Jaqueta Branca
Apresentação, por Bruno Gambarotto
Um escritor pressionado pelas circunstâncias
Jaqueta Branca, ou O mundo em um navio de guerra é o quinto
romance de Herman Melville. Escrito durante o verão de 1849 e
publicado em janeiro de 1850, é a obra de um escritor
pressionado pelas circunstâncias de sua vida. A urgência
primeira e mais imediata era financeira. Casado desde agosto de
1847 com Elizabeth Shaw, filha do chefe de justiça do Estado de
Massachusetts, Lemuel Shaw (um dos maiores juristas norte-
americanos daquele século), e já pai do primeiro de seus quatro
filhos, Malcolm, o escritor aborrecia-se com a dependência ao
sogro, da qual pretendia se desfazer com uma bem-sucedida
carreira literária. Esta não lhe trazia menos ansiedade. Embora
fosse autor de quatro romances de considerável porte, sua
estreia remontava a um nada longínquo ano de 1846, quando
veio a lume a narrativa de fundo autobiográfico Taipi, ou
Vislumbres da vida polinésia, seguida, em 1847, por sua
continuação, Omoo: Uma narrativa de aventuras nos Mares do
Sul. O exotismo da distante ambiência polinésia, aliado a um
protagonista (para todos os efeitos, o próprio autor) de postura
astuciosa e observadora — à vontade entre canibais, bucaneiros
e missionários, perspicaz para descrever com precisão e estilo o
estranho modo de vida propiciado pelo contato entre culturas tão díspares — chamaram a atenção da opinião pública e garantiram
os primeiros elogios e polêmicas da vida literária de Melville. A
fama decorrente de ambos os romances acompanharia Melville
por toda a década seguinte. Não raro, publicava-se seu nome
acompanhado da alcunha “Typee Omoo”.
O sucesso da estreia e a influência do sogro serviram-lhe de
cartão de visitas para o ingresso nas melhores rodas literárias de
Boston e Nova York. O resultado do contato do jovem escritor
com importantes literatos da época fez-se imediatamente sentir
em sua escrita, em especial com o editor e bibliófilo Evert
Duyckinck. Talvez a principal liderança literária dos decênios de
1840 e 1850 em Nova York e integrante do grupo nacionalista
Young America, Duyckinck era apenas um pouco mais velho que
Melville, porém conhecido de escritores da geração anterior,
dentre os quais Edgar Allan Poe. A boa biblioteca de Duyckinck
forneceria ao jovem escritor alguns dos volumes decisivos para
sua formação intelectual; já o alinhamento de Duyckinck e seu
grupo com o jornalista John O’Sullivan e a ideologia do Destino
Manifesto o muniriam de um núcleo atualizado de ideias políticas,
dentre as quais (descontado o fundo protestante da doutrina
expansionista, à qual sempre seria crítico) a reforma social, o
republicanismo e, embora não fosse unanimidade no grupo e em
seu círculo nova-iorquino, o abolicionismo. As novas referências
literárias e sociais, porém, não se mostraram auspiciosas: a
pretensão do escritor de produzir um romance filosófico à
maneira de Jonathan Swift (As viagens de Gulliver) e Robert
Burton (A anatomia da melancolia), ambientado numa Polinésia
alegórica — o arquipélago de Mardi, que dá título ao seu terceiro romance, Mardi, ou Uma viagem além (1848) — e protagonizado
por um semideus impostor (o narrador) e por um grupo de
nativos eruditos, capazes de versar sobre moral, política e
história, provou-se um fracasso comercial e crítico. Era preciso
uma pronta resposta, sob o risco de não cumprir com suas
obrigações domésticas e comprometer os bons préstimos do
mercado editorial.
A despeito de sua postura bastante presunçosa em relação a
Mardi1 e do ímpeto arrogante que por vezes manifesta diante de
seus editores,2 Melville toma providências pragmáticas e retoma
o modelo da narrativa de aventuras naquela mesma primavera.
Antecedem o esforço de escrita de Jaqueta Branca as confissões
e reminiscências de um certo Wellingborough Redburn, “filho de
cavalheiro”, em sua primeira viagem a bordo de um navio
mercante: publicado em 1849, Redburn significa um recuo ao
modelo ligeiro que, em Taipi e Omoo, despertara o interesse da
crítica. Dessa vez, contudo, as aventuras — moldadas sob a
perspectiva de um jovem aristocrático em seu percurso de
formação democrática — viriam acompanhadas de uma questão
forte para o público de ambas as costas do Atlântico: a
imigração, em particular de irlandeses vitimados pela miséria,
que começava a mudar as feições da sociedade norte-americana
nos grandes centros urbanos. Embora, com acerto, atribua-se a
rápida idealização de Redburn a seu viés biográfico — afinal,
Melville remonta a sua primeira viagem, em 1838, como aprendiz
de marinheiro a bordo de um navio mercante e replica no
protagonista suas próprias origens familiares —, é importante
notar, no delineamento imediato do enredo, a consciência que o autor conservava dos gostos do público: em lugar da erudição e
da filosofia de Mardi, acompanhadas de debate em alto nível
acerca de questões prementes à época, como a Revolução de
1848 na França, Redburn traz uma significativa (para alguns,
irônica) concessão ao estilo lacrimoso do romance dickensiano,
com o reforço da perspectiva da criança (vide Oliver Twist, citado
em elogiosas resenhas sobre o romance) e seu longo périplo
pelas misérias urbanas, retratadas na zona portuária de
Liverpool. É compreensível que Melville se referisse a Redburn
como seu volume “mendicante”: as bibliotecas dão lugar aos
temas jornalísticos, colhidos a periódicos e rodas de gente
comum; a fantasia extravagante cede ao realismo do relato.
