De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 69 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Auto brasileiro de Natal

 

Margem da estrada Cuiabá-Rio Branco. Para o cam inhão; desce o diretor e instala o alto-falante.

DIRETOR. — Aqui, neste lugar, se realizará o espetáculo. Podia ser em outro qualquer. Os atores ainda não chegaram ? (Consulta o relógio.) Puxa vida, sem pre atrasados. Mas não tem problem a. Esta é um a peça que se representa por si m esm a. Não carece de texto, de produtor, de artistas nem de diretor. Eu m esm o, que m odéstia à parte sou diretor diplom ado, sindicalizado, prem iado etc., estou aqui de xereta: adoro ver as coisas acontecendo.

CORO FEMININO (longe). —

É tarde, m eus chuchuzinhos,

é tarde, Rita e João.

Se não forem para a cam a,

desligo a televisão.

DIRETOR. — Ouviram ? É sem pre assim : querem im pedir as crianças de assistir aos m elhores program as. Com o se fosse possível espetáculo sem criança. A criança é o próprio espetáculo. Mas não tem problem a. Os garotos crescem por dentro, escondido dos adultos. Os garotos tom am conhecim ento de tudo, eles participam , eles…

CORO MASCULINO (metálico, menos distante). — Índice BV m édio, 45,2 pontos, batendo novo recorde. Ações da Paraíso Terrestre S.A. em ascensão-foguete, cotadas a 287 cruzeiros. Cinco apostadores da Loteria Esportiva, que m arcaram o em pate de 0 x 0 entre o Santa Teresinha de Manaus e o Inhançã de Jequié, faturaram dois bilhões — eu disse dois bilhões — cada um . Hora de lucrar, lucrar: aplique bem os seus doze por cento do 157, indo ao…

(O coro emudece, a um gesto de impaciência do diretor, que se dirige ao caminhão e tira de lá uma caveira de boi e uma máscara de burro, para colocá-las no leito da estrada.)

DIRETOR. — Estas é que são as m elhores figuras do elenco; não falam vírgula, e cum prem religiosam ente com a obrigação. Vieram para ser testem unhas oculares silenciosas. (Volta ao caminhão e retira dele uma lanterna, que pendura alto, no ar, entre a caveira e a máscara. A lanterna acende-se, com brilho intenso.)

Digam o que disserem , não há festa

m ais sim ples, m ais bacana do que esta.

A luz do céu entoa um a seresta

que chega ao m ais profundo da floresta.

(Música de fundo. Surge à esquerda o índio Kadiuéu, assustado, trazendo espanador e chocalho.)

ÍNDIO. — Gô-noeno-hôdi está levando surra de laço no pantanal. Gô-noeno-hôdi, nosso criador, com panheiro nosso. E não reage. Ele é fraco, ele é pobre com o a gente. A gente acham os que não m erecem os ter um criador m ais forçudo do que ele.

(Inclina-se, move o espanador, sacode o chocalho diante da lanterna, em sinal de reverência, e sai pela direita, conservando expressão de receio, enquanto aparece do mesmo lado a Baiana, pura ondulação.)

BAIANA. — Eu vim dançar nas sete linhas dos sete planetas, com o m eu colar de sete voltas, de contas de sete cores, de roxo e de am arelo, de azul e de rosa, de verde e de verm elho e de laranj a, eu vim dançar. Saravá, m eu filho!

(Samba diante do foco de luz e sai pela esquerda, sambando sempre. Aparecem no centro e avançam compassadamente o Fabricante de Roupa Super, o Fabricante de Calçado Maximus e o Produtor de Leite em Pó Marvellous, trazendo oferendas.)

1o FABRICANTE. — Ele não pode, ele não pode ficar vestido de nuvem .

2o FABRICANTE. — Absolutam ente não pode ficar calçado de espinho.

PRODUTOR. — De j eito nenhum não pode ficar alim entado de febre.

1o FABRICANTE. — A roupa que eu vou dar a ele é toda de prata m ais fina de São Dom ingos do Prata.

2o FABRICANTE. — O sapato que eu trouxe para ele é de ouro puro da Mina da Passagem .

PRODUTOR. — O leite que eu fabriquei pessoalm ente para ele é especialíssim o, tirado da Vaquinha Encantada.

1o FABRICANTE. — Prim eiro ele tem que vestir.

2o FABRICANTE. — Não senhor. Prim eiro tem que calçar.

PRODUTOR. — Negativo. Antes de m ais nada, tem que beber. (Engalfinham-se.)

DIRETOR. — Que é isso?! Calm a no Brasil e na Am érica Latina! Calm a no globo terrestre e no espaço sideral j á ocupado. O resto do cosm o deve estar tranquilo, ao que presum o. Não se pode festej ar sem brigar? Am ar sem guerrear?

(Ouve-se a cantoria que se aproxima, alegre.)

Mas que zoeira gostosa é essa? Que alegria é essa, que parece brotar do chão? Ah, logo vi, são as Pastorinhas que vêm dar o recado.

(Afastam-se os contendores, ainda agitando os braços, enquanto irrompem de todos os lados as Pastorinhas, formando três grupos.)

