De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 32 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Nome de boutique

nom e de boutique

 

As três se j untaram para abrir um a boutique na Zona Sul, que j á tem duzentas e cinquenta m il boutiques. Que m al faz ter duzentas e cinquenta m il e um a? Essa vai pegar.

Estão cheias de ideias. “De relâm pagos”, diz Carla. Está na m oda o lenço feito de pano de prato? Vam os lançar o lenço de saco de aniagem , que m achuca m uito m ais. Hora de m achucar.

Beth cuida de produzir o chapéu de praia desenhado pelo Fifinho, seu irm ão m ais j ovem (quinze anos). Chapéu inexistente em cim a, só tem aba, que é de três cores bem espantadas. Com um chapéu desses, a gente protege os olhos e arej a a cuca, um barato.

Milu descobriu que sapatos, sandálias, chinelos e tudo m ais que serve para encadernar os pés sofre de triste m onotonia: o par. Ela inventou o díspar, com feitio e cor diferentes para cada pé. Quentérrim o, pois não?

Novidades assim garantem su trem endo para a boutique. Resta um problem a: nom e. Todos os nom es foram tom ados antes que as três se lem brassem de entrar no com ércio. Aniki Bobó, Lelé da Cuca, Dum ba, Sexy, Obvius, Trapo, Tanaj ura, Chez Elise…

Carla tem um relâm pago:

— Já sei. Vai ser Pty x.

Milu e Beth, um susto:

— Que que é isso?!

— Tirado de um soneto de Mallarm é, suas burras. Quer dizer concha, búzio.

— Difícil de pronunciar — opina Milu.

— Bom , se o negócio é literatura — propõe Beth — eu sou m ais Annabel Lee, de Poe.

— Não dá pé. Lem bra defunto.

— Então Diadorim , do Guim arães Rosa.

— Diadorim j á é lanchonete em Ipanem a e j ornal em Minas.

— Tintim . O “tintim olalá” dos coretos de Diam antina.

— Fica m elhor num bar, né?

E Bigodão, que tal Bigodão? Hoj e é universal. Por isso m esm o, vetado. Boutique pede nom e com segunda ou terceira conotação, fagulha escondida. Druid? Pink? Scup? Dicionário aberto, cachoeira de possibilidades. Milu propõe Zebra. Era o que faltava. Daí a pouco você vai lem brar Coluna do Meio… Laranj a Quadrada é um bom título, vocês não acham ? Ninguém achou. artes & letras

Recorreram a lem branças dom ésticas, baú, gangorra, quintal, castiçal, penico. Penico até que era legal, m as…

— Penico de ágata — insiste Milu.

— De ágata ou de porcelana, dá na m esm a.

Nas lem branças de fam ília, Vó Capitulina teve um voto. Capitu j á é algum a coisa por aí, negativo.

— E Fio Maravalha?

— Maravilha, você quer dizer?

— Agora é a m inha vez de xingar você de analfa. Maravalha é bagatela, e o que que tem num a boutique? Bagatelas. Beth deu um pulo:

— Máfia!

— Tá doida? Isso é nom e sério.

— E daí? Não tem boutique cham ada Sm uggler? Outra cham ada Mescalina?

— Ei, pessoal, e se a gente partisse para um a zorra assim com o Não Vem de Terninho que Eu Já Vou de Topless?

— Cafonice dem ais, Beth. Além de dez quilôm etros.

Vão passar a vida discutindo. É capaz de nem se fazer a boutique, por falta de nom e. Ou por excesso deles. Quando chega o Fifinho, brandindo pasta de colégio, enorm e, e ainda m aior erudição:

— Besteira, gente. A boutique vai se cham ar Butica. Escreve-se com “o”, m as com “u” fica m ais legal. É loj a de varej o, e farm ácia do tem po da vó. Vou pintar as letras: Boutique Butica, e não se fala m ais nisso.

Aprovação geral. Aguardem no Leblon.