De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 35 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Viagem a Paris

 

— Ouvi dizer que vai a Paris.

— Exato.

— A negócio?

— Não.

— Turista?

— Não.

— Missão política reservada?

— Não.

— Tão secreta assim ?

— Não.

— Se não sou indiscreto… transa de am or?

— Não.

— Está m uito m isterioso.

— Não.

— Com o não? Saúde, talvez.

— Não.

— Com preendo que não queira alarm ar…

— Não.

— Busca apenas repouso.

— Não.

— Fugir a esse calorão dos infernos.

— Não.

— Fugir do trabalho, então.

— Não.

— Capricho do m om ento.

— Não.

— Tantos nãos devem significar um sim .

— Não.

— Significam sim . Vou repetir as hipóteses.

— Não.

— Tem os pela frente um a indústria nova, de vulto.

— Não.

— De qualquer m aneira, é financiam ento internacional.

— Não.

— Então a coisa está ficando preta.

— Não.

— Está preta, e há j ogadas que só em Paris.

— Não.

— Percebe-se algum a coisa no ar.

— Não.

— Não dá para perceber, m as há.

— Não.

— Mas pode haver a qualquer m om ento.

— Não.

— Nem por hipótese?

— Não.

— Nenhum a nuvem distante, m uito distante m esm o?

— Não.

— No ano que vem ?

— Não.

— Ouvi m al?

— Não.

— Sendo assim , é segredo pessoal?

— Não.

— O coração é quem dita a viagem … eu sei.

— Não.

— Sim , sim . Pode confessar.

— Não.

— Hoj e em dia essas coisas são públicas. Dão até cartaz.

— Não.

— Sei que não precisa disso, m as…

— Não.

— Por que não? Está com m edo da im prensa?

— Não.

— Receia perder a situação social?

— Não.

— A situação financeira?

— Não.

— Política?

— Não.

— Pois olhe, m elhor é preparar o am biente.

— Não.

— Claro que sim . Insinuar m udança em sua vida.

— Não.

— Discretam ente.

— Não.

— De leve, só um a pincelada. Deixe com igo.

— Não.

— Não abro m anchete nem boto aquela foto em duas colunas, aquela bacana, lem bra?

— Não.

— Só cinco linhas.

— Não.

— Duas.

— Não.

— Mas tenho de dizer algum a coisa.

— Não.

— O senhor é notícia.

— Não.

— Pode dizer que não, m as é sim .

— Não.

— Puxa vida, o senhor hoj e está m edonho. Resolveu responder não a tudo que é pergunta m inha?

— Não.

— Ah, é? Então vam os recom eçar: o senhor vai a Paris?

— Vou.

— E que é que vai fazer em Paris?

— Ver.

— Ver o quê?

— O último tango em Paris.

— E por que é que não m e disse isso logo, hom em de Deus?

— Você não m e perguntou, por que eu havia de responder?