De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 7 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Cidade

viadutos

 

— Endereço do colega?

— Viaduto São Sebastião, pilastra no 4, lado esquerdo, na Presidente Vargas. Apareça por lá.

— Ótim o. Vou aparecer, m as agora não. Estou de m udança.

— Se não for indiscrição, pode-se saber para onde?

— Não sei ainda. Moro no viaduto de Japeri, aliás m uito confortável, m as com preende, né? Um pouco longe. Procuro um na cidade.

— Já experim entou Botafogo?

— Fui eu que inaugurei. Era um a habitação deliciosa, aliás duas, com vista panorâm ica, banho de m ar em frente etc. Mas sabe o que aconteceu: estragaram aquilo, botaram j ardins, espelhos d’água…

— É. Estão sem pre atrapalhando.

— Espelho d’água, vá lá, serve para a toalete. Mas o j ardim …

— Jardim não é bom para secar roupa?

— Em tese. Mas há sem pre um guarda querendo defender as plantas, im plicando com os m oradores.

— Tem razão. Na vida, o essencial é paz.

— Tam bém acho. Folgo em saber que estam os de acordo neste ponto fundam ental. Mas, sabe? Os viadutos estão difíceis.

— É, ouço dizer. Mesm o havendo tantos por aí?

— Todos lotados. Dizem que onde cabem três cabe m ais um . Eu discordo. Por essa teoria, onde cabem vinte, cinquenta, m il, cabe sem pre m ais um . E os viadutos tornam -se inabitáveis, ficam iguaizinhos aos edifícios, o que, francam ente, caro colega, não é vantagem .

— Vej o que o am igo aprecia a solidão.

— Solidão a dois, a três, eu aprecio, quando os colegas sabem viver em com unidade. A gente não está nem sozinha nem com a m ultidão. Equilibrado. Cada um cuida de si, e reina ordem no viaduto. O que eu não suporto é viaduto desorganizado. Sou m uito exigente neste particular.

— Estou vendo que lá em Japeri o senhor deve ser um a espécie de síndico.

— Que síndico? Quem falou em síndico? Nós três nos autogovernam os. Eu, que atendo por Quilo-e-Meio, seu criado (não cheguei a crescer m uito, em todo caso não m e cham am de Meio-Quilo), o Vai-por-Mim e a Marlene Garbo.

— Por que Marlene Garbo? Não é acum ulação?

— Porque ela tem as pernas da Marlene Dietrich e o j eito da Greta Garbo. A com binação é genial, sabe? Tem vezes que a gente cham a ela de Margá. Santa m ulher. Já teve os tubos, viaj ou pelaí, não guardou nem pinta de grã-finagem .

— E o Vai-por-Mim ?

— Não tenho queixa dele. Só que anda com m ania de j ogar na Bolsa, nosso viaduto está cheio de balancetes, prospectos, gráficos. Tenho m edo que ele fique rico, daí a pouco com eça a botar banca.

— Dê uns conselhos ao Vai-por-Mim .

— Dei. Ele sonha em descobrir j azida de tório em Japeri, para fundar o Banco Nacional de Habitação em Viadutos, Pontes e Congêneres. Não deu sorte na Loteca, hoj e diz que o plá é investir. Eu preveni a ele: Ficando rico, a prim eira coisa que você vai fazer é cobrar aluguel nos viadutos.

— Os viadutos são do Estado.

— E daí? Até o Estado perceber, ele j á dobrou a fortuna. O colega desculpe, m as isso é safanagem .

— Diga ao Vai-por-Mim que apareça aqui no São Sebastião, para baterm os um papo.

— Vai tirar essas m inhocas da cabeça dele?

— Não sei… A ideia m e parece aproveitável. A socialização dos viadutos, um a cadeia nacional de Hilton dos hom ens e m ulheres independentes… viadutos bem funcionais, o abrigo ao alcance de todos… Um problem a social que se resolve…

— Sem essa! Eu a querer salvar o Vai-por-Mim , e o colega pensando em tirar partido da loucura dele! Acabando com a paz, a relativa paz que ainda se goza nos viadutos! Não conte com igo e passe m uito m al, traidor!