Esse é o fundo de problemas que cerca o breve comentário
que o escritor faz ao sogro — este, bastante empenhado em criar
as melhores condições para a carreira do genro — a respeito de
seu trabalho naquele ano de 1849:
Sobre o senhor ter cuidado das cartas de apresentação mais uma vez, sinto-me mais
do que feliz por elas; e mais uma vez agradeço sua bondade. [...] Quanto a Redburn,
não antecipo recepção de qualquer tipo. Talvez seja considerado um volume de
entretenimento tolerável; talvez seja considerado maçante. Quanto ao outro livro
[Jaqueta Branca], ele decerto será atacado em alguns ambientes. Mas com esses
dois livros não vejo reputação que possa granjear. São dois serviços que fiz por
dinheiro — forçado a tanto como outros homens o são a cortar lenha. E, embora me
tenha sentido obrigado a controlar-me em relação ao tipo de livro que gostaria de
escrever, não me reprimi muito — pelo menos no que lhes toca; falei, sim, muito ao
sabor do que sentia. Enquanto livros, portanto, escritos dessa forma, meu único
desejo para seu “sucesso” (como se diz) salta-me do bolso, não do coração. Tanto
quanto me compete individualmente, e a despeito de meu bolso, é meu mais
profundo desejo escrever aquele tipo de livro que, segundo dizem — perdoe-me o
egotismo —, “fracassa”.3
Em outubro daquele ano, Redburn chegava ao público
britânico por intermédio de Richard Bentley, seu editor inglês;
algumas semanas depois, a Harpers Brothers se encarregaria da
publicação em solo norte-americano. A boa recepção de Redburn
em ambos os lados do Atlântico contraria a postura
ostensivamente adversa de Melville em relação ao volume ao
longo dos meses seguintes. Celebrado por trazer “uma
naturalidade capaz de ganhar a atenção de uma criança” e “uma
reflexão” própria às “mais profundas sondagens do adulto” (The
Literary World, 17 de novembro de 1849), ou ainda por ser obra
“inteira vida”, demonstrando “um poder que o autor, ao pintar os
mais sombrios quadros da vida com lúgubre realidade, nunca
antes expusera” (The Albion, 24 de novembro de 1849), Redburn
surpreende e tranquiliza os críticos de Mardi — servindo, de
quebra, a seu propósito “venal”. Mas Melville viria a saber das
boas novas em sua chegada a Londres, onde desejava negociar
pessoalmente com editores locais a publicação de seu “outro
serviço”.
Jaqueta Branca, o amadurecimento do realismo melvilliano
Hershel Parker, um dos mais importantes biógrafos de Melville,
credita a gênese de Jaqueta Branca ao fim das esperanças nas
vendas e na recepção de Mardi e à incredulidade quanto a
qualquer solução pecuniária que decorresse de Redburn. Melville
animou-se, porém, com a celeridade da produção deste último e
a expectativa de repeti-la — razão pela qual, ainda com as
provas de Redburn em mãos, lança-se à escritura do novo
romance. Com a aceitação da Harpers e o aval de seus editores
norte-americanos para o contato com Bentley, Melville escreve
ao inglês sobre seu novo romance; este, contudo, armara-se de
cautela, provavelmente à espera de um primeiro saldo das
vendas da narrativa recém-publicada. A decisão de viajar à
Inglaterra justificava-se, a princípio, como forma de negociar
diretamente a venda de Jaqueta Branca com o editor de Redburn
ou oferecê-lo a quem por ele se interessasse e lhe pagasse bem;
havia, porém, outros interesses, não se excluindo uma mais
longa viagem pelo Continente. Por fim, o giro europeu incluiu
visitas a Paris e Bruxelas, além de excursões pela própria
Inglaterra, realizadas enquanto aguardava uma resposta de
Bentley. Tão logo esta se concretizou, Melville optou (não sem se
ressentir da decisão) por retornar com os dividendos de viagem a
sua família e trabalho.
À primeira vista, Jaqueta Branca segue o padrão defensivo
estabelecido em Redburn. Mais uma vez, a opinião pública e o realismo dão o tom: o romance traz o relato das experiências do
gajeiro Jaqueta Branca a bordo do navio de guerra USS
Neversink durante os meses de retorno da embarcação aos
Estados Unidos, deixando o porto de Callao, no Peru, com
destino a Nova York. Como no caso do livro anterior, Melville
recobra fatos da própria vida — aqui, sua viagem a bordo do
USS United States, navio de guerra norte-americano em que se
engajara como segundo marinheiro (então designado à guarda
de popa) em seu regresso de Honolulu, onde desertara do
baleeiro australiano Charles & Henry, a Boston. Diferentemente,
porém, do primeiro romance, cuja experiência pessoal se faz
notar apenas a amigos e familiares, uma nota introdutória à
narrativa de Jaqueta Branca esclarece a questão:
No ano de 1843, embarquei como “segundo marinheiro” numa fragata americana,
então ancorada em porto do oceano Pacífico. Depois de servir a bordo dessa fragata
por mais de um ano, fui dispensado tão logo a nau aportou ao destino final. Minhas
experiências e observações como marinheiro de um navio de guerra foram
incorporadas ao presente volume.
