Jaqueta Branca
12. O bom ou o mau gênio dos marinheiros de um navio de guerra, em grande parte atribuível a seus postos específicos e funções a bordo do navio
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O bom ou o mau gênio dos marinheiros de um navio
de guerra, em grande parte atribuível a seus postos
específicos e funções a bordo do navio
P , , era representativo de
uma classe a bordo do Neversink bastante interessante para ser
deixada à popa, sem qualquer comentário, na esteira veloz
destes capítulos.
Como se viu, Palmeta era cheio de incontáveis caprichos; era,
ademais, um senhorzinho mal-humorado, amargo, intragável e
inflamável. Assim também eram todos os membros da divisão de
artilharia, incluindo os dois subchefes do artilheiro e todos os
seus serventes. Todos tinham a mesma pele marrom-escura,
seus rostos mais pareciam peças de presunto defumado. Eles
passavam quase todo o tempo grunhindo e resmungando em
meio às peças, correndo de um lado para o outro entre canhões,
afastando os marinheiros das armas, e lançando imprecações e
maldições como se suas consciências se tivessem crestado em
pólvora e se tornado calosas por costume do ofício. Era um
grupo de homens bastante desagradável; em especial Escorva,
um dos subchefes, de voz fanha e lábio leporino; e Cilindro, seu
assistente gago de pés tortos.85 Mas você sempre vai notar que
a divisão de artilharia de todo navio de guerra é invariavelmente composta de homens mal-humorados, feios e briguentos.
Quando, certa feita, visitei um navio de linha de batalha
britânico,86 a divisão de artilheiros ia de um lado para o outro,
lustrando suas baterias, as quais, em respeito ao capricho do
almirante, tinham sido pintadas de branco como neve. Correndo
nervosamente entre os imensos canhões de trinta e duas libras e
dirigindo comentários ferinos aos marinheiros, quando não os
desferiam entre si, lembraram-me um enxame de vespas negras
zunindo em torno de fileiras de túmulos brancos num adro de
igreja.
Ora, não deve restar muita dúvida quanto ao fato de que
permanecer por tanto tempo em meio aos canhões é o que torna
o grupo dos artilheiros tão intratável e briguento. Houve ocasião,
para nosso grande prazer, em que isso se provou verdadeiro a
toda a companhia da gávea maior. Um ótimo companheiro de
gávea, um dos mais alegres e gregários do grupo, teve a
oportunidade de ser promovido ao posto de servente de
artilheiro. Poucos dias depois, alguns de nós, homens da gávea
maior, seus velhos conhecidos, saímos para visitá-lo, enquanto
ele fazia uma de suas rondas regulares pelos canhões sob sua
responsabilidade. Contudo, em vez de nos saudar com sua
costumeira alegria e contando suas boas piadas, para nosso
divertimento, não fez muito mais que grunhir; e por fim, quando
nos queixamos de seu mau humor, tomou de um longo soquete
negro e levou-nos ao convés principal, ameaçando nos denunciar
se voltássemos a tratá-lo com intimidade.
Concluíram meus companheiros de gávea que a espantosa
metamorfose era efeito produzido sobre uma personalidade fraca e sem valor, subitamente elevada do nível da marujada comum à
nobre posição de oficial subalterno. Não obstante eu tenha visto
tais efeitos produzidos sobre alguns membros da tripulação, em
casos similares, fato é que neste eu sabia que não era isso; a
razão era unicamente sua relação com aqueles vis, irritadiços e
mal-humorados canhões; e, mais especialmente, por ele estar
sujeito às ordens daqueles dois deformados bacamartes,
Escorva e Cilindro.
A verdade parece ser, de fato, que todas as pessoas deveriam
ser bastante cuidadosas ao eleger seus ofícios e atividades;
muito cuidadosas em se certificar de que se acercam de objetos
alegres e de aspecto agradável; bem como de sons
tranquilizadores e harmoniosos. Mesmo os pendores angelicais
não estão livres, amiúde, de pontas cortantes como as de uma
serra; da mesma forma, muitas doces correntes de compaixão
azedam no coração das pessoas com a má escolha de uma
profissão e a ausência de paisagens aprazíveis em torno de si.
Os jardineiros são pessoas de diálogo quase sempre afável;
cuidado, porém, com os subchefes de artilharia, os vigilantes de
arsenal e os solitários guardas de farol. E embora seja possