De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica
Oito em um
— O seguinte. Quero fazer análise de grupo, doutor. Não se preocupe com a form ação do grupo. Eu form o sozinho, com preende? Posso contar ao senhor um a pá de infâncias que eu tive, um a pá de vidas que vou levando. Até que essa m ultiplicidade não m e encucava. Quer dizer: até. Pois Fernando Pessoa não era m uitos e sim ultâneos? Quando m orreu o Alberto Caeiro, o Álvaro de Cam pos e o Ricardo Reis, sem falar no Bernardo Soares, continuaram socioexistindo sem briga. Mas com ecei a m e aborrecer quando os m eus diferentes eus entraram a exigir de m im funcionam ento sincrônico em lugares distantes uns dos outros. Distantes e incom patíveis psicologicam ente. O senhor não avalia o problem a. Para dar um exem plo: Nunca fui a Capri m as preciso urgente ir lá, é necessidade visceral de um eu que m e agrada m uito, j untei uns dólares, cuidei de passaporte que não foi m ole, fui à agência de turism o. Aí o m eu eu tij ucano, ele é de m orte, não arreda pé da rua General Roca, m eu dom icílio global, se recusa a em barcar. Vê que papelão? Vivia discutindo com ele a conveniência de ser transigente. Capri é só um m ês, nem o dinheiro daria pra m ais, que é um m ês na vida de um tij ucano? O desgraçado em pacou. Pior é que tem outro eu m uito m arcado tam bém , que gostaria de viver na Paraíba criando bode. Sabe com o é, fixação dos verdes anos, o bode era um a oleografia pendurada na parede lá de casa, um bode verm elho que tinha barba de apóstolo, m uito sérios ele e a barba, que balançava ao vento. Juro que balançava. Por favor, não vá dizer que eu tenho com plexo de bode expiatório, não odeio ninguém nem quero transferir nenhum a culpa m as o fato é que. Onde é m esm o que eu estava? Ah, m eus m uitos. Não é m eus m últiplos, doutor, não tenho nada com essa transa da Petite Galerie, que reproduz cem vezes em acrílico um m odelo único. Não sou de acrílico, sou m atéria viva, pulsante… Não quer saber quantos sou? Contei oito, doutor. Dá ou não para um a análise de grupo? Faço questão de ser analisado sozinho em grupo. Mas tem um galho. Um a de m inhas personalidades eu gostaria de reservar para m ais tarde. É o m eu lado, m eu lado não, m eu ser m enina-de-j ardim -de-infância. Por favor, m e deixe continuar ligado nela, é tudo quanto há de m ais virginal em m eu conglom erado enroladíssim o. Bem que eu gostaria de guardá-lo para a própria Melanie Klein, não é por desm erecer do doutor, é porque eu li a tradução portuguesa de Envy and Gratitude e fiquei vidrado nela, que m ulher! Não perco de j eito nenhum concerto de Jacques Klein, só porque ele deve ser parente dela. Melanie é um trem endo barato, um a glória. Mas quero ficar pelo m enos uns cinco anos ainda curtindo esse euzinho infantil, que é m inhas doçuras. Então, vam os com binar. Esse fica para depois. Tenho m uita pena de m e desfazer de m inhas riquezas, doutor. Perdão: de m eus problem as. O ideal seria conciliar. Com plexo de castração eu tenho, m as não é m edo de perder um a parte boa do corpo, é de perder este ou aquele indivíduo que m e habita, e depois sentir falta dele com o de um a perna am putada. Ordem ! Ordem é o que eu gostaria que o senhor instituísse na m inha habitação m oral coletiva. O progresso eu arranj o. Mas o senhor não m e diz nada. Não vej o nenhum a resposta em seus olhos, e tenho a sensação de estar falando sozinho em Brasília, num a área ainda não construída. Com eço a m e arrepender de estar levando este papo solitário com o senhor. Sei lá se o senhor m e aceita para análise, e am anhã faz um rom ance, um a peça de teatro com a m inha vida. Não é que estej a duvidando de sua ética profissional, m as se am anhã despertar no senhor um indivíduo novo, com fom e de escrever, quem m e diz que não serei eu o m aterial de sua criação? Até que ponto m e verei despido e denunciado em praça pública? Pois eu não lhe disse nada, m as ia lhe dizer sobre um eu celerado que j á com eteu em m im , ou por m im , coisas bem negras. É j ustam ente o quinto, o terrível, o pior de todos, quis estrangular a garotinha do j ardim de infância… por pouco-pouco ele estrangulava. A sorte foi o m eu eu da rua General Roca acudir a tem po. Daí, não tenho j eito de contrariá-lo quando ele m e diz: “Capri, não. Nada além da praça Saens Peña”. O quarto, o sexto e o sétim o, bem , chega, j á falei dem ais. Preciso guardar esses três com o reserva. Não lhe dou nenhum a dica sobre eles. Por que iria abrir as com portas com o prim eiro Freud que m e aparece pela frente? Tem coisas que Freud não explica. Nem Jung nem Adler nem Rank nem Horney nem Chico Xavier nem … Fico por aqui. Se m e derem um a explicadinha de cada um de m eus problem as, se tudo fica lim po e com putadorizado, que vai ser de m im , condenado à unidade integral? Não leve a m al, doutor, m as aqui m e despeço e prom eto nunca m ais procurar o senhor, tá bom ? Tchau! Hoj e à noite em barco para Cam pina Grande e levo a patota na raça.