A versão inglesa da nota é menos lacônica. Ali, somos
informados de que, não obstante o fundo de experiência, o
presente volume não é um “diário de viagem”, nem seu objetivo
outro senão o de “pintar a vida geral na Marinha”, com fidelidade
aos fatos legais e cotidianos, o “endosso das maiores
autoridades” e a consulta a testemunhos dos episódios verídicos
mencionados. A sobriedade dos comentários e o desejo de
esclarecer o que seja de fato e de ficção soa resposta tardia às
polêmicas que cercaram seus dois primeiros romances. John
Murray, primeiro editor inglês de Melville, responsável pela
coleção de literatura documentária em que saíram, na Inglaterra, Taipi e Omoo, jamais se convencera plenamente da veracidade
do narrado em ambos os livros e, procurado durante a estada de
Melville em Londres, recusara Jaqueta Branca. Decorrentes ou
não do desagravo em relação ao editor, os comentários acabam
por revelar o amálgama de referências discursivas e documentais
de que o livro é feito. Se, por um lado, “pintar a vida geral na
Marinha” recupera a ideia de uma obra de ficção, à qual
concorrem artifícios representativos, o recurso a autoridades
navais e ao testemunho de envolvidos em conhecidos episódios
de alto-mar adiantam a variedade da nova narrativa: de um lado,
a exposição de leis e costumes da Marinha remontará à pesquisa
bibliográfica e à reflexão exegética consagradas em Mardi; de
outro, os fatos terão a consistência do registro de homens do
mar, a partir dos quais a prosa realista ganha corpo pelo
verossímil e verdadeiro.
No que concerne ao trabalho discursivo que, desde a estreia
de Melville, atravessava o terreno movediço da verdade e da
verossimilhança, o esclarecimento tem uma função mais forte do
que a insistência na dubiedade e libera a prosa do romance para
o trabalho declarado com uma realidade que, textualmente, se
manifesta em formas heterogêneas. Tal realidade, a exemplo do
caso de Redburn, pauta-se pelos debates públicos. Em lugar do
tema da imigração, aborda-se uma questão pontual que, em
anos recentes, rendera calorosos discursos no Congresso e na
imprensa local: a manutenção da disciplina a bordo dos navios
de guerra norte-americanos mediante recurso ao azorrague.
Esse era um ponto precioso no horizonte mais amplo da reforma
da Marinha nacional, discussão de pelo menos duas décadas que, no campo político, visava ao aumento da eficiência do
serviço militar via alistamento voluntário de recrutas nascidos nos
Estados Unidos. Autoridades militares e de Estado alegavam que
o uso do azorrague contrariava todos os esforços de atrair
“homens livres” à Marinha — o que, por si, demonstra
reconhecimento público do peso simbólico do açoitamento como
expediente de punição do escravo, imagem que o narrador de
Melville também explora. A reforma naval incidia diretamente
sobre a figura tradicional do marinheiro e replicava um
movimento reformista mais amplo da sociedade norte-americana:
as tentativas de expurgo do vício, do crime e da imoralidade dos
conveses implicavam o mesmo cultivo da autodisciplina e a
internalização de códigos de conduta de que se ocupavam
autoridades e instituições em relação às consequências da
miséria urbana. A veemência com que o protagonista convoca a
reforma (“as severas admonições da justiça e da humanidade
exigem sua abolição [do açoitamento] sem demora”) ecoava o
adiantado do debate: em 28 de setembro de 1850 (ou seja, nove
meses depois da publicação do volume), o uso punitivo do
azorrague e outros instrumentos de açoitamento seria proibido a
bordo das fragatas norte-americanas.
A ideologia reformista impregna todos os pormenores da
narrativa de Redburn: ela tinge a “revelação democrática” de que
o aristocrático protagonista é acometido e, por meio deste, lança
luzes piedosas e indignadas à pobreza dos trabalhadores do mar
e à miséria que atravessava o Atlântico em condições
desumanas para proliferar, sob as formas da violência, da fome e
do alcoolismo, nos bairros mais pobres de Nova York. Em Jaqueta Branca, a reforma não implica somente a palavra moral
do antecessor Wellingborough Redburn, para o qual a conversão
à democracia basta para que o mundo desvele à experiência sua
verdadeira ordem. Embora os traços reformistas se apresentem
na caracterização imediata do protagonista — um homem
temente a Deus, sóbrio, obediente, industrioso e
autodisciplinado, tal como os reformadores navais idealizavam
em suas entidades filantrópicas (American Seaman’s Friend
Society) e periódicos (The Sailor’s Magazine) — e da
marinhagem, com seus inúmeros exemplos de vício,
determinantes para o recolhimento defensivo do protagonista em
face de tudo que o cerca, a reforma já não determina o trabalho
literário e crítico de Melville. Em Redburn, ela é, da perspectiva
do narrador que confessa e relembra (ao melhor estilo
agostiniano), um fato do espírito e implica adesão ideológica pura
e simples — em última análise, uma fé, que modula toda a
recuperação do passado, centrada no momento da conversão. O
modelo reformador de Jaqueta Branca, por sua vez, incide na
perspectiva racionalizante do narrador: nele, a democracia
americana, mesmo em sua face mais eivada de puritanismo (e
que o narrador por vezes reproduz ao melhor estilo retórico do
Destino Manifesto), se intelectualiza e busca, na materialidade do
discurso legal e da organização social como um todo, um ponto
de análise e reflexão sem que este, porém, submeta
terminantemente a matéria da vida a sua confirmação. Na
realidade laboriosamente representada por Jaqueta Branca a
moralização e a compreensão abstrata das forças que movem a
vida e as iniquidades do convés convivem com o desejo e o prazer da vida em sua variedade caótica. Assim, Melville dá azo
a uma anatomia, com seu interesse intelectual específico na
exploração minuciosa dos pormenores de um corpo; porém,
diferentemente do destino do marinheiro submetido aos saberes
do médico-cirurgião a bordo do Neversink, é imperativa a
preservação da vida. No pêndulo entre experiência e
reflexividade que caracteriza Jaqueta Branca, Melville estrutura
um narrador que, em linhas gerais, prefigura Moby Dick e seu
protagonista, Ismael, se não pela perspectiva demoníaca da
catástrofe do Pequod, pelo empenho de saberes variados no
entendimento distanciado e pormenorizado de uma realidade
que, não obstante, é vivida.
