De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 41 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Cultura & Ensino

am or entre livros

 

— No Canecão? Hoj e não dá, m eu chuchuzinho. Tou afundado no Stokoe, um a curtição trem enda. O quê? Semiotics and Human Sign Languages. É isso aí. Te telefono am anhã, tá?

— Sábado passado você j á não pôde sair, por causa de um tal Catichico…

— Catichico, não. Katicic, com k. Eu tinha de atacar de Katicic lá no Centro. O Lopes veio pra cim a de m im com o Kram sky, então eu derrubei ele com o Katicic.

— Derrubou com o? Você bateu no Lopes?

— Não é nada disso, anj o. O Lopes apareceu m uito pim pão m ostrando The Word as a Linguistic Unit, do Kram sky, gabando que era a últim a palavra em novidade. Então eu corri à d. Vana e…

— Esse cara está hospedado com d. Vana?

— Que hospedado coisa nenhum a, bem . É livro, entende? Um livro do Katicic cham ado A Contribution to the General Theory of Comparative Linguistic. Com prei ele na livraria de d. Vana, por sinal que ela m e disse: “É tão caro, não vale a pena com prar”, d. Vana é assim , fica com pena da gente gastar o dinheiro com os livros de sua livraria. Mas isso não vem ao caso. Trouxe o Katicic e pá! Atirei na cara do Lopes a teoria do Katicic.

— Deu coluna do m eio?

— Um a zero. O Lopes não conhecia o Katicic, a turm a tam bém não, e daí, o Kram sky j á tá m eio superado. Eu soube que ano passado o Magalhães j á tinha citado ele em Atibaia. E o Magalhães não é lá m uito atualizado. Im agine você que ele ainda cita Stratificational Grammar, do Sam pson! Sam pson não é m ais autor que se possa citar. Sam pson anda m uito por baixo.

— Que que ele fez para andar por baixo?

— Nada. Exatam ente isso. O Sam pson não fez nadinha. Ficou na Stratificational Grammar. Im pressionou, abafou, depois calou. É o que m e garantiu o Azevedo, que foi vidrado no Sam pson, depois enj oou. O Azevedo diz que no livro dele o que vale é o título.

— Querido, você prom ete que sem ana que vem com bina um program a com igo?

— Ah, isso prom eto sim . Tá prom etido. Quer dizer, fica dependendo de um papo m eu com o Rogério.

— Que é que o Rogério tem com os nossos program as?

— Ele ficou de m e arranj ar o Pike, de que eu preciso m uito para a tese que estou preparando. A tese para aquele sim pósio que vai haver em Cam pina Grande, j á contei a você, em agosto.

— E daí?

— Daí, que o Rogério ainda não acabou de fichar o Pike, e se ele acabar até dom ingo, segunda-feira m e passa o livro. Tenho de passar a sem ana inteira estudando o Pike.

— Sábado tam bém ?

— Acho que o Pike vai m e absorver até sexta-feira. Você não faz ideia, é um troço da m aior im portância, presta atenção no título: Language in Relation to the Structure of Human Behavior. Com o é que eu posso perder um a coisa dessas, coração?

— Você não gosta de m im .

— Gosto m ilhões, gosto trilhões, am or. Mas ou eu pego logo o Pike enquanto os outros não avançam nele (o Rogério é cam arada, o Rogério é um cara que não existe) ou eu sacrifico m inha atuação em Cam pina Grande. Você quer m e ver desm oralizado em Cam pina Grande, diz, você quer?

— Quero sair com você.

— Eu tam bém quero sair com você, m as será que você não percebe que os interesses da cultura sobrelevam nossos prazeres pessoais, e que o am or é sobretudo um a form a de com preensão?

— Você não m e gosta, você gosta é desses bichos esquisitos, sei lá.

— Não diz um a coisa dessas, am orzinho. Você está em tudo que eu faço, tudo que eu penso. Ainda ontem estava lendo o Ollen, Coding Information in Natural Languages, e sua im agem aflorava em cada página, quase em cada palavra. Baralhei tudo, acabei grilado.

— Mentira.

— Mentira não, te j uro.

— Nunca hei de m e esquecer de suas férias de 72…

— Que eu dediquei a Lévi-Strauss? Que é que eu podia fazer, my love, se a patota gam ou nele e eu tinha que entrar na j ogada? Olha que eu desisti de um a sem ana Barthes por tua causa; que deixei de m e inscrever num curso sobre Derrida e Greim as para te acom panhar no festival de cinem a durante um a sem ana. Por você eu faço tudo. Mas deixa eu curtir o m eu Stokoe, deixa!

— Adeusinho, viu? Quando acabar de ler esses chatos, telefone para as Baham as e pergunte se eu cheguei lá!