De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica
Modos de xingar
m odos de xingar
— Biltre!
— O quê?
— Biltre! Sacripanta!
— Traduz isso para português.
— Traduzo coisa nenhum a. Além do m ais, charro! Onagro!
Parei para escutar. As palavras estranhas j orravam do interior de um Ford de bigode. Quem as proferia era um senhor idoso, terno escuro, fisionom ia respeitável, alterada pela indignação. Quem as recebia era um garotão de cam isa esporte; dentes clarinhos em ergindo da floresta capilar, no interior de um fusca. Desses casos de toda hora: o fusca bateu no Ford. Discussão. Bate-boca. O velho usava o repertório de xingam entos de seu tem po e de sua condição: professor, quem sabe? leitor de Cam ilo Castelo Branco.
Os velhos xingam entos. Pessoas havia que se recusavam a usar o trivial das ruas e botequins, e iam pedir a Rui Barbosa, aos m estres da língua, expressões que castigassem fortem ente o adversário. Esse m aterial seleto vinha esm altar artigos de polêm ica (polem izava-se m uito nos j ornais do com eço do século), discursos políticos (nos intervalos do estado de sítio, é lógico) e um pouco os incidentes de calçada.
A m aioria, sem dúvida, não se em penhava em requintes. Mesm o na im prensa, que se dizia am arela e depois virou m arrom , ou na de cores m ais am enas, a palavra safardana tinha curso fluente. “Safardana”, m ais veem ente que “safado”, levava em sua com panhia a variante “grandessíssim o safado”, de em prego recom endável com o prelim inar ao desforço físico, a bengaladas. “Grandessíssim o” dilatava enorm em ente a ofensa, e com o revide só m esm o o palavrão universal, que não é necessário reproduzir aqui.
“Ladrão”, sim plesm ente, não convencia. Adotavam -se form as sofisticadas, com o “ladravaz”, “ladroaço”. Muitos preferiam “larápio”, fazendo-o acom panhar de m ovim ento giratório dos dedos da m ão direita em torno do eixo do polegar. “Ratoneiro” tam bém tinha clientes. E “gatuno” (“esta noite entrou gatuno lá em casa”) aplicava-se aos que, com m ão de gato, surrupiavam tanto um relógio com o um a ideia.
Jam ais aprovei o uso indevido de nom es de anim ais para qualificar ou verberar deficiências intelectuais ou m orais do próxim o. A inj ustiça feita ao cachorro, alçado a “cachorrão”, com o sinônim o de m au-caráter, dói e revolta. A zebra não é responsável pelo baixo QI de seres hum anos, nem o cam elo tam pouco. Burro, burroide, besta, bestalhão, j um ento: outros exem plos de im propriedade vocabular, que não recom endam a linguagem crítica. Irracionais prestantes, m uitas vezes providos de razão prática lum inosa, não costum am , que eu saiba, xingar os de sua espécie com invectivas desta ordem :
— Hom em !
— Hom únculo!
— Reverendíssim o hom em !
Onde aprecio os antigos é na graça de certos epítetos, que não chegam a desaforo; ficam no plano do hum or. Assim o “m ariola”, que curtia vida de m alandro; o “m andrião”, que fugia do trabalho com o fugim os hoj e dos autom óveis; o “salta-pocinhas”, o “valdevinos”…
— Aquilo é um sevandij a.
Aí, a classificação com eça a engrossar. Não é agradável ouvir que nos cham am de parasita. Mas “peralvilho”, quem se zangava? “Badam eco” e “bonifrate” ardiam um pouco na pele. “Peralta”…
Tertuliano, frívolo peralta, do soneto de Artur Azevedo, não deixava de ser um cara sim pático. Não há m ais peraltices. Hoj e, são violentas as j ogadas. E as expressões cáusticas ou irônicas, m ais lim itadas. Com dois ou três palavrões, qualificam os tudo. Aquele senhor do Ford de bigode, com seu palavreado escorreito, com o o adm iro. Salve, paladino do pulcro dizer, no instante da ira! Com exceção do “onagro”: o anim al não m erecia trato pej orativo. Respeitem os a natureza, até na cólera.