É da tensão entre essas duas perspectivas que o convés surge
como espaço narrativo da literatura madura de Melville. Embora
fosse conhecido como um escritor do mar, é tardio o interesse de
Melville pelo convés de seus navios: em Taipi, tal espaço é
praticamente ignorado; em Omoo, será por alguns capítulos
povoado de marinheiros destemperados para por fim se tornar
palco de um motim — episódio que se pretende típico e introduz
a aventura que leva o protagonista ao Taiti e a mais uma rodada
de observações da vida polinésia; em Mardi, o mesmo espaço é
preterido pelo “sentimento e a filosofia” de que se ocupa o
simpósio imaginário. O “recuo” de Melville aos temas reformistas
representa o momento em que o escritor atenta ao convés e a
suas potencialidades ficcionais; no entanto, apenas em Jaqueta
Branca este se revela um espaço social, com as contradições e
atividades que lhe são inerentes. Para tanto, Melville assume as
lições de uma literatura do mar bastante específica: a dos relatos de oficiais da Marinha e, sobretudo, de marinheiros comuns que
procuravam denunciar as más condições de trabalhos e os
abusos nos mais diversos conveses. A partir do estudo e
apropriação da literatura documentária de autores hoje
esquecidos, como Samuel Leech (Trinta anos longe de casa),
Nathaniel Ames (Quadros de um marinheiro) e Henry James
Mercier e William Gallop (A vida num navio-de-guerra), Melville
compõe a voz de Jaqueta Branca na perspectiva do homem “ao
pé do mastro”, do trabalhador do mar. Isso implica, sobretudo,
um olhar ao trabalho — isto é, à atividade do marinheiro e aos
objetos que a cercam. Como em nenhum outro romance náutico
de Melville, temos um protagonista imerso no universo material
do marinheiro; deste decorre a profusão de vergas, vergônteas,
rizes, enfrechates, ovéns, cabrestantes, cabos fixos e de laborar,
amarras, malaguetas, mesas de guarnição e tantos outros
instrumentos que servem à manobra e manutenção do navio,
descritos à medida que Jaqueta Branca expõe os fatos que os
cercam.
Neste romance, Melville tematiza pela primeira vez o trabalho:
é a partir dele que se desenvolve a voz moral que separa a
marinhagem e o oficialato, bem como os homens exemplares e
os viciosos na concretude da experiência. O descaso da grande
maioria dos oficiais começa pelo simples fato de ignorarem a
faina do marujo; já os vícios deste impedem que o trabalho seja
executado a contento e acarretam perigos à tripulação como um
todo. Eficiência, temperança e bom comando formam um
horizonte ideológico reformista que lança alguma sombra aos
aspectos subversivos da narrativa; porém, é importante que se note a visada abstrata do trabalho enquanto construção social —
isto é, como categoria em que a ignomínia e o vício se encontram
em decorrência da estruturação legal da vida no convés. A
análise das estruturas de poder marca a postura reflexiva de
Jaqueta Branca e determina o encadeamento de seus quadros
navais, nos quais se revela um protagonista consciente dos usos
de seu instrumento narrativo, consciente da palavra e de seu
peso político, postando-se em posição de enfrentamento do
discurso oficial. O realismo que se pratica em Jaqueta Branca é
de alto nível: indo além da literatura documentária — repletas de
fatos e testemunhos, porém circunscrita à denúncia do convés e
pouco atenta a seus próprios meios discursivos —, o
protagonista ataca, de um lado, a base social dos problemas de
bordo e, de outro, as ideias e enredos preconcebidos que dão
forma ao gênero, no sentido da construção de uma narrativa
crítica.
Vale frisar que Melville escreve no contexto da escravidão e,
mesmo sendo um crítico desta e da opressão às chamadas
“classes baixas” — como explicita em Jaqueta Branca e
em Benito Cereno, seu romance seguinte —, faz uso de
expressões correntes à época, que, a nosso ver, devem ser lidas
nesse contexto.
Sobre o convés, a cidade
Entre os testemunhos de uma realidade difícil e o regimento de
uma poderosa instituição de Estado recém-saída de uma
campanha vitoriosa — a da Guerra Mexicano-Americana (1846-
48), primeiro passo da consolidação dos Estados Unidos como
potência imperialista no continente —, Melville constrói um
romance de andamento fundamentalmente urbano. O
protagonista encontra jurisprudência para tanto na própria
relação de contiguidade entre convés e cidade, lugar-comum
presente em tom autoelogioso em narrativas do oficialato, como
Dois anos e meio na Marinha, de Enoch Cobb Wines, e
explorada sob a perspectiva das tragédias urbanas pelos
reformadores; não é, contudo, por meio da caridade e da
demagogia que a relação se constrói:
A bem da verdade, um navio de guerra é uma cidade flutuante, com longas avenidas
onde se veem canhões no lugar das árvores e inúmeras vias umbrosas, gramados e
trilhas desusadas. O convés principal é uma grande praça, parque ou campo de
marte, com um enorme olmo, como o de Pittsfield, sob a forma do mastro principal,
numa ponta, e o palácio da cabine do Comodoro, na outra.
Ou ainda, um navio de guerra é uma cidade elevada, cercada de muralhas e
ocupada por exércitos, como Quebec, onde os passeios públicos são em sua maioria
trincheiras, e os pacíficos cidadãos cruzam sentinelas armadas a cada esquina.
Ou ainda é como um prédio de apartamentos em Paris, porém de cabeça para
baixo — sendo o primeiro andar, ou convés, alugado por um lorde; o segundo, por
um seleto grupo de cavalheiros; o terceiro, por multidões de artesãos; e o quarto, por
uma turba de gente comum.
Pois é exatamente assim uma fragata, onde o comandante tem uma cabine inteira
e o espardeque para si, os lugares-tenentes têm a praça-d’armas logo abaixo, e a
massa de marinheiros balança em suas macas abaixo de todos.
