De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 55 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Coisas de graça

 

O anúncio dizia: “Am anhã você não vai pagar o seu cafezinho”.

Certam ente era um café que se inaugurava, procurando cativar o público. Depois do fam igerado Petit Prince de Saint-Exupéry, cativar tornou-se palavra de consum o geral. Com o o cafezinho.

Pois não era. A casa fechava-se e, a título de despedida sentim ental, não cobraria o cafezinho que fora obj eto do seu com ércio durante trinta anos.

O frequentador suspirou:

— Há vinte anos que tom o café nesta casa, e logo quando ela vai acabar é que institui o fornecim ento gratuito.

Acrescentou:

— Não é pelo preço do cafezinho, que eu sem pre paguei sem sacrifício, e continuaria a pagar, se a casa continuasse. É pela espécie de sonho acordado que isso m e provoca, sonho que dura um m om ento, e se esfarela: as coisas de graça. Elas só ficam sendo de graça na hora em que deixam de ser coisas.

— Mas vem cá, você queria que tudo fosse de graça a vida inteira? — perguntou o am igo.

— Queria. Por que não? Se este cafezinho m e é servido de graça neste instante, e se eu voltar daqui a cinco m inutos será servido outra vez de graça, e m ais cinco m inutos depois, e m ais cinco e m ais cinco… até eu ficar entupido de café e bradar: chega, não quero m ais! por que não posso pensar que um a sociedade bem organizada serviria tudo a todos, a troco de sorriso?

O outro ia retrucar com as leis da econom ia, as lições do dr. Gudin, o bom senso etc., m as o rêveur éveillé não lhe deu folga:

— Saio daqui m al-acostum ado, vou ao Nino’s, j anto uns cam arões, retiro-m e despreocupado, pois j á não se pagam cam arões no Brasil. Nisso corre o garçom ao m eu encalço: “Doutor, o senhor se esqueceu da nota!”. “Que nota?”, respondo. “Eu sorri para você e para o restaurante, não é esse o pagam ento?” Ele abana a cabeça, desolado: “Continuam os cobrando em cruzeiros, doutor. E olhe que nos hotéis do seu Tj urs j á se calcula em dólar”. Vej a no que dá a ilusão do cafezinho grátis. No entanto, ao ler o anúncio, eu j á estava inclinado a não cobrar de ninguém os m eus serviços.

— E m udar-se para o hospício.

— Todos se m udariam para o hospício, isto é, não haveria hospício, pois ninguém m ais ia enlouquecer por falta ou excesso de dinheiro. Você cham a a isso de sociedade utópica, eu cham o sim plesm ente de sociedade, nom e que anda falsificadíssim o. Societas generis humani, para gastar o m eu Cícero, que nem de graça cai m ais no vestibular. Repare que não estou pedindo nada de graça no sentido com um , de alguém dar a outrem um par de sapatos para sentir-se superior e tirar diplom a de generoso. O que eu proponho (proponho é m odo de dizer, ninguém m e escutaria se eu propusesse isso ao Ministério do Planej am ento ou aos fabricantes de geleia) é dar de graça as coisas, retirando valor às coisas, e valorizando o ato de se desfazer delas. Todos passariam a oferecer serviços e bens, de que todos se utilizariam sem recorrer a financiam ento, pé-de-m eia, desfalque, insônia, úlcera duodenal, enfarte, assalto, hom icídio etc. O trabalho deixaria de ser m otivo de inj ustiça, e a produção deixaria de ser causa de guerra. No com eço, a gente faria cara feia, depois se acostum ava com esse esporte de oferecer sem cobrar, j á que a outra parte, de receber sem pagar, não causaria a m enor dificuldade. Com o isto não é possível agora, e suspeito que não o será nos anos que possivelm ente ainda terei de vida, que é que vou fazer com este cafezinho grátis de últim a hora?

— Beber, uai.

— Solução de m ineiro, está se vendo. Nada disso. Trouxe esta garrafinha e vou derram ar nela o cafezinho, para guardar com o lem brança. É o sinal de um m undo com o poderia ser e não é. Pode beber o seu, que o m eu ficará guardado no aparador lá de casa. Levei trinta anos para conquistar este troféu. O m undo não é de graça porque não quer. Ou por burrice.

Disse, derram ou, e saiu, portando com unção a garrafinha de café gratuito.