De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 14 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Dia de mentiroso

dia de m entiroso

 

Hoj e acordei com vontade de m entir, coisa que raram ente m e acontece. Peguei do relógio e atrasei-o duas horas. Desta m aneira faltaria pontualm ente a todos os com prom issos, e seriam outras tantas m entiras a pregar para j ustificar-m e. Em seguida, li o j ornal pelo avesso das notícias. Os m arginais evadidos voltavam espontaneam ente à penitenciária, declarando que tinham fugido em estado de sonam bulism o, pelo que pediam desculpas e exigiam ser m ais vigiados. A paz fora assinada em Saigon e abrangia o Oriente Médio, a Irlanda do Norte, as possessões portuguesas e outras áreas não televisionadas. Notei que não figurava m inha pessoa na telefoto da assinatura do tratado de paz universal, m as logo m e lem brei de que assistira incógnito à cerim ônia para não despertar ressentim ento em Kissinger.

Com o as ações do Banco do Brasil tinham chegado na véspera a Cr$ 300 000 cada, telefonei ao m eu corretor, recom endando-lhe vender as quatrocentas e cinquenta m il que possuo daquele estabelecim ento, pois não desej o ser exageradam ente rico; e decidi aplicar o produto na concessão de bolsas de estudo a índios calapalos, até hoj e ignorantes dos benefícios da cibernética e do barbeador elétrico.

Mentir não é ser otim ista profissional. Por isto não pintei de azul e brisa suave a m anhã, que era nublada e sem viração. Mas, sentindo borbulhar em m im o dom da invenção, inventei na hora o tem po quadriculado, a saber, a chuva, o sol, o frio, o calor, o vento, até m esm o o ciclone e o raio, acondicionados em quadradinhos a serem vendidos nos carrinhos de sorvete. Levando para casa os invólucros de sua preferência, o consum idor os fruiria a seu bel-prazer, podendo tam bém ofertá-los a am igos. A invenção, de utilidade pública, não renderia dividendos. De vez em quando, a fábrica de tem po distribuiria surpresas, trocando os quadradinhos, para pregar susto nos clientes, pois a vida precisa de uns solavancos; do contrário…

Um a das delícias do m eu dia de m entiroso foi dizer que eu não era eu, era outro, ou outros, conform e o interlocutor. A em pregada estranhou que eu recusasse a correspondência trazida pelo porteiro do edifício, pois m eu nom e não coincide com o dos endereços. “O senhor m udou de nom e?” Espantou-se. “Não. Mexendo agora uns papéis velhos, descobri o m eu nom e verdadeiro, que é Adão Gom es Batista.” Ela não disse, m as pensou: “O patrão não é de m entir, nem tem cara de doido; então é verdade”. Com o sabem , para m entir bem é necessário ter reputação ilibada e gozar de perfeita saúde m ental.

De Adão Gom es Batista passei a Leonardo Veras, a Oscar, a Martiniano, a Gonçalves sim plesm ente Gonçalves. “Desculpe, foi engano”, dizia o outro pelo telefone. “Não foi não, é Gonçalves m esm o, não está m e reconhecendo, Januário?” E Januário, identificando m inha voz e não m eu nom e de Gonçalves, ficava sem com preender, acabava adm itindo não estar (ele, não eu) bom da cuca. Outro zangou-se: “Não adm ito gozação!”. Am anhã explicarei a ele. Hoj e é im possível; quero m entir.

Talvez estej a m entindo dem ais ao declarar que li e adorei cinco livros m aravilhosos, saídos há pouco, dos quais não consegui passar de m eia página. Mas estou certo de que seus autores acreditarão piam ente, convictos de que não fiz m ais do que j ustiça. É im prescindível acreditar em algum a coisa; então, acreditem os no elogio. Farei o m esm o quando m e disserem genial. A superestrutura de fábulas não trava o funcionam ento da m áquina do m undo. Até parece que o torna m ais ritm ado.

Mentirei até a noite. Jantarei com distintas dam as e cavalheiros, que decerto m entirão tam bém , e não sei se levarei vantagem , fraco bissexto, em confronto com profissionais experim entados. Darei o m áxim o, em m entiras civilizadas ou não, pois estas últim as estão em alta, e am eaçam desbancar as outras, de incôm oda finura. E aqui m e surpreendo falando verdade ao dizer que m into. Desculpem . A verdade é aquele não convidado, que aparece e dá vexam e nos lugares m ais sofisticados do m undo.