De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 50 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Outra barata

 

 

Boto o papel na m áquina, para alinhavar estas m al traçadas, e eis que na ponta da m esa surge silenciosa baratinha, e…

— Que noj o! — Exclam a, em algum a parte do país, m inha leitora.

— E, sabe? fica m e contem plando.

— Gostou de sua cara. Meus cum prim entos.

— Então decidi: vou escrever sobre a baratinha.

— Mas você não podia inventar assunto m ais cronicável? Esse é de m orte.

— Sei que é de m orte, e certam ente vou m atá-la antes de fazer a crônica. Narrarei a contem plação e m orte da baratinha.

— O que você devia fazer, antes de m ais nada, era dedetizar sua casa, viu?

— Pensa que não dedetizei? Este é o prim eiro m otivo de m eu interesse pela baratinha. Não por todas, ou por qualquer. Por esta. Resistiu à dedetização, veio m e olhar face a face. Tem algum a coisa a m e dizer.

— Veio desafiá-lo, é isso.

— É possível. Mas tam bém é possível que tenha vindo em m issão de paz. Quer talvez explicar-m e que as baratas, pelo m enos as baratinhas, não são aquilo que a gente está pensando delas há m ilênios.

— Você é um boboca.

— Obrigado. Mas Oswaldo Goeldi era um grande artista, e sim patizava com a barata sem um a perna que todas as noites circulava no seu ateliê, ceando restos de cola. Fazia com panhia ao gravador, m adrugada alta.

— Bem , o Goeldi…

— E Manuel Bandeira m e contou, um dia, que Joanita Blank, flor de pessoa, absolutam ente lim pa de corpo e hábitos, cham ava de am iga um a baratona frequentadora de sua m esa de trabalho. Queriam que ela a esm agasse com um a chinelada. “Eu, m atar um a am iga?!”, protestou Joanita.

— Mas você disse que vai m atar a sua.

— Disse que vou m atar, m as não estou bem certo disso. Ela com eçou a m e cativar, com o se diz no Principezinho. Não é todos os dias que um a barata fica parada diante de um hom em , tranquila, tranquila.

— Nem todos os dias que um hom em fica parado diante de um a barata, tranquilo, tranquilo.

— Me encara com tanta confiança que seria um a suj eira m atá-la.

— Suj eira é a própria barata, você não desconfia?

— Sei que eu e ela não vam os nos entender por palavras, com o eu e você não estam os nos entendendo neste m om ento. A com unicação tem de ser de outro j eito. Estou m e esforçando por entender a barata, você não vê logo?

— Francam ente: se você com eça por não se entender com igo, com o é que vai se entender com um a porcaria dessa?

— De qualquer m odo, tento. A iniciativa é dela. Você m e garante que sou superior a esse bicho. Com o então vou recusar o diálogo, tornando-m e inferior a um a baratinha?

— Esse orgulho, essa falsa hum ildade…

— Ora, você está cultivando preconceitos fem ininos com relação à barata. Joanita deve ser a única exceção. Todas as outras m ulheres do planeta não adm item que se tente lançar um a ponte entre a barata e o hom em , pelo m enos para troca de pontos de vista.

— Não ataque as m ulheres em bloco. É dem agogia. Pensa que eu não tenho sensibilidade? Se alguém m e provasse que barata sofre com o a gente, e se ela não fosse tão repugnante…

— Aí está. Para você ter pena da barata, era preciso que ela não fosse barata. Fosse um inseto encantador, com o a borboleta.

— Talvez você tenha razão. Gostar do que é bonito não tem valor. O Goeldi…

— Viu? Você passou a com preender a prim eira letra da barata. Não é “i” de im unda, é “m ” de m iséria. Pobre ser m iserável, condenado a destruir e ser destruído. Criação triste da natureza.

— Com eço a ter pena da baratinha.

— Mas agora é tarde. Ela está se m ovendo, não parece m ais disposta a um a aliança com igo. Retom ou o ar dissim ulado. Vou m atá-la.

— Não faça isso, espere…

— Pronto. Matei.

— Monstro!

Ah, m ulheres, m ulheres!