De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 5 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Política

inexplicável interesse em torno

de um cidadão qualquer

I / De como tudo mudou

Desde que fui visto no interior do Jardim Botânico, um a dessas m anhãs do presente m ês de agosto de 1973, venho recebendo dem onstrações especiais de sim patia, da parte de conhecidos e principalm ente de estranhos. Não sei a que atribuir esta onda de interesse em torno de m inha pessoa. Até aquele dia, eu passava m ais ou m enos despercebido em todos os pontos da cidade que costum o frequentar. Era cum prim entado por um a ou duas pessoas, no m áxim o; ou nem isso. Passeava m inha anonim idade sem despertar a m enor reação.

Eis que inexplicavelm ente tudo m udou. Foi acudir-m e a ideia de visitar as plantas do m ês no Jardim Botânico (as plantas que florescem em agosto) e logo m e vi cercado de atenções que m e deixam estupefato. Por que de repente m e consideram indivíduo tão fora de série, m erecedor do carinho geral?

Depois de ter contem plado os vegetais que ostentam neste m ês as galas da florescência, ia retirar-m e em direção ao ponto de ônibus. Nisto, m inha atenção foi solicitada por um gato que dorm ia pacificam ente j unto à soleira de um a casa ali existente. Os gatos, com o as flores, m e cativam , e m eu olhar ecológico se com praz em adm irá-los com o docum entos de um a era am eaçada de extinção. A flor abria-se em esplendor, o bichano fechava-se em serenidade, e as duas coisas eram gratas a este espírito antiquado. Afinal, m ovim entei-m e.

— Não espere condução; aqui estou para servi-lo — disse-m e um cavalheiro de quarenta anos, que vi logo ser um executivo, pela m ala 007 que portava, j untam ente com outros sinais específicos enum erados pelo Jornal do Brasil. Terno de executivo, j eito de executivo, sorriso talvez m ais que de executivo: sorriso de am igo. Mas que am igo, se j am ais o vira em m inha vida?

Explicou-m e que, passando por ali, percebera m inha intenção de aguardar o coletivo, e com o, por felicidade, tinha um a hora disponível, dispunha-se a levar-m e para onde eu quisesse, aproveitando a chance de gozar dos encantos de m inha palestra.

Quando dei fé de m im , estava dentro do Opala 73 e recebia o cum prim ento do chofer, enquanto o m eu executivo m e atribuía o direito de indicar o itinerário.

Não sou de abusar; pedi que m e deixassem três quadras além , sob pretexto de que tinha de visitar um prim o ali dom iciliado.

— Não senhor, faço questão de levar o prezado doutor o m ais longe possível, para desfrutar sua com panhia tam bém o m aior tem po possível. Não m e roube este prazer.

Era tão gentil que não pude senão concordar com a cabeça, resignado. Estabeleceu-se o que ele cham ou de troca de ideias e pontos de vista sobre a conj untura, em seus contornos lineares e suas proj eções transform acionais a curto e m édio prazos. Matéria em que sou incuravelm ente leigo, m as que tive de versar por m eio de pigarro, m onossílabos concordantes ou despistantes, e outros sinais de ignorância envergonhada.

O executivo olhava-m e fixam ente, bebendo m inhas reticências e procurando extrair de m im a últim a palavra sobre tudo. Afinal, sorriu e aprovou:

— Eu sei, eu percebo. Faz bem em fechar-se em copas. No seu lugar eu faria o m esm o. Tem os de assum ir a consciência de nossas responsabilidades, num a fase em que o silêncio representa a m aior e m elhor das colaborações. Entendido?

Deixou-m e cento e vinte m inutos depois, m aravilhado com os m eus dotes de visão global, prudência vigilante e am adurecim ento da problem ática geral e das setoriais. Arrancou de m im o com prom isso de alm oçar com ele na próxim a sem ana, para reverm os com calm a nossas conceituações básicas, que tinham m uito de com um , em bora eu não soubesse de qualquer conceituação por m im form ulada no traj eto, a propósito dos tem as de seu interesse.

Ao descer, não sem espanto notei que um Volks vinha seguindo o Opala. Dele desceu um cavalheiro que correu a cum prim entar-m e e solicitou alguns m inutos de m inha preciosa atenção. Mesm o atrasado com as m inhas obrigações, não tive rem édio senão ir com ele a um a uisqueria da travessa do Ouvidor. Contarei na próxim a, m as continuo indagando: Deus m eu, por que tudo isto?