E com suas longas fileiras de portinholas, cada qual revelando o focinho de um
canhão, um navio de guerra lembra uma casa de três andares nalguma parte mal-
afamada da cidade, com um porão de profundidade indefinida e sujeitos mal-
encarados à espreita nas janelas.
A , a cidade em Jaqueta Branca é o modo de olhar
a coletividade a bordo. A passagem em destaque não sugere
apenas uma abordagem metaforicamente urbana dos problemas
de bordo. Note-se que a analogia entre navio e cidade nunca se
realiza por completo: uma vez estabelecida a imagem, o
protagonista imediatamente a substitui por outra — a bem da
verdade, a sequência ensina que o navio, como a cidade, sempre
excede a imagem que lhe confira identidade. Cidade austera ou
sitiada, indicando o convívio difícil entre classes ou ainda
moradia de gente duvidosa, a imagem do navio de guerra parece
trazer uma importante lição sobre o romance urbano: a
impossibilidade de uma experiência total ou imediata da cidade.
Não se trata de noção pouco consequente para o andamento do
romance: a perspectiva reformista propunha a relação entre
navio e cidade unicamente pelo prisma dos vícios e de sua
correção com vistas à manutenção disciplinar (e autoritária) da
boa sociedade, e não o reconhecimento de um indivíduo que,
autônomo em seus interesses e realizações, vive a cidade
apenas sob a medida material e contingente de suas relações,
estas passíveis apenas abstratamente de redução ao todo. Ao
reconhecer o navio como espaço de uma sociedade cujas
desigualdades são próprias a modelos de troca e convívio que
determinam as leis para, por meio delas, garantirem sua
reprodução, o protagonista tira o foco da reforma enquanto ação unilateral, voltada à reconfiguração de um corpo de leis
disciplinares sem qualquer questionamento institucional. O
interesse de Jaqueta Branca na sociedade a bordo — interesse
de romancista, consciente das parcialidades de sua mirada,
porém empenhado na organização de um quadro adequado à
apresentação de alguns de seus motivos e destinos mais gerais
— não é questão de somenos em relação ao projeto comercial
do volume. Por vezes, veremos o reformista dar lugar a um
sujeito de pretensões políticas mais vigorosas.
A relação tensa entre a ideologia reformista e a perspectiva do
protagonista apresenta-se em diferentes momentos do romance.
Noutra passagem, vemos como suas águas se misturam:
A Marinha é asilo para o pervertido, lar para o desafortunado. Aqui, os filhos da
adversidade encontram a prole da calamidade, e aqui a prole da calamidade
encontra o rebento do pecado. Reúnem-se aqui corretores falidos, engraxates, fura-
greves e ferreiros; enquanto funileiros, relojoeiros, copistas, sapateiros, doutores,
agricultores e advogados, todos perdidos de suas próprias vidas, comparam
experiências e conversam sobre os velhos tempos. Náufragos de uma praia deserta,
os homens da tripulação de um navio de guerra poderiam rapidamente erguer e
fundar uma Alexandria por si próprios e provê-la de tudo quanto concorra à invenção
de uma capital.
As duas primeiras frases modelam-se ao tom dramático e
paternalista dos panfletos políticos dos reformadores. No entanto,
outra postura se destaca da sequência, em que os marinheiros
ganham nova identidade: mais do que gente socialmente
fragilizada, são homens de variadas histórias e ofícios urbanos,
todos reduzidos à fantasmagoria de uma vida que não se pode
realizar no espaço específico do navio. Entretanto, em vez de
aceitar a uniformização sob a forma do crime e do trabalho e
concentrar-se na análise do convés, com o consequente rebaixamento de tantas vidas particulares sob a figura do
marinheiro — no sentido proposto por Jaqueta Branca,
praticamente uma abstração legal, dadas as muitas e singulares
experiências que a palavra esconde —, Jaqueta Branca promove
uma notável inversão: descartada a sóbria subserviência que o
reformismo sugeria aos marinheiros, o protagonista prefere
observar neles e em sua formação a potencial fundação de um
corpo político.
A partir da linguagem metafórica e evocativa com que Jaqueta
Branca transita entre tempos, espaços e personagens histórica e
socialmente as mais diversas, constrói-se a urbanidade que tanto
sucesso teve na pena de autores como Eugène Sue, Edgar Allan
Poe e Honoré de Balzac. Como na narrativa seminal de Sue, Os
mistérios de Paris, o método reflexivo de Jaqueta Branca visa a
uma perspectiva abrangente das classes a bordo do navio:
trocando o disfarce do herói de Sue pela simples e mais factível
discrição, cabe ao protagonista transitar pelos mais distintos
espaços do navio, e pelas classes e grupos que os ocupam, para
revelar-lhes uma realidade que, por estarem alheios uns dos
outros, não compartilham. A missão não é simples: como na
Londres de “O homem da multidão”, de Poe, escondem-se no
convés delimitado por Jaqueta Branca os furtivos, mínimos e
particulares interesses e acidentes que a ânsia de saber e
classificar — inerente à lei marcial, que tudo submete a suas
prescrições — transforma em crime. Todos se escondem na
turba de homens e destinos estranhos entre si; todos por
princípio fogem ou escapam aos calabouços e às prescrições da
lei, cujas formas se impõem às relações sociais. Destas, pouco resta para além dos jogos de força e do utilitarismo. Neste ponto,
o protagonista de Melville nos leva a Balzac e a outra Paris — a
de A menina dos olhos de ouro, com “a tintura quase infernal” de
suas personagens, suas “tribos” e “máscaras” de alegria, miséria,
hipocrisia, fraqueza ou poder mobilizadas por uma abstração — o
binômio “Ouro ou prazer?”, em Melville convertido nos Artigos de
Guerra que, sob a pena de punição física ou morte, governam a
multidão inominável.