1o GRUPO. —

O dia ficou m ais claro,

a noite m ais transparente.

O caram uj o na praia

virou j oia de repente.

OS TRÊS GRUPOS. —

Virou j oia de repente.

2o GRUPO. —

Baila, baila, baila, baila,

ô m orena,

que o ribeirão lavou,

que o ribeirão levou

a tua pena.

OS TRÊS GRUPOS. —

Que o ribeirão levou

a tua pena.

3o GRUPO. —

Oi canta, m eu sabiá! Oi canta, m eu j asm ineiro!

Oi canta, m eu vestido novo! Oi canta, m inha vida nova!

É hora de cantar, é hora, é hora, é hora!

Oi canta, m eu povo!

OS TRÊS GRUPOS. —

Vim de Santa Catarina,

do Rio Grande do Norte,

vim de Goiás, vim de Minas,

de Sergipe, de Alagoas,

de São Paulo e Pernam buco,

de Roraim a roraim undo,

de pra lá do pé do m undo,

de a pé, de a cavalo,

de avião e trem de ferro,

de carona e de bilhete,

vim nadando, vim rem ando,

vim voando,

vim cantando,

vou cantando o am or, a paz!

(Bailam em volta da luz e retiram-se com a mesma alacridade. Aparece o Anjo Triste, de uma asa só.)

DIRETOR. — Qual é m esm o o teu papel? Eu esperava um anj o todo j ubiloso, com um a trom beta radiosa.

ANJO. — Ele não pôde vir, está ocupado com um festival lá em cim a. Então m e m andou em seu lugar, sem m e dar instruções.

DIRETOR. — Devias ter chegado antes de todos, para anunciar. Agora não é m ais necessário. Mas podes ficar por aí alguns instantes.

ANJO. — Devia anunciar… tudo?

DIRETOR. — Tudo não. Claro que não se deve anunciar tudo, para que haj a esperança. Apenas o com eço, a alegria do com eço, e o desej o de que o com eço dure indefinidam ente.

ANJO. — Coisas bem desagradáveis acontecerão com ele.

DIRETOR. — Eu sei.

ANJO. — Ninguém pode evitá-las, parece.

DIRETOR. — Há coisas que não podem ser evitadas.

ANJO. — Se fosse possível, bem que eu gostaria de contar a todos. Pelo m enos ficariam alertados, sofreriam m enos depois.

DIRETOR. — A questão é que, sem depois, nada precisava acontecer.

ANJO. — Se eu ficasse m ais tem po aqui em baixo… e na hora m arcada o substituísse, m orresse por ele…

DIRETOR. — Isso não figura no texto, m eu caro. Mas, com a devida licença, que pretensão a sua! Vam os, nem pense um a coisa dessas.

ANJO. — Então volto para lá de onde eu vim . Falhei no cum prim ento de m inha m issão. Nem ao m enos vi aquilo que o boi e o burro viram : a luz acender.

DIRETOR (batendo-lhe no ombro). — Os anj os falham , com o os hom ens, querido.

(Desaparece o Anjo. Um pela direita, outro pela esquerda, entram os Hermeneutas, sobraçando livros, jornais, cartazes.)

1o HERMENEUTA. — A lição dos textos é claríssim a. Ele vem para instaurar a paz entre os hom ens.

2o HERMENEUTA. — Entre os hom ens não. Só entre os hom ens de boa vontade. É claríssim a a lição dos textos.

1o HERMENEUTA. — Ora, os outros se renderão à m ansuetude de sua palavra.

2o HERMENEUTA. — Mansuetude? Ele pegará do chicote, expulsará os vendilhões, derrubará as m esas.

1o HERMENEUTA. — Vem pregar o am or.

2o HERMENEUTA. — Vem proclam ar a j ustiça.

1o HERMENEUTA. — A j ustiça com m isericórdia.

2o HERMENEUTA. — A j ustiça, pelo com bate.

1o HERMENEUTA. — O seu reino — atenção para este ponto — não é deste m undo.

2o HERMENEUTA. — Isto é m uito im portante: o seu reino com eça neste m undo.

1o HERMENEUTA. — Em que ficam os?

2o HERMENEUTA. — Ficam os na m esm a. Em divergência.

(Mostram-se mutuamente seus livros, jornais e cartazes, e ameaçam brigar, mas o Diretor os afasta para fora, com delicadeza.)

DIRETOR. — Discutem há m uitos anos, sem chegar a um acordo. O espetáculo não term inaria, se continuassem a falar. E querem ir além da peça. A peça é tão sim ples! Decerto j á notaram que está faltando algum a coisa… Não, não falta. Procurem bem e haverão de encontrá-la. No texto não está escrito, m as talvez estej a em vocês m esm os. Aliás, tudo se passa m ais dentro de nós do que nesta estrada. Há um a grande solidão, que se povoa desde que saibam os enchê-la e, com o a estrada se enche sem que sej a preciso cham ar ninguém , tocar nenhum sino… Para que foi que eu trouxe este alto-falante, se não precisava?

(Voltam todos, lentamente, em silêncio, e postam-se em redor da lanterna, como no presépio. Música de fundo.)