De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 25 de 72

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De Notícias e Não Notícias Faz-se a Crônica

Gente

serás m inistro

 

— Esse vai ser m inistro — sentenciou o pai, logo que o garoto nasceu.

— E você, com esse ordenado m ixo de servente, tem lá poder pra fazer nosso filho m inistro? — duvidou a m ãe.

— Então, só porque m eu ordenado é m ixo ele não pode ser m inistro? A Rádio Nacional deu que Abraão Lincoln trabalhava de cortar lenha no m ato e chegou a presidente dos Estados Unidos.

— Isso foi nos Estados Unidos.

— E daí? Nem eu estou querendo tanto pra ele. Só quero um a de m inistro.

— Tonzinho, deixa isso pra lá.

— Pra com eçar, a gente convida o m inistro pra padrinho dele.

— O m inistro não vai aceitar.

— Não vai por quê? Trabalho no gabinete há dois anos.

— Ele é m uito im portante, filho.

— Por isso m esm o. Com padrinho im portante, o garotinho com eça logo a ser im portante.

— O m inistro é tão ocupado, você m esm o diz. Vê lá se tem tem po pra batizar filho de pobre.

— Pois sim . Ele m e trata com toda a consideração, de igual pra igual. Hoj e m esm o eu faço o convite.

Fez. O m inistro não pôde com parecer, m as enviou representante. Era quase a m esm a coisa. Na hora de dizer o nom e do m enino, o pai não vacilou; disse bem sonoro:

— Ministro.

— Com o? — estranhou o padre.

— Ministro, sim senhor.

A m ulher ia atalhar: “Tonzinho, não foi Antônio de Fátim a que a gente com binou?” m as era tarde.

No cartório, tam bém estranharam :

— Ministro por quê?

— Porque eu escolhi. Acho lindo.

— Não é nom e próprio.

— Pois eu cá acho m uito próprio. Não tem aí um a fam ília cham ada Ministério, aliás com pessoas distintas, m édicos, dentistas etc.?

— Tem .

— Pois então. Meu filho é Ministro, só isso. Ministro Alves da Silva, futuro cidadão útil à pátria. Tem algum a coisa dem ais?

O garoto registrou-se. Cresceu. Na escola, a princípio achavam -lhe graça no nom e. Parecia apelido. Depois, o costum e. Há nom es m ais estranhos. Ministro não era o prim eiro da classe, tam bém não foi dos últim os.

Já m oço, o leque das opções não se abriu para ele. Entre o ofício sem brilho e o andar térreo da burocracia, acabou sendo, com o o pai, servente de repartição. Prom ovido a contínuo.

— Eu não disse? — festej ou o pai. — Com eçou a subir.

O m áxim o que subiu foi trabalhar no gabinete do m inistro.

— Ministro, o senhor m inistro está cham ando.

— Ministro, j á providenciou o cafezinho do senhor m inistro?

— Sabe quem telefonou pra você, Ministro? A senhora do senhor m inistro. Diz que você prom eteu ir lá consertar um as goteiras e esqueceu.

— Ministro! Roncando na hora do expediente?!

Com eçaram os equívocos:

— Telefonem a para o Ministro.

— Qual? O Ministro ou o senhor m inistro?

— Esse Ministro é um cretino! Me fez esperar um a hora nesta poltrona!

— Perdão, deputado, o senhor está ofendendo o senhor m inistro.

— Eu? Eu? Estou m e referindo a esse anim al, esse…

Até que se apurasse que o anim al era Ministro, o contínuo — que confusão!

O m inistro de Estado, ciente da confusão, recom endou ao assessor:

— Faça esse hom em trocar de nom e.

— Im possível, senhor m inistro. É o seu título de honra.

— Então sum a com ele da m inha vista.

Mandaram -no para um a vaga repartição de vago departam ento. Queixou-se ao pai, aposentado, que isso de se cham ar Ministro não conduz a grandes coisas e pode até atrasar a vida.

— Ora, m eu filho, hoj e no bueiro, am anhã no Pão de Açúcar. E você não tem de que se queixar. Num m om ento em que tanta gente im portante sua a cam isa pra ser m inistro, e fica olhando pro céu pra ver se baixa um signo do astral, você j á é, você sem pre foi Ministro, de nascença! de direito! E não depende de governo nenhum pra continuar a ser, até a m orte!

Abraçaram -se, chorando.