacanérrim o!

Podem os extrair a certidão de idade de um desconhecido, se o virm os levar o polegar e o indicador da m ão direita (salvo se for canhoto) ao lóbulo da orelha e exclam ar:

— É da pontinha.

Trata-se de um suj eito de cinquenta caj us, seguram ente. Aos vinte aprendeu a relacionar a excelência de um a coisa ao porm enor auricular. Versão sintética:

— Daqui, ó.

Bom à beça teve seus dias de consum o farto. Ainda circula por aí, m eio fantasm al. Espécie m ais rara, que só de longe adquire vida sonora:

— Cutuba!

E seu prim o exagerado, o cutubaço. E seu colateral, o batuta.

Podem os com parar a notas recolhidas de cinco m il-réis os louvores concretizados em “adm irável”, “m agnífico”, “excelente”, “estupendo”. Não valem m ais nada. Que significa “soberbo” ou “sublim e”? “Extraordinário” é m enos que ordinário. “Esplêndido”, coitado.

Devia m exer com as fibras da elogiada o hino contido nesta expressão, que tam bém a fait son temps:

— É do balacobaco!

Gerações passadas, ao se extasiarem , valiam -se de “form idável”, “fenom enal”, “notável”, “notabilíssim o”, “o que há de bom ”, “delícia”, “delicioso”, “de prim eira ordem ”. Para m eu avô, o vinho de respeito era “supim pa”, e um erudito, seu com ensal, acrescentava:

— Nec plus ultra.

“Divino” parece que enfraqueceu, pois foi necessário tonificá-lo com “divino m aravilhoso”. E tem “infernal” com o com petidor.

“É um sonho?” “É um sarro?” Antes era “um estouro”. Já foi “piram idal”. Se agora é “fora de série”, naqueles tem pos era “incom parável” ou “inigualável”, “sem rival”. “O m áxim o”, “o m aior” deram seus recados. “Espetacular” ainda resiste. “Genial”, de uso im oderado, prova que a genialidade é atributo de todos os brasileiros.

Conceda-se m enção a “fantástico”, a “sensacional” e a “sensas”. Não sei se posso lem brar “lindo”, tão im próprio depois da entronização do feio com o estilo de vida. “Bárbaro” j á diz m elhor o que a gente acha e não diz. Certas coisas eram “o fino”, outras “um a gostosura”, “um a graça”, finalm ente “um a coisa”.

Apesar de tudo que há de negativo no m undo atual, as excelências nos rodeiam e até nos perseguem . Se a vida é cara, não falta o “barato”, o “trem endo barato”, o “j oia”, para com pensar, pela contínua criação ou recriação verbal, o que não é nada disto. Viva a palavra! Ela não define apenas o obj eto ou a sensação. Ela transform a, ela cria, ela inventa e colore a vida:

— Chuchu beleza!