 

II / Desenvolvimento e fim do equívoco de pouca duração

Conversa na uisqueria:

— Não vá na conversa daquele senhor que o trouxe no carro. Eu tam bém queria trazê-lo, m as ele se precipitou com estrondo e sequestrou-o. É o term o: sequestro. Cuidado com hom ens de em presa, eles não veem a coisa em term os de nação, só enxergam o fator econôm ico. Falo com o cidadão e com o patriota. Em prim eiro lugar, felicitações ao Brasil. Por quê? Ora, o senhor sabe. É com hom ens deste gabarito que podem os contar. Com o? Não se faça de desentendido. O senhor disponha de m inha colaboração em tudo que for de proveito geral. Nossa classe, quer dizer, a m inha, está m arginalizada. Cabe a espíritos com o o do senhor tirá-la do acostam ento, proj etá-la, valorizá-la. Outro uísque?

— A esta hora do dia…

— Garçom , m ais dois. Sabe? Sua convocação é indício de novos rum os. Abertura! Tanto se falava nela (ou antes: se cochichava) que afinal ela veio. Aqui está o m eu cartão. Me telefone a qualquer hora do dia ou da noite. Faço questão de inscrever-m e entre os seus m ais m odestos e dedicados assessores. O quê? Ah, não tenho pressa. Eu sei que tudo está ainda no terreno dos entendim entos prévios… por favor: não m e esqueça. O Brasil m erece todos os sacrifícios. editorial

No escritório, j á sabiam de tudo, e fui recebido com um a salva de palm as. Confesso que m e em ocionei, não posso ouvir salva de palm as sem m e em ocionar. Quando percebi que era dirigida a m im , quis anular a em oção, m as era tarde. Por que botaram flores na m inha m esa? Meu chefe veio abraçar-m e; abraço apertado. O telefone tocava sem pre.

— São os repórteres.

— Que tenho eu a ver com os repórteres?

— Querem saber se você j á chegou, para entrevistá-lo.

Fugi. Quem disse que fugir resolve, num a situação dessas? Na livraria, falavam em m im para Intelectual Progressista do Ano.

— Por enquanto, né? Porque em 74…

— Em 74 o quê?

— Escondendo o leite, hem ? Sabidão!

Sentia-m e perturbado. Nunca m e acharam m elhor de saúde, nem m eu terno m ais elegante. Um corretor ofereceu-m e um apartam ento supersensacional na praça Saens Peña e outro, piram idal, na estrada do Tam bá, tudo a preço de banana-prata; eu receberia as chaves, depois a gente conversava. Recebi ofertas de cruzeiros no Mediterrâneo e em outros pontos da Terra. Queriam saber m inha opinião sobre ecum enism o, sexologia, congelam ento de vidas hum anas, corridas de Fórm ula 1, j aquetas de verão e tudo m ais que se possa, ou não, conceber.

— Tem estado com o Golberi?

— Nunca nos vim os.

— E com o Bulhões?

— Idem .

— Mas aquele senhor alto, ereto, civil de porte m ilitar, que estava com você ontem à tarde, não era o Juarez?

— Era o João Brandão.

— Ah, é?

Esse “ah, é?” veio com tonalidade de desencanto. Decididam ente, tinha havido engano. Mas o inquiridor insistiu:

— Você não foi cham ado?

— Cham ado pra quê?

— Pelo hom em .

— Que hom em , hom em de Deus?

— O do Jardim Botânico, ué.

— Padre Raulino, o diretor? Tam bém não tenho o prazer de conhecê-lo. Fui lá ver as plantas.

— Deixa de cortina de fum aça. Você sabe que eu m e refiro ao general Geisel.

— E por que o general havia de m e cham ar?

— Sei lá. Você foi visto saindo da casa dele.

— Eu?

— Você, sim . E depois de sair, ainda ficou olhando longo tem po para a casa, em bevecido.

— Eu olhava um gato dorm indo. Adoro gatos.

— Não acredito.

Acabou acreditando. Eu não era um dos pedestais do futuro governo do Brasil. Estivera no Jardim Botânico para fins não políticos. Não seria m inistro nem presidente do Banco Central nem em inência parda. Minhas relações com os am igos do general lim itavam -se a um gato. E gato visto à distância, sem m aior com unicação.

O inquiridor despediu-se com um m uxoxo. Minha estrela apagou-se, voltei a ser o Cidadão Qualquer. Sem salva de palm as.