De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica
Quadro na parede
— Esse quadro está torto desde o com eço do m undo e ninguém se lem bra de consertar sua posição — observou o sr. Borges, levantando a cabeça, entre o prim eiro e o segundo goles do café da m anhã.
— Há pessoas realm ente exageradas — ponderou a sra. Borges, enquanto passava geleia no brioche. — Esse quadro está assim apenas há um a sem ana.
— Um a sem ana parece tem po suficiente para alguém corrigir a posição de um quadro na parede — retrucou o sr. Borges, sorvendo m ais um gole e desdobrando o j ornal.
— Adm itindo-se que assim sej a, em bora a colocação de um obj eto de arte exij a m uitas experiências e tem po indeterm inado de observação e crítica, até que sej a atingido o resultado ideal, presum e-se que a pessoa não satisfeita com a posição de um quadro…
A sra. Borges fez um a pausa para levar aos lábios a fatia de brioche, m astigá-la e engoli-la, concluindo placidam ente:
— … Tom e a iniciativa de m odificá-la para m elhor.
Ao que o sr. Borges em itiu este j uízo:
— A presunção envolve problem a de com petência — e olhou para um ponto indefinido no espaço. — Seria conveniente indagar, de início, a quem , no âm bito de um a residência, com pete cuidar da boa arrum ação das coisas.
A sra. Borges considerou com m inuciosa atenção a colherzinha de prata colocada entre os seus dedos polegar e m édio, com o se am bicionasse descobrir nela um a propriedade oculta, e, ao cabo de m inuto e m eio, m anifestou-se:
— Não existe código especificando os diferentes casos e situações em que determ inada pessoa deva fazer isto ou aquilo. Além do m ais, os conceitos estabelecidos lucrariam em ser revistos à luz da razão.
A página política passou a interessar tão acentuadam ente o sr. Borges que ele levou tem po para dizer:
— De qualquer m aneira, um quadro torto na parede é um quadro torto na parede.
Dos abism os da sua prospecção, a sra. Borges em ergiu trazendo à tona um a restritiva:
— Um quadro torto na parede nem sem pre é um quadro realm ente torto na parede.
Com o o sr. Borges, engolfado na leitura, não obtem perasse, a sra. Borges houve por bem desenvolver o seu ponto de vista:
— O quadro torto na parede pode estar m ais certo do que o quadro convencionalm ente certo na parede.
O sr. Borges não deu sinal de aceitar a tese da sra. Borges nem de repeli-la, e a explanação de sua esposa prosseguiu:
— Há m uitas m aneiras de ver um quadro, com o tam bém há m uitas m aneiras de colocá-lo, inclusive, e tem acontecido em m useus, de cabeça para baixo, com rendim ento óptico.
O sr. Borges virou a página, pigarreou e sentenciou:
— Nem todas as pessoas gostam de plantar bananeira para contem plar norm alm ente um a obra de arte.
O café da m anhã parecia ter duração im previsível, tão vagarosos eram os gestos e repetidas as pausas do sr. Borges e da sra. Borges. Ouviu-se, afinal, a sra. Borges:
— A colocação de um quadro não está subordinada às linhas geom étricas previstas pelo pintor, podendo variar com a sensibilidade visual de quem o desfruta.
O argum ento não pareceu im pressionar o sr. Borges, a j ulgar pelo que saiu do seu interior:
— Nesse caso, os bens desfrutados em com um se suj eitariam a variações sim ultâneas e inconciliáveis, pela diversidade de gostos.
— Há gostos m ais apurados e outros m enos apurados — foi o com entário da sra. Borges.
— Indiscutivelm ente, o quadro está torto, o que não é questão de gosto, m as questão de fato — e o sr. Borges alçou ligeiram ente a voz. — E não há com putadores para avaliação do gosto.
— Desde que ele ficou assim , ganhou um novo sentido — disse a sra. Borges, fixando o olhar, em bevecidam ente, no quadro em questão. — Foi a arrum adeira que o colocou nessa posição, e o efeito benéfico logo se fez sentir. Os volum es se equilibraram m elhor, a com posição ganhou m ais força, o quadro com unica m ais.
— As arrum adeiras tornaram -se peritas em belas-artes e deve ser-lhes confiada a direção dos m useus, ao que parece — foi a glosa do sr. Borges. — Bom proveito a quem lhes seguir a orientação estética.
— Euclides, você está m e ofendendo — irritou-se a sra. Borges.
— Você j á m e ofendera antes — contra-atacou o sr. Borges.
— Esta situação é intolerável, e eu exij o que você m e peça desculpas — soluçou a sra. Borges.
— Não será m elhor, Zuleica, entrarm os am anhã com a petição de desquite? — detonou o sr. Borges.