De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 43 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Da utilidade dos animais

da utilidade dos anim ais

 

 

Terceiro dia de aula. A professora é um am or. Na sala, estam pas coloridas m ostram anim ais de todos os feitios. É preciso querer bem a eles, diz a professora, com um sorriso que envolve toda a fauna, protegendo-a. Eles têm direito à vida, com o nós, e além disso são m uito úteis. Quem não sabe que o cachorro é o m aior am igo da gente? Cachorro faz m uita falta. Mas não é só ele não. A galinha, o peixe, a vaca… Todos aj udam .

— Aquele cabeludo ali, professora, tam bém aj uda?

— Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de m ontaria e de burro de carga. Do pelo se fazem perucas bacaninhas. E a carne, dizem que é gostosa.

— Mas se serve de m ontaria, com o é que a gente vai com er ele?

— Bem , prim eiro serve para um a coisa, depois para outra. Vam os adiante. Este é o texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo. Parece que é ótim o.

— Ele faz pincel, professora?

— Quem , o texugo? Não, só fornece o pelo. Para pincel de barba tam bém , que o Arturzinho vai usar quando crescer.

Arturzinho obj etou que pretende usar barbeador elétrico. Além do m ais, não gostaria de pelar o texugo, um a vez que devem os gostar dele, m as a professora j á explicava a utilidade do canguru:

— Bolsas, m alas, m aletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente. Não falando na carne. Canguru é utilíssim o.

— Vivo, fessora?

— A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz… produz é m aneira de dizer, ela fornece, ou por outra, com o pelo dela nós preparam os ponchos, m antas, cobertores etc.

— Depois a gente com e a vicunha, né fessora?

— Daniel, não é preciso com er todos os anim ais. Basta retirar a lã da vicunha, que torna a crescer…

— E a gente torna a cortar? Ela não tem sossego, tadinha.

— Vej am agora com o a zebra é cam arada. Trabalha no circo, e seu couro listrado serve para forro de cadeira, de alm ofada e para tapete. Tam bém se aproveita a carne, sabem ?

— A carne tam bém é listrada? — pergunta que desencadeia riso geral.

— Não riam da Betty, ela é um a garota que quer saber direito as coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no açougue, m as posso garantir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser com estível por causa disto. Ah, o pinguim ? Este vocês j á conhecem da praia do Leblon, onde costum a aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só serve para brincar? Estão enganados. Vocês devem respeitar o bichinho. O excrem ento — não sabem o que é? O cocô do pinguim é um adubo m aravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito com a gordura do pinguim …

— A senhora disse que a gente deve respeitar.

— Claro. Mas o óleo é bom .

— Do j avali, professora, duvido que a gente lucre algum a coisa.

— Pois lucra. O pelo dá escovas de ótim a qualidade.

— E o castor?

— Pois quando voltar a m oda do chapéu para hom ens, o castor vai prestar m uito serviço. Aliás, j á presta, com a pele usada para agasalhos. É o que se pode cham ar um bom exem plo.

— Eu, hem ?

— Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encom endar um vaso raro para o living de sua casa. Do couro da girafa, Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade, deixando os pelos da cauda para Teresa fazer um bracelete genial. A tartaruga-m arinha, m eu Deus, é de um a utilidade que vocês não calculam . Com em -se os ovos e tom a-se a sopa: um a de-lí-cia. O casco serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa… O biguá é engraçado.

— Engraçado com o?

— Apanha peixe pra gente.

— Apanha e entrega, professora?

— Não é bem assim . Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o peixe m as não pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.

— Bobo que ele é.

— Não. É útil. Ai de nós se não fossem os anim ais que nos aj udam de todas as m aneiras. Por isso que eu digo: devem os am ar os anim ais, e não m altratá-los de j eito nenhum . Entendeu, Ricardo?

— Entendi. A gente deve am ar, respeitar, pelar e com er os anim ais, e aproveitar bem o pelo, o couro e os ossos.