Da anatomia da sociedade a bordo deriva a apresentação dos
“mistérios e misérias do Neversink”, para ficarmos com fórmula
cara a essa literatura; estes, no entanto, lavados da moralidade
autoritária e controladora que marca a perspectiva do oficialato,
não são outra coisa senão a dura matéria da vida em que
Jaqueta Branca conhece seu conflito. Oscilando entre a
indignação reformadora e o prazer pitoresco dos quadros, o
protagonista desvela seu próprio drama, simbolicamente
concentrado no traje — a jaqueta — feito de uma brancura que
indica autopreservação, porém fragilidade; salvaguarda, porém
solidão; distanciamento analítico, porém ao custo da experiência.
Confeccionada pelo próprio gajeiro, a jaqueta representa um viés
a ser adotado pelo narrador: antes de tudo, serve de metáfora a
sua narrativa, que se faz da astúcia de quem promove
“metamorfoses” a partir dos materiais de que dispõe
(transformando, por exemplo, navios em cidades) e se protege
das intempéries à vista, sejam elas o mau tempo ou as más
intenções de quem o cerque. Não são poucos, porém, os
problemas dela decorrentes:
Ensopada e pesada, que fardo era carregar aquela jaqueta por toda parte,
principalmente quando me mandavam para o topo do mastro; arrastando-me ao alto,
pouco a pouco, como se estivesse içando uma âncora. Não havia tempo para tirá-la
e torcê-la na chuva; não se permitia atraso ou hesitação. Não, isso não; para cima,
gordo ou magro, Lambert ou Edson, não importa o peso que carregue. E assim, por
intermédio de minha própria pessoa e sem ferir as leis da natureza, foram muitas as
chuvas que reascenderam aos céus.
Sem conseguir impermeabilizá-la (o roubo pelos marinheiros
do material necessário tornara-o inacessível ao honesto
protagonista), a porosidade converte a astúcia em fragilidade e
faz com que a jaqueta passe a representar, entre os vários e por
vezes cômicos incidentes que a cercam, o questionamento sobre
os perigos de uma narrativa absorver seu material a ponto de
confundir-se com ele. Em que medida a necessidade de ordem
inerente à narrativa realista não reproduz os constrangimentos
que a lei impõe à marujada? A lição de Poe quanto à ansiedade
do saber, que converte em crime a indefinição de seu objeto,
parece convocada quando, na outra ponta do romance, Jaqueta
Branca retoma a imagem da água como resposta dura ao ridículo
reascender das chuvas. “Existe uma fábula sobre um pintor
convencido por Júpiter a pintar a cabeça de Medusa. Como a
imagem fosse fiel à vida, o pobre artista adoeceu diante da visão
do que seu lápis forçado desenhara. Assim, levando a cabo
minha tarefa, minha própria alma agora se afoga naquilo que
retratei.” Como os momentos finais do romance revelam, a
jaqueta conhece uma última metamorfose: da morte faz-se a
vida, que permeia estas páginas.
A narrativa de Jaqueta Branca não se entrega à representação
do navio — ela própria não é o navio, tampouco sua sociedade e
seus conflitos. Sendo em primeira pessoa, e vivendo o protagonista dois tempos — o dos acontecimentos e o do próprio
narrar —, o perigo da Medusa converte-se na autoconsciência e
na fuga ao fracasso de uma narrativa que não se afirme
criticamente em face de seu objeto. Como mostra o momento da
confecção do traje, este jamais esconderá suas costuras, nem a
reunião de materiais díspares que o trabalho e a reflexão
submetem; em última instância, a jaqueta é contrapartida da
inteligência e da luta pela liberdade e, sob a consciência de sua
própria variedade reunida — ou seja, enquanto invenção —, de
uma objetividade atenta a seus processos.
Melville na baía de Guanabara
Jaqueta Branca é o mais escancaradamente político dos
romances de Melville. Político no sentido de jamais esconder as
forças que tensionam o tecido narrativo. Reformismo e revolução,
repressão e empoderamento democrático, republicanismo e
imperialismo, liberdade e escravidão — o que se mostra como a
própria encruzilhada do experimento social que funda o país
converge no açoitamento e na luta por melhores condições de
trabalho e carreira para os marinheiros do serviço naval norte-
americano. As contradições que acabam por integrar a
construção do volume não se esgotam ao seu término; pelo
contrário, Jaqueta Branca chega a seu fim sob um elogio
democrático incapaz de esconder a própria perplexidade diante
das sombras que cobriam sua sociedade; estas se transmitirão a
seu irmão fáustico, Ismael, e ao universo apocalíptico de Moby
Dick, no qual as contradições do percurso norte-americano se
concentram na mais forte das personagens de Melville, o capitão
baleeiro Ahab, cujos modos e pensamentos se analisam sob o
signo da catástrofe. O valor de Jaqueta Branca no processo que
levaria Melville a sua obra-prima é inegável: nascem no convés
do Neversink (o “inafundável”) as questões insolúveis inerentes à
loucura de Ahab e ao afundamento do Pequod.
Nestas linhas gerais sobre o romance que espera o leitor,
muito ainda ficou por dizer. No entanto, para o público brasileiro,
não se podia deixar de comentar os 26 capítulos (do 39 ao 65) de permanência do Neversink no ancoradouro da baía de
Guanabara. Melville não se revela um observador alheio à nossa
vida nacional. Diferentemente de tantos estrangeiros que
passaram, com brevidade maior ou menor, pelo país àquelas
alturas recém-independente, para lhe anotar os costumes e
produzir ciência, sabe-se que Melville não permaneceu mais do
que uma semana na costa brasileira, em meados de agosto de
1844, quando o USS United States aportou no Rio de Janeiro
para abastecimento; ademais, nada digno de menção consta no
diário de navegação da fragata norte-americana quando
fundeada ali além do aproveitamento que o próprio autor faz do
momento e das circunstâncias. Daí que o período de
permanência do navio na costa brasileira, repleto de ação e
comentário, seja interessante para que se observe o tipo de
trabalho ficcional e reflexivo que Melville imputa a seu
protagonista.
