De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 68 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Festas

reform a das persianas

 

Modesto beneficiário do INPS, X. foi ao banco receber o benefício aum entado de fim de ano. Junto ao guichê, o desconhecido de cara aberta catucou-o:

— Dá-m e o prazer de aceitar um a pequenina lem brança?

(Mais um chato querendo m e im pingir um brinde que não servirá para nada e m e custará cinquenta cruzeiros.)

O hom em estendeu-lhe um desses calendários de bolso, que reduzem o ano às proporções de um dia de folhinha de desfolhar.

(Em breve, a que se reduzirá o tem po?)

— Obrigado — e recebeu o presente.

— Quem agradece sou eu. Sinto verdadeira satisfação em oferecer calendários a determ inados cavalheiros.

(Esse cara é gozado. Por que fica satisfeito com um a coisa dessas? Pensa que está m e dando um lote de ações do Banco do Brasil?)

— A estam pa é bonita — com entou, para dizer qualquer coisa.

— Não é? Eu que bolei. A j anela aberta para o céu e para o m ar. Janela de cobertura, vê-se logo. Repare que não se enxerga nem a praia nem a rua. Só o essencial, o infinito.

(Além do m ais, com babados de literato.)

— Não preciso cham ar a atenção do am igo para os sím bolos. Sei que beliscou im ediatam ente a m inha ideia.

(Não precisa cham ar, m as está cham ando, para o que ele cham a de sím bolos.)

— Perfeito. Vej o pelo anúncio que o senhor é técnico…

— Em restauração de persianas e venezianas, e tam bém de gelosias, para servi-lo. Minha especialidade.

— Pois quando eu precisar lá em casa, sr. Teopom po, m e lem brarei do senhor.

— Quero que se lem bre sem pre de m im . Pode parecer que estou botando banca, m as não é à toa que m e cham o Teopom po.

(Matusquela.)

— Com o assim ?

— Enviado de Deus, sabe? Foi o professor Nascentes que m e explicou. Claro que não m e atribuo tam anha im portância. Mas um nom e assim influi na gente, é responsabilidade. Ele ditou m inha profissão.

(É; diagnóstico perfeito.)

— Não sirvo para m issionário, m e faltam as luzes, aquele saber, m as restaurando j anelas abro um horizonte para os m eus sem elhantes, não lhe parece?

— E fecha tam bém .

— Não diga isso. Quando a persiana desce, está abrindo para o espaço, com o direi… interior. O m esm o que fechar os olhos. Fechar os olhos é abri-los para o m iolo da gente. É cavar um túnel dentro de nós m esm os. De vez em quando, ou m elhor, frequentem ente, é ótim o fazer isto.

(Onde que ele quer chegar com esse papo furado?)

— Com licença. O caixa vai m e pagar.

— Toda. Com o eu dizia, os hom ens têm necessidade de usar um a j anela, coisa que pouco se faz hoj e em dia. Quem é que chega à j anela do apartam ento para ver, não digo a batida de carro na rua, m as as nuvens, o sol rom pendo ou baixando, as gaivotas, os pom bos, as cores, os reflexos? Quem vê m ais a Lua? O senhor? Duvido. Não leve a m al, m as a gente, o senhor inclusive, só espia o que está a m eio m etro de distância, nem isso. Hoj e tudo é televisão, é cassete, se vê e se ouve por tabela. Troço sem graça.

(E daí?)

— Bom , vou m e despedir.

— Se perm ite, m ais um a palavrinha. Cuide bem de suas j anelas.

— Terei presente.

— No m aterial e no m oral. Pessoas de sua idade…

(Minha idade? Que diabo ele tem com isso?)

— Com o?

— É quando se deve olhar m ais em redor, reparar bem , para descobrir o que vale a pena, o coração de cada coisa. Janeiro está estourando aí, vam os abrir a j anela para j aneiro.

— Isso todo m undo abre, queira ou não queira.

— Falo de um m odo particular de abrir. Com j eito, com m ansidão. Não escancarar logo, entende? Aos golinhos, não deixando as réguas da persiana se em baralhar, os cordões em bolar. Descobrir o ano novo com o… posso dizer?

— Não sendo contra a segurança nacional, pode.

— Com o se despe a m ulher am ada, ou ela se despe pra gente. Valorizando as coisas.

(Até que ele tem ensino.)

— Olhe devagar, saboreando a novidade das coisas que em baçaram com o ano velho e voltam a ficar lustrosas no ano novo. Não gaste com o olhar, hem ? para que elas durem o ano inteiro. Se é bom , dura até m ais. Mas doze m eses é prazo regular de duração. Tem po de restaurar a j anela.

(Pronto. Entra a m ensagem .)

— Restaurar a j anela é um m eio de restaurar a vista e o visto. Não digo isto para vender o m eu peixe. Pergunto por perguntar: há m uito tem po que não reform a suas persianas?

— Francam ente, não m e recordo.

— Então, m eu caro, elas devem estar caindo de cansadas. Neste caso…

— Agora percebi.

— O quê?

— O senhor fica j unto ao guichê dos aposentados porque acha que eles devem m orar em apartam entos adquiridos há m ais de trinta anos, portanto com persianas gastas. Fatalm ente serão seus clientes.

— E haverá m al nisso? Não acha que eu faço bem aos aposentados? A reform a das persianas é um com eço de reform a de vida. Vam os, com ece bem o ano! Quem lhe fala é Teopom po Cardoso, sem ienviado de Deus!

X. aprendeu a lição m ais sim ples de ano novo.