De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 40 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Conversa muito louca

conversa m uito louca

 

— Você foi convidado para a ceia dos cardeais?

— Fui, m as não vou. Tenho outro program a.

— Já sei. Os fidalgos da casa m ourisca.

— Não. Vou ver a dança sobre o abism o.

— Pois eu estarei lá com as m ulheres de m antilha.

— Ué, não leva o dem ônio fam iliar?

— Pois sim . Deixo ele na barca dos hom ens.

— Bem bolado. Mas eu, infelizm ente, tenho de sair com a ré m isteriosa. Você sabe: os interesses da com panhia.

— Vem cá. No fundo, isso não é ilusão am ericana?

— Que nada. Você não diria isso se ouvisse as confissões de frei Abóbora.

— O quê? Foi apurado o crim e do estudante Batista?

— Por enquanto, não. Só o do padre Am aro.

— Mas isso é velho. O exorcista contou tudo na televisão, e os cinegrafistas penetraram na m ontanha m ágica.

— Mas o dr. Jivago escapou.

— Pudera. Se escondeu no chapadão do bugre.

— É a tal coisa. As ligações perigosas conduzem direto aos subterrâneos da liberdade.

— Besteira. Os sequestrados de Altona tam bém escapavam sem que ninguém percebesse isso no gabinete do dr. Caligari.

— É, m as os cavalinhos de Platiplanto estavam selados, à espera deles. Assim é fácil.

— Cosi è se vi pare.

— Lá vem você com citações. Não sabe que les jeux sont faits, en attendant Godot, e que to paint is to love again?

— Desculpe. É que eu vivo conj ugando am ar, verbo intransitivo.

— Pois devia olhar m enos para o corpo de baile e m ais para toda a Am érica.

— A questão é que chega hoj e o raj á de Pendj ab e não está aí o prim o Altam irando para recebê-lo.

— Por que não cham a o coronel e o lobisom em para hospedá-lo?

— Não posso. Desde que um deus dorm iu lá em casa, tenho sem pre um a ala reservada para o conde e o passarinho.

— Absalão! Absalão! Meu quarto de hóspedes não m ede m ais que dois m etros e cinco. Seria recusado pela condessa Herm ínia.

— Mas você descolou um a nota firm e naquela concorrência da ponte de São Luís Rei.

— E daí? Evaporei tudo com as pupilas do senhor reitor.

— Ah, essas flores do m al!

— Que se há de fazer? São os ossos do barão.

— Mas sem pre deve ter sobrado algum , no baú de ossos.

— Mudem os de assunto. Não estou aqui para bancar Sim ão, o patético.

— Tá bom . Tem visto a Clara d’Ellébeuse?

— Fugiu com o Juca Mulato, não sabia?

— Muito m e contas. E Iaiá Garcia, continua em Búzios com a Lúcia McCartney ?

— Ouvi dizer que se separaram . Fogo m orto.

— Hum … Com que então, a Morgadinha de Valflor, hem ?

— É, parece que aderiu ao rei da vela.

— Quer dizer: uniu o feij ão e o sonho.

— Para viver um grande am or no país das pedras verdes, isto é, na Zona Sul.

— Ai de ti, Copacabana!

— Por quê? Solness, o construtor, garante que aquilo ali não cai tão cedo.

— E você acredita? Ainda ontem , a Maroquinhas Frufru m e contou que o interceptor oceânico…

— Até que não cheira m al. Os velhos m arinheiros sabem de cor a geringonça carioca.

— Dá para ouvir solo de clarineta?

— Claro, executando a sinfonia pastoral, em arranj o de João Ternura. Mas que é isso? Que turm a é aquela?

— Aquela? Disfarça, e vam os saindo. São os irm ãos Karam ázov!