Se Melville, o autor, conheceu de perto a antiga capital do
Império, não nos foi dado saber;4 de qualquer forma, ainda que
tivesse sido o caso, caberia a Jaqueta Branca as vezes de
estraga-prazeres. A parada no Brasil dá ensejo ao reforço de seu
projeto narrativo:
Permanecemos no Rio de Janeiro algumas semanas, recebendo preguiçosamente
mantimentos a serem estocados e preparando a viagem de retorno. No entanto,
embora o Rio de Janeiro seja uma das mais magníficas baías do mundo; embora a
própria cidade tenha muitos admiráveis interesses; e embora muito se possa dizer
sobre as alturas do Pão de Açúcar e da colina do Sinal; sobre a Pedra de Lúcia; a
ilha das Cobras, fortificada [...] — embora muito possa se dizer sobre tudo isso, devo
abster-me e concentrar-me, se me permitem, em meu único objeto de fato, o mundo
num navio de guerra.
A convicção temática tem razão de ser, e parte do projeto de
um relato livre dos lugares-comuns da ficção popular e da
ideologia que cercam a vida do marinheiro e a imagem da
Marinha: tanto quanto concerne à contranarrativa de Jaqueta
Branca, a recusa de relatar acontecimentos em terra firme diz
respeito à tentativa de manter o eixo programático do romance.
Num sentido bastante próprio, Jaqueta Branca é um romance
de tese. Alerta-nos o protagonista: “creio que, no que toca àquilo
que se chama reputação militar, a Marinha americana não carece
de elogio, mas de História”. A recuperação dos dias de
permanência do USS Neversink no Rio de Janeiro presta-se a
tanto. A ver pelo quadro da baía que Jaqueta Branca coloca
como uma litogravura diante do leitor, não faltariam belos sítios à
aventura da marinhagem; no entanto, a imagem do marinheiro
destemido não passava de contrapartida romântica do homem
vicioso que a retórica reformista buscava denunciar e corrigir. As
duas pontas do espectro ideológico encontravam-se, por sua vez,
numa só posição de deferência às estruturas do poder — neste
particular, desde James Fenimore Cooper, que em romances
históricos como O piloto e O corsário vermelho estabelece
importantes balizas literárias para o gênero da narrativa náutica
norte-americana, as aventuras de alto-mar não raro traziam em
seu bojo o elogio do empreendimento marítimo nacional: estava
nos mares o campo de batalha final em que a nova nação
americana derrotaria a antiga metrópole para se consagrar como
grande império.
Além de as ações dos marinheiros de Melville não dourarem a
pílula do império, a chegada do USS Neversink na baía de Guanabara introduz o assunto sob outras formas:
Contemplem o Neversink sob nova luz. Com todos os seus canhões, jaz tranquilo no
ancoradouro, cercado de fragatas inglesas, francesas, holandesas, portuguesas,
brasileiras, todas surtas nas profundas águas verdes, tendo a sotavento aquela
massa rochosa oblonga e acastelada, a ilha das Cobras, que, com suas portinholas
e elevados mastros de bandeira, parece outro navio de guerra, de ferros lançados a
meio caminho do porto. Mas o que é o forte numa ilha senão um aterro bélico que
adentra o mar saído das Quebecs e Gibraltares do mundo? E o que um forte de terra
firme é senão alguns conveses de um navio de batalha transplantados para a costa?
Eles são todos um — todos, como o rei Davi, navios de guerra desde o berço.
Contemplem o Neversink ancorado, em muitos aspectos apresentando aparência
diversa da que ostentava no mar. Nem a rotina da vida a bordo é a mesma.
A presença norte-americana na baía denuncia a presença das
forças de outras nacionalidades, discretamente vigiadas pela
insuspeita ilha fortificada, transformada em navio de guerra à
força do quadro a um só tempo alegre e tenso que forma o
encontro internacional no ancoradouro. Embora o protagonista
não se entregue aos divertimentos que lhe reservava a narrativa
imperialista, a paisagem não deixa dúvidas quanto à relevância
do tema. A baía fará as vezes de anfiteatro para importantes
momentos da tripulação. Ali, Jack Chase — o capitão da gávea e
marinheiro modelar (além de leitor de Camões) — advogará
perante o comando do navio pela licença à marinhagem,
finalmente concedida; do mesmo modo, ali ocorrerão importantes
episódios de corrupção: a do meirinho, Bland, em cuja autoridade
se esconde o contrabando de bebida; a da marinhagem, que
entende liberdade como licenciosidade e retorna ao convés
alcoolizada, dando vazão à raiva e ao ressentimento contidos
contra o Estado-maior; a do cirurgião, o mórbido Cutícula,
quando diante do ferimento à bala na perna de um marinheiro; e a do comodoro, cujos caprichos exibicionistas diante do cordame
levam à invalidez de um bom marujo. A permanência em mares
brasileiros parece apenas sublinhar os interesses republicanos
do protagonista — algo como o reforço do empoderamento
consciente e responsável dos marinheiros, dos quais deve por
fim emanar a lei, em lugar do concerto oligárquico dos impérios,
sob os quais o trabalhador perde o prumo. Explica a tese um
segundo momento forte em terras brasileiras: a visita de d. Pedro
e sua comitiva de nobres à fragata.
Afora o cuidado relativo de Melville com referências ao
imperador — como sua idade, aparência e mesmo a menção
absolutamente plausível ao casamento de uma de suas irmãs —,
a presença deste diante do comodoro serve de apoio ao projeto
contranarrativo de crítica às instituições navais. O comodoro e d.
