De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 42 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Gravação

 

— Pronto, tá ligado. Posso com eçar?

— Pode.

— O senhor se sente realizado?

— Por que você quer saber isso?

— Nada não. O professor é que m andou lhe perguntar.

— O professor tem interesse em saber se eu m e sinto realizado?

— Sei não senhor.

— Então diga ao professor que venha m e procurar.

— Pra quê?

— Para eu lhe perguntar se ele se sente realizado.

— O senhor vai perguntar isso a ele?

— Vou.

— O senhor tam bém está estudando? Nessa idade, poxa!

— Que que tem ? Toda idade é boa para estudar, a gente não acaba nunca de saber as coisas. Mas não estou estudando não.

— Então por que vai perguntar isso ao professor?

— Porque se ele quer saber se eu m e sinto realizado, eu tam bém quero saber a m esm a coisa dele. Indiscrição por indiscrição.

— Gozado… Mas se o senhor fizer isso, não bota o m eu nom e no m eio, porque vai dar grilo. Vê lá, hem .

— Fique descansado. Não vou com prom eter você.

— E o senhor só vai responder a m inha pergunta depois de falar com ele? E se ele não responder? Se dem orar? Tenho de entregar esta entrevista até quinta-feira.

— Bem , eu respondo agora m esm o.

— Então, responde, vam os lá.

— Prim eiro eu preciso saber: o que é se sentir realizado?

— O senhor não sabe?

— Para dizer o que eu sinto, quero saber antes se o que eu sinto é o m esm o que se deve sentir quando se está realizado, ou se j ulga estar. E para isso é preciso saber o que é estar realizado.

— Poxa, não com plica.

— Estou com plicando, m eu querido? Minha intenção era sim plificar, esclarecer. O que é m esm o se sentir realizado?

— Ora! Se sentir realizado é… quer dizer… Não sei explicar m uito bem , m as o senhor entende, né?

— Mais ou m enos. Quer dizer: m enos. E você?

— Se o senhor não entende bem , eu é que vou entender?

— Então, com o é que eu posso responder?

— Ué, o senhor é o entrevistado, o que sabe das coisas.

— E quando não sei?

— Não sabe se está realizado?

— Não sei nem o que é realizado.

— Corta essa. Não vai m e dizer que não tem dicionário em casa.

— Tenho alguns, m as em vez de m e tirarem as dúvidas, m e acrescentam outras.

— Desculpa, m as o senhor é enrolado, hem ? Será que não achou o significado de realizado?

— Achei quatro ou cinco. Quer ver? Olhe aqui. O prim eiro é o de coisa ou negócio que se realizou, que se tornou real. Será que m e tornei real? E antes não era? Que que eu era então? Fantasm a? Proj eto?

— Assim o senhor m e funde a cuca.

— Não tenho intenção.

— E os outros significados?

— No fim , está o neologism o, e aí é que — desculpe a expressão, que não costum o usar, m as m e deu vontade — aí é que a vaca vai pro brej o. Aqui está: “indivíduo realizado: dito por um a pessoa, de si própria, quando considera ter alcançado todos os seus obj etivos no terreno ético ou no de suas atividades profissionais ou artísticas”.

— Tá legal.

— Legal no papel, m as e dentro de m im ?

— Dentro do senhor o quê?

— Quais são m eus obj etivos no terreno ético, ou, m ais m odestam ente, no terreno de m inhas atividades profissionais ou artísticas? Tenho obj etivos éticos definidos? Quais são? São m eus ou m e são im postos ou sugeridos pela educação e pela conveniência social? Se fossem exclusivam ente m eus, quais seriam ? E em m inhas atividades práticas ou criativas? Que é que eu pretendo? Pretendo sem pre as m esm as coisas? Não m udo de alvo? Não danço conform e a m úsica ou até sem ela e contra ela? Que é que eu sei de positivo a respeito disso, ao longo de m inha vida? Que pretendia eu há vinte anos? Há dez? Na sem ana passada? Me procure depois de eu m orrer. Aí então posso dar balanço.

— Chega! Chega!

— Estou caceteando você?

— Não está enchendo não. É que a fita acabou. Até que a entrevista foi bacana, um trem endo barato. O professor vai delirar, a turm a tam bém . Um cara que não sabe se está realizado nem o que é realizado! Papo findo, tchau!