De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 31 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Umbigo

um bigo

 

Honra lhe sej a, ao poeta Vinicius. Coube-lhe, por volta de 1945, a iniciativa de lançar o grito m eio esportivo m eio libertário:

Meninas, soltai as alças,

bicicletai, seios nus!

As m eninas acataram -lhe im ediatam ente a recom endação, na prim eira parte; quanto à segunda, estão (suas filhas) ensaiando ainda. Tanto tem po assim para cum prir a ordem do poeta? Ocorreram fatores vários que j ustificam a dem ora. Em 1945, positivam ente não dava pé; nos anos seguintes, e nos seguintes aos seguintes, tam bém não. Ultim am ente, as coisas vêm m udando, um as em ritm o de tartaruga, outras em ritm o de cápsula espacial. A bicicleta voltou. Este verão é bicicleta pura. Alças, não foi preciso soltá-las; desapareceram . Apareceu o bustier, e o próprio busto oferece fatias laterais generosas, prenúncio da auroral exposição plena. Executado, afinal, o m andam ento viniciano? Um a coisa é certa: o verbo bicicletar foi lançado por ele, e hoj e, quando as garotas bicicleteiam em bloco, ou a um a, é o verso de Moraes que circula por aí.

O poeta não previu o um bigo em expô, m as que poeta pode prever tudo? Digam os que seu poem a de 45 pode ser lido de várias m aneiras, e um a delas seria:

Meninas, livrai o umbigo,

bicicletai, seios nus!

Com ou sem bicicleta, o um bigo fem inino, particularm ente o j uvenil, é hoj e um a festa da cidade. Os olhos pousam nele antes de tudo; não m ais no rosto, ou nas pernas, e isso está certo e conform e às leis do ser hum ano, pois no um bigo se localiza o centro, o ponto fundam ental da figura, na estética da natureza. Dele se irradiam as outras partes do corpo, os outros elem entos da “paisagem viva”: “No cânon ideal, a altura do um bigo divide exatam ente a altura total, segundo o corte de ouro” (Constable, The Curves of Life).

E não se vej a m alícia no olhar que vai direto a esse acidente anatôm ico, pois é o um bigo que o cham a, o intim a, o im antiza. Ele quer ser visto e considerado em suas variantes de flor, que não se encontram duas iguais. Uns são recolhidos em si m esm os, por assim dizer secretos à luz do sol, m isteriosos, exigindo código. Outros, ofertantes, radiosos, públicos, dem ocráticos, com unicantes. Há os retorcidos com o certos vegetais que nasceram para lutar contra o vento e renunciam à postura com um . Quem ousa dizer que o um bigo é cicatriz, m em ória da gestação uterina? Estrela, sim , de ocultos raios, a ilum inar a abóbada corporal; botão de flor ou de secreta cam painha, que dom ina com seu tim bre a orquestra dos m em bros; m icrolaguna onde boia, não um barquinho, m as o princípio de toda vida… Tudo isso e m ais o que o obstetra, esse escultor, fez dele, ou a im aginação lhe acrescenta escolhendo entre as infinitas virtualidades da form a.

Um bigos andam por aí, desafiando tua capacidade de curtir o novo dentro do eterno. Se na praia eles nem são percebidos, porque se inserem no quadro global, na rua, no coletivo, na loj a, no escritório, são um a presença nova, um a graça diferente acrescentada ao espetáculo fem inino, um dom sem destinatário certo, que é a bonificação de um ano em que tantos perderam na Bolsa m as acabam lucrando na vista.

O um bigo deixa-se conversar, responde naturalm ente. Há um diálogo novo entre ele e o transeunte. Certos um bigos parecem rir da piada que anda no ar, outros sorriem com discrição, e há os que se m ostram sérios m as urbanos. De poucos sei que podem ser cham ados de antipáticos, e esses, seria m elhor que continuassem guardados. Receio que os m ais pretensiosos acabem se ostentando em m oldura barroca, cercados por um cordão de ouro ou pintura a óleo, quem sabe se com um diam ante na cavidade? Nada de artifícios. O um bigo em si, casto e cantante, esse é que m erece todo o poder e glória neste m orrer de ano de 1972, em que precisam os ansiosam ente contem plar algum a coisa pura, repousante: um um bigo que sej a.