Pedro colocam-se diante um do outro como imperadores — o
primeiro, da esquadra de um Estado de pretensões imperialistas;
o segundo, de um Estado que se intitulava como tal. A
equiparação de ambos os homens, pautada pelas vestes — o
chapeaux-de-bras e a espada do Estado ao flanco —, tem a
medida do poder que representam. Para figurá-lo, Jaqueta
Branca recorrerá aos escravos do batelão do Imperador (“que, à
maneira brasileira, erguiam-se concertadamente com seus remos
a cada esforço, descendo em seguida a seus postos num gemido
simultâneo”), cujos movimentos e labor racionalizado suscitam no
protagonista um olhar antes dedicado aos trabalhadores do
convés. A tensão da equiparação entre marinheiros e escravos
— ambos regidos pelo açoite e por um aviltamento que, no que
toca aos negros da embarcação, implica da parte do narrador a reprodução do jargão racista corrente na sociedade norte-
americana de então — e entre os poderes que se encontram terá
ressonância na marinhagem e, em especial, num gajeiro,
Jonathan:
“Imagino que aquele velho cavalheiro”, disse um jovem marinheiro da Nova
Inglaterra ao meu lado, “ia achar uma grande honra vestir as botas de Sua
Majestade Real; mas olha, Jaqueta Branca, se aquele imperador ali e eu tirássemos
a roupa e caíssemos na água prum banho, ia ser difícil dizer qual dos dois tem
sangue real debaixo d'água. Ei, d. Pedro”, acrescentou ele, “diz aí como você virou
imperador? Diz aí. Você não é capaz de puxar o tanto de peso que eu puxo nas
adriças da vela de sobrejoanete; você não é tão alto quanto eu; seu nariz parece de
cachorro; o meu é uma quilha; e como você pode ser um Matança com esse par de
remos finos? Um Matança, pois sim!”
“Bragança, você quis dizer”, comentei, disposto a corrigir a intrépida retórica do
republicano e, desse modo, refinar-lhe a crítica.
Suscitada pela presença do imperador, a violência provocativa
de Jonathan — nome típico que designava os voluntários da
região de Boston à época da Revolução — assinala, de modo
geral, o posicionamento dos trabalhadores em relação ao
comando da embarcação, mas pretende denunciar os modos
nada diplomáticos do poder norte-americano. “Ei, imperador...
seu balconista de quinta!... Levanta esse seu olho de gajeiro aqui
pra cima e veja gente superior a você! Escutem, gajeiros, ele não
é imperador nenhum... eu sou o verdadeiro imperador”,
prossegue Jonathan, dando fim às didáticas imposturas da
gávea, em que mesmo o trabalhador eventualmente reproduz a
ideologia dominante — afinal, o “império da liberdade” norte-
americano, no qual todo um continente se curvava ao “povo
escolhido”, não passava de justificativa para as ações antirrepublicanas de um poder que justamente se constituíra
contra uma autocracia monárquica.
Se d. Pedro serve de ilustração para o poder do comodoro e,
de um modo geral, para as pretensões do Estado norte-
americano, a paisagem local fluminense é recuperada com vistas
a um contraste. No que toca à natureza, sua principal função é a
de servir de contraponto aos horrores do cabo Horn. Se a
travessia do cabo Horn, que separa os oceanos Atlântico e
Pacífico no extremo sul do continente, é manifestação de um
poder natural a impor-se sobre quaisquer arbítrios humanos,
estabelecendo o limite natural entre a astúcia e a estultícia, entre
a grandeza e a mediocridade, entre a boa e a má liderança
(assuntos decorrentes dos capítulos a ele dedicados, logo após a
primeira introdução às relações de poder no interior da
embarcação), a baía de Guanabara se apresenta como sua
manifestação benigna; sua descrição — não diversa das
grandezas mobilizadas para a descrição do temível cabo —
coloca mais uma vez a natureza, se não como elemento alheio
aos artifícios e arbitrariedades da civilização, pelo menos como
régua para os atos benfazejos de uma razão que se compartilha
como a própria condição do humano. Na descrição do grande
“anfiteatro” da baía, a exemplo do tratamento dado ao cabo Horn,
Melville explora a perspectiva sublime da natureza que, no futuro,
marcará toda a narrativa de Ismael em Moby Dick. Trata-se da
natureza que, desfeitos os véus de civilizações e culturas,
manifesta-se nos homens a despeito de sua origem e é
mobilizada em seus feitos. Em Jaqueta Branca, ela ainda será
assimilada à figura de um Deus de bondade, grande comodoro da nau capitânia do planeta Terra, dentro da qual os homens
deverão conter seus ímpetos revoltosos com vistas à salvação.
O desvelar da baía de Guanabara em sua beleza natural
prefigura, na narrativa, a resistência de uma força mística
supostamente legítima (uma vez que ampara a lei) e conciliadora
(pois irmana os homens); dessa forma, acaba por ser a própria
imagem da calmaria que antecede a tormenta. No convés do
Neversink, esta se manifesta, à maneira prosaica das
experiências marujas, nas cruéis arbitrariedades a que os
marinheiros são submetidos na parte final de seu torna-viagem
aos Estados Unidos. Apenas a bordo do Pequod e sob o
comando de Ahab os marinheiros de Melville se erguerão contra
tudo que se lhes interponha à realização absoluta e catastrófica
de seu poder — seja uma baleia, seja o próprio Deus.
B G
Bruno Gambarotto é doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada ( - ) e tradutor de autores consagrados das literaturas norte-americana e inglesa, como Walt Whitman, Herman Melville, Louisa May Alcott, Nathaniel Hawthorne, Harriet Beecher Stowe, Edith Wharton, Aldous Huxley e Mary Shelley.
Concebei-o agora num navio de guerra, munido da
carta de corso,1 bem armado, abastecido e
equipado, e atentai a seus atos.
“O ”, F 2