De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica
Auto brasileiro de Natal
Margem da estrada Cuiabá-Rio Branco. Para o cam inhão; desce o diretor e instala o alto-falante.
DIRETOR. — Aqui, neste lugar, se realizará o espetáculo. Podia ser em outro qualquer. Os atores ainda não chegaram ? (Consulta o relógio.) Puxa vida, sem pre atrasados. Mas não tem problem a. Esta é um a peça que se representa por si m esm a. Não carece de texto, de produtor, de artistas nem de diretor. Eu m esm o, que m odéstia à parte sou diretor diplom ado, sindicalizado, prem iado etc., estou aqui de xereta: adoro ver as coisas acontecendo.
CORO FEMININO (longe). —
É tarde, m eus chuchuzinhos,
é tarde, Rita e João.
Se não forem para a cam a,
desligo a televisão.
DIRETOR. — Ouviram ? É sem pre assim : querem im pedir as crianças de assistir aos m elhores program as. Com o se fosse possível espetáculo sem criança. A criança é o próprio espetáculo. Mas não tem problem a. Os garotos crescem por dentro, escondido dos adultos. Os garotos tom am conhecim ento de tudo, eles participam , eles…
CORO MASCULINO (metálico, menos distante). — Índice BV m édio, 45,2 pontos, batendo novo recorde. Ações da Paraíso Terrestre S.A. em ascensão-foguete, cotadas a 287 cruzeiros. Cinco apostadores da Loteria Esportiva, que m arcaram o em pate de 0 x 0 entre o Santa Teresinha de Manaus e o Inhançã de Jequié, faturaram dois bilhões — eu disse dois bilhões — cada um . Hora de lucrar, lucrar: aplique bem os seus doze por cento do 157, indo ao…
(O coro emudece, a um gesto de impaciência do diretor, que se dirige ao caminhão e tira de lá uma caveira de boi e uma máscara de burro, para colocá-las no leito da estrada.)
DIRETOR. — Estas é que são as m elhores figuras do elenco; não falam vírgula, e cum prem religiosam ente com a obrigação. Vieram para ser testem unhas oculares silenciosas. (Volta ao caminhão e retira dele uma lanterna, que pendura alto, no ar, entre a caveira e a máscara. A lanterna acende-se, com brilho intenso.)
Digam o que disserem , não há festa
m ais sim ples, m ais bacana do que esta.
A luz do céu entoa um a seresta
que chega ao m ais profundo da floresta.
(Música de fundo. Surge à esquerda o índio Kadiuéu, assustado, trazendo espanador e chocalho.)
ÍNDIO. — Gô-noeno-hôdi está levando surra de laço no pantanal. Gô-noeno-hôdi, nosso criador, com panheiro nosso. E não reage. Ele é fraco, ele é pobre com o a gente. A gente acham os que não m erecem os ter um criador m ais forçudo do que ele.
(Inclina-se, move o espanador, sacode o chocalho diante da lanterna, em sinal de reverência, e sai pela direita, conservando expressão de receio, enquanto aparece do mesmo lado a Baiana, pura ondulação.)
BAIANA. — Eu vim dançar nas sete linhas dos sete planetas, com o m eu colar de sete voltas, de contas de sete cores, de roxo e de am arelo, de azul e de rosa, de verde e de verm elho e de laranj a, eu vim dançar. Saravá, m eu filho!
(Samba diante do foco de luz e sai pela esquerda, sambando sempre. Aparecem no centro e avançam compassadamente o Fabricante de Roupa Super, o Fabricante de Calçado Maximus e o Produtor de Leite em Pó Marvellous, trazendo oferendas.)
1o FABRICANTE. — Ele não pode, ele não pode ficar vestido de nuvem .
2o FABRICANTE. — Absolutam ente não pode ficar calçado de espinho.
PRODUTOR. — De j eito nenhum não pode ficar alim entado de febre.
1o FABRICANTE. — A roupa que eu vou dar a ele é toda de prata m ais fina de São Dom ingos do Prata.
2o FABRICANTE. — O sapato que eu trouxe para ele é de ouro puro da Mina da Passagem .
PRODUTOR. — O leite que eu fabriquei pessoalm ente para ele é especialíssim o, tirado da Vaquinha Encantada.
1o FABRICANTE. — Prim eiro ele tem que vestir.
2o FABRICANTE. — Não senhor. Prim eiro tem que calçar.
PRODUTOR. — Negativo. Antes de m ais nada, tem que beber. (Engalfinham-se.)
DIRETOR. — Que é isso?! Calm a no Brasil e na Am érica Latina! Calm a no globo terrestre e no espaço sideral j á ocupado. O resto do cosm o deve estar tranquilo, ao que presum o. Não se pode festej ar sem brigar? Am ar sem guerrear?
(Ouve-se a cantoria que se aproxima, alegre.)
Mas que zoeira gostosa é essa? Que alegria é essa, que parece brotar do chão? Ah, logo vi, são as Pastorinhas que vêm dar o recado.
(Afastam-se os contendores, ainda agitando os braços, enquanto irrompem de todos os lados as Pastorinhas, formando três grupos.)
