De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 64 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Caderno Infantil

vam os brincar

 

A m oda de brinquedos para hom em entrou com tal disposição de pegar, que as crianças, em pânico, se interrogam :

— Será que tem os de ganhar a vida, enquanto eles brincam ?

Pois brincar é tão bom , e os adultos se com prazem tanto com os j ogos inventados para eles, que alguns j á abandonaram definitivam ente o trabalho, entregando-se à curtição lúdica, em regim e de tem po integral.

— Me sinto m uito gratificado — confessa m eu vizinho de trinta e cinco anos, que antes m ourej ava na Bolsa (era trabalho de m ouro, diz ele) e só agora percebeu que m ercado de títulos tem m uito de brinquedo: pula, desce, roda, enguiça, torna a rodar… m as funde a cuca.

— O Perclique, não. É criativo, estim ula a expansão do vocabulário, que andava ficando m uito curto, você sabe o que é o português falado hoj e por aí. Acelera a atividade m ental… e não depende de fatores subterrâneos, entende?

Não sei se j á repararam . Em loj a de brinquedos, ultim am ente, só entra adulto. Desacom panhado. Não vai com prar nada para o filho que faz doze anos, é para si m esm o, porque o colega de escritório lhe garantiu que Palito Bol é um a parada.

Uns entram tím idos, disfarçando, não querem proclam ar por enquanto a volta à idade do brinquedo, e m orrem de vergonha se lá dentro está o Herm enegildo, que por sua vez se esconde, ou não se esconde: há tam bém os desinibidos, que trazem a infância redescoberta no rosto, no riso franco, na alegria de terem reconquistado o direito de brincar.

Conheço um que, na gula de aproveitar (j á fez cinquenta anos, e as coisas que eram desim portantes para ele trocaram de valor com as im portantes), tom a descaradam ente os brinquedos dos pequenos, e chega a brigar com eles quando reclam am seus direitos:

— Os direitos são iguais, e além disto eu não tive a infância regalada que vocês têm .

Filhos m ais com preensivos não só perm item o uso de seus aparelhos e j ogos pelos pais, com o até lhes m inistram noções de com o fazer funcionar “esse troço aí”. Sabem que adulto custa m uito a aprender as coisas, carece de espontaneidade, irrita-se, cansa-se facilm ente. É preciso ter paciência com ele. O adulto está apenas com eçando a descobrir o inconveniente de ser adulto.

O m undo, isto é, o hom em anda realm ente fatigado, tem coisas dem ais, problem as e responsabilidades dem ais. Até ser im portante dói. Vam os esquecer tudo isso — diz ele, em m onólogo interior — e aderir à Bola 5. Nada de entretenim entos convencionais nem de em oções extraconvencionais, pois o fenom enal é um de m eus tédios m ais assíduos. E bolas para a fam igerada televisão, que, sendo a cores, se parece dem ais com as revistas ilustradas, que m e enj oam de tanto colorido. O Mahfuz, produtor de TV, está radiante:

— Program a novo, subindo no Ibope?

— Não. É o j ogo da velha, que eu j ogo toda noite, no horário do m eu program a.

Am igos fazem questão de explicar-m e que brinquedo de adulto não tem nada de pueril, foi concebido na escala m ental do hom em . É ainda um esforço de adulto para fazer passar o brinquedo, livrando-se da pecha de infantilism o. Mas vem o garoto ou garota, entra na brincadeira e conta m ais pontos que o velho. Fiau!

Sendo assim , hom ens e m ulheres dispostos a brincar (no sentido puro da palavra), vam os deixar de ser hipócritas, e confessem os que a sedução m aior dos brinquedos é essa m esm o, é serem brinquedos e condizerem com a eterna criança e sua vida ativa. Deixem os de lado as últim as e desm anteladas pretensões à suposta idade da razão, que é quase sem pre desrazão. E adotem os não som ente os j ogos com fum aças cerebrais, que estão na m oda, m as tam bém a am arelinha, o chicote-queim ado, o tem po-será, a gata-parida, ocupações deliciosas que tiram todo o tem po e prazer de guerrear.