De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 13 de 72

Páginas do PDF

De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Comportamento

com portam ento

recalcitrante

 

O trocador olhou, viu, não aprovou. Daquele passageiro, escanchado placidam ente no banco lateral, escorria um fio de água que ia com pondo, no piso do ônibus, a m icrofigura de um a piscina.

— Ei, m oço, quer fazer o favor de levantar?

O m oço (pois ostentava barba e cabeleira am azônica, sinais indiscutíveis de m ocidade), nem -te-ligo.

O trocador esfregou as m ãos no rosto, em gesto de enfado e desânim o, diante de situação tantas vezes enfrentada, e m urm urou:

— Esses caras são de m orte.

Devia estar pensando: Todo ano a m esm a coisa. Chegando o verão, chegam problem as. Bem disse o Dario, quando fazia gol no Atlético Mineiro: Problem ática dem ais. Estava cansado de advertir passageiros que não aprendem com o viaj ar em coletivo. Não aprendem e não querem aprender. Tendo com prado passagem por sessenta e cinco centavos, acham que com praram o ônibus e podem fazer dele casa da peste. Mas insistiu:

— Moço! Ô m oço!

Nada. Dorm ia? Olhos abertos, pernas cabeludas ocupando cada vez m ais espaço, ouvia e não respondia. Era preciso tom ar providência:

— O senhor aí, cavalheiro, quer cutucar o braço do distinto, pra ele m e prestar atenção?

O cavalheiro, vê lá se ia se m eter num a dessas. Ignorou, olím pico, a m archa do caso terrestre.

Em bora sem surpresa, o cobrador coçou a cabeça. Sabia de experiência própria que passageiro nenhum quer entrar num a fria. Ficam de cam arote, espiando o circo pegar fogo. Teve pois que sair do seu trono, pobre trono de trocador, fazendo a difícil ginástica de sem pre. Bateu no om bro do rapaz:

— Vam os levantar?

O outro m al olhou para ele, do longe de sua distância espiritual. Insistiu:

— Com o é, não levanta?

— Estou bem aqui.

— Eu sei, m as é preciso levantar.

— Levantar pra quê?

— Pra quê, não. Por quê. Seu calção está m olhado de água do m ar.

— Tem certeza que é água do m ar?

— Tá na cara.

— Com o tá na cara? Analisou?

Forrou-se de paciência para responder:

— Olha, o senhor está de calção de banho, o senhor veio da praia, que água pode ser essa que está pingando se não for água do m ar? Só se…

— Se o quê?

— Nada.

— Vam os, diz o que pensou.

— Não pensei nada. Digo que o senhor tem de levantar porque seu calção está ensopado e vai fazendo um a lagoa aí em baixo.

— E daí?

— Daí, que é proibido.

— Proibido suar?

— Claro que não.

— Pois eu estou suando, sabe? Não posso suar sentado, com esse calorão de j aneiro? Tenho que suar de pé?

— Nunca vi suar tanto na m inha vida. Desculpe, m as a portaria não perm ite.

— Que portaria?

Aquela pregada ali, não está vendo? “O passageiro, ainda que com roupa sobre as vestes de banho m olhadas, som ente poderá viaj ar de pé.”

— Portaria nenhum a diz que o passageiro suado tem que viaj ar de pé. Papo findo, tá bom ?

— O senhor está desrespeitando a portaria e eu tenho que convidar o senhor a descer do ônibus.

— Eu, descer porque estou suado? Sem essa.

— O ônibus vai parar e eu cham o a polícia.

— A polícia vai m e prender porque estou suando?

— Vai botar o senhor pra fora porque é um … recalcitrante.

O passageiro pulou, transfigurado:

— O quê? Repita, se for capaz.

— Re… calcitrante.

— Te quebro a cara, ouviu? Não adm ito que ninguém m e insulte!

— Eu? Não insultei.

— Insultou sim . Me cham ou de réu. Réu não sei o quê, calcitrante, sei lá o que é isso. Retira a expressão, ou lá vai bolacha.

— Mas é a portaria! A portaria é que diz que o recalcitrante…

— Não tenho nada com a portaria. Tenho é com você, seu cretino. Retira j á a expressão, ou…

Retira não retira, o ônibus chegou ao m eu destino, e eu paro infalivelm ente no m eu destino. Fiquei sem saber que consequências físicas e outras teve o em prego da palavra “recalcitrante”.