1o GRUPO. —
O dia ficou m ais claro,
a noite m ais transparente.
O caram uj o na praia
virou j oia de repente.
OS TRÊS GRUPOS. —
Virou j oia de repente.
2o GRUPO. —
Baila, baila, baila, baila,
ô m orena,
que o ribeirão lavou,
que o ribeirão levou
a tua pena.
OS TRÊS GRUPOS. —
Que o ribeirão levou
a tua pena.
3o GRUPO. —
Oi canta, m eu sabiá! Oi canta, m eu j asm ineiro!
Oi canta, m eu vestido novo! Oi canta, m inha vida nova!
É hora de cantar, é hora, é hora, é hora!
Oi canta, m eu povo!
OS TRÊS GRUPOS. —
Vim de Santa Catarina,
do Rio Grande do Norte,
vim de Goiás, vim de Minas,
de Sergipe, de Alagoas,
de São Paulo e Pernam buco,
de Roraim a roraim undo,
de pra lá do pé do m undo,
de a pé, de a cavalo,
de avião e trem de ferro,
de carona e de bilhete,
vim nadando, vim rem ando,
vim voando,
vim cantando,
vou cantando o am or, a paz!
(Bailam em volta da luz e retiram-se com a mesma alacridade. Aparece o Anjo Triste, de uma asa só.)
DIRETOR. — Qual é m esm o o teu papel? Eu esperava um anj o todo j ubiloso, com um a trom beta radiosa.
ANJO. — Ele não pôde vir, está ocupado com um festival lá em cim a. Então m e m andou em seu lugar, sem m e dar instruções.
DIRETOR. — Devias ter chegado antes de todos, para anunciar. Agora não é m ais necessário. Mas podes ficar por aí alguns instantes.
ANJO. — Devia anunciar… tudo?
DIRETOR. — Tudo não. Claro que não se deve anunciar tudo, para que haj a esperança. Apenas o com eço, a alegria do com eço, e o desej o de que o com eço dure indefinidam ente.
ANJO. — Coisas bem desagradáveis acontecerão com ele.
DIRETOR. — Eu sei.
ANJO. — Ninguém pode evitá-las, parece.
DIRETOR. — Há coisas que não podem ser evitadas.
ANJO. — Se fosse possível, bem que eu gostaria de contar a todos. Pelo m enos ficariam alertados, sofreriam m enos depois.
DIRETOR. — A questão é que, sem depois, nada precisava acontecer.
ANJO. — Se eu ficasse m ais tem po aqui em baixo… e na hora m arcada o substituísse, m orresse por ele…
DIRETOR. — Isso não figura no texto, m eu caro. Mas, com a devida licença, que pretensão a sua! Vam os, nem pense um a coisa dessas.
ANJO. — Então volto para lá de onde eu vim . Falhei no cum prim ento de m inha m issão. Nem ao m enos vi aquilo que o boi e o burro viram : a luz acender.
DIRETOR (batendo-lhe no ombro). — Os anj os falham , com o os hom ens, querido.
(Desaparece o Anjo. Um pela direita, outro pela esquerda, entram os Hermeneutas, sobraçando livros, jornais, cartazes.)
1o HERMENEUTA. — A lição dos textos é claríssim a. Ele vem para instaurar a paz entre os hom ens.
2o HERMENEUTA. — Entre os hom ens não. Só entre os hom ens de boa vontade. É claríssim a a lição dos textos.
1o HERMENEUTA. — Ora, os outros se renderão à m ansuetude de sua palavra.
2o HERMENEUTA. — Mansuetude? Ele pegará do chicote, expulsará os vendilhões, derrubará as m esas.
1o HERMENEUTA. — Vem pregar o am or.
2o HERMENEUTA. — Vem proclam ar a j ustiça.
1o HERMENEUTA. — A j ustiça com m isericórdia.
2o HERMENEUTA. — A j ustiça, pelo com bate.
1o HERMENEUTA. — O seu reino — atenção para este ponto — não é deste m undo.
2o HERMENEUTA. — Isto é m uito im portante: o seu reino com eça neste m undo.
1o HERMENEUTA. — Em que ficam os?
2o HERMENEUTA. — Ficam os na m esm a. Em divergência.
(Mostram-se mutuamente seus livros, jornais e cartazes, e ameaçam brigar, mas o Diretor os afasta para fora, com delicadeza.)
DIRETOR. — Discutem há m uitos anos, sem chegar a um acordo. O espetáculo não term inaria, se continuassem a falar. E querem ir além da peça. A peça é tão sim ples! Decerto j á notaram que está faltando algum a coisa… Não, não falta. Procurem bem e haverão de encontrá-la. No texto não está escrito, m as talvez estej a em vocês m esm os. Aliás, tudo se passa m ais dentro de nós do que nesta estrada. Há um a grande solidão, que se povoa desde que saibam os enchê-la e, com o a estrada se enche sem que sej a preciso cham ar ninguém , tocar nenhum sino… Para que foi que eu trouxe este alto-falante, se não precisava?
(Voltam todos, lentamente, em silêncio, e postam-se em redor da lanterna, como no presépio. Música de fundo.)