De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 59 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Polícia

esparadrapo

 

Aquele restaurante de bairro é do tipo sim patia/classe m édia. Fica em rua sossegada, é pequeno, lim po, cores repousantes, com ida razoável, preços idem , não tem m úsica de triturar os ouvidos. O dono senta-se à m esa da gente, para bater um papo leve, sem intim idades.

Meu relógio parou. Pergunto-lhe quantas horas são.

— Estou sem relógio.

— Então vou perguntar ao garçom .

Ele tam bém está sem relógio.

— E o colega dele, que serve aquela m esa?

— Ninguém está com relógio nesta casa.

— Curioso. É m oda nova?

— Antes de responder, e se o senhor perm ite, vou lhe fazer, não propriam ente um pedido, m as um a sugestão.

— Pois não.

— Não precisa trazer relógio quando vier j antar.

— Não entendo.

— Estam os sugerindo aos nossos fregueses que façam este pequeno sacrifício.

— Mas o senhor podia explicar…

— Sem querer m eter o nariz no que não é da m inha conta, gostaria tam bém que trouxesse pouco dinheiro, ou antes, nenhum .

— Agora é que não estou pegando m esm o nada.

— Com a o que quiser, depois m andam os receber em sua casa.

— Bem , eu m oro ali adiante, m as e outros, os que nem se sabe onde m oram , ou estão de passagem na cidade?

— Dá-se um j eito.

— Quer dizer que nem relógio nem dinheiro?

— Nem j oias. Estam os pedindo às senhoras que não venham de j oia. É o m ais difícil, m as algum as estão atendendo.

— Hum , agora j á sei.

— Pois é. Isso m esm o. O am igo com preende…

— Com preendo perfeitam ente. Desculpe ter custado um pouco a entrar na j ogada. Sou m eio obtuso quando estou com fom e.

— Absolutam ente. Até que o am igo com preendeu sem que eu precisasse dizer tudo. Muito bem .

— Mas m e diga um a coisa. Quando foi isso?

— Quarta-feira passada.

— E com o foi, pode-se saber?

— Com o podia ser? Com o nos outros lugares, no m esm o figurino. Só que em ponto m enor.

— Lógico, sua casa é pequena. Mas levaram o quê?

— O que havia na caixa, pouquinha coisa. Eram nove da noite, dia m eio parado.

— Que m ais?

— Um as coisinhas, liquidificador, relógio de pulso, m eu, dos em pregados e dos fregueses.

— Ahn. (Passei a m ão no pulso, instintivam ente.)

— O pior foi o cofre.

— Abriram o cofre?

— Reviraram tudo, à procura do cofre. Am eaçaram , pintaram e bordaram . Foi m uito desagradável.

— E afinal?

— Cansei de explicar a eles que não havia cofre, nunca houve, com o é que eu podia inventar cofre naquela hora?

— Ficaram decepcionados, im agino.

— Não senhor. Disseram que tinha de haver cofre. Eram cinco, inclusive a m oça de bota e revólver, querendo m e convencer que tinha cofre escondido na parede, no teto, em baixo do piso, sei lá.

— E o resultado?

— Este — e baixou a cabeça, onde, no cocuruto, alvej ava a estrela de esparadrapo.

— Oh! Sinto m uito. Não tinha notado. Felizm ente escapou, é o que vale. Dê graças a Deus por estar vivo.

— Já sei. Sabe que m ais? Na polícia m e perguntaram se eu tinha seguro contra roubo. E eu pensando que m eu seguro fosse a polícia. Agora estou m e segurando à m inha m aneira, deixando as coisas lá em casa e convidando os fregueses a fazer o m esm o. E vou com prar um cofre. Cofre pequeno, m as cofre.

— Para que, se não vai guardar dinheiro nele?

— Para m ostrar m inha boa-fé, se eles voltarem . Abro im ediatam ente o cofre, e verão que não estou escondendo nada. Que lhe parece?

— Que talvez o senhor precise m anter um estoque de esparadrapo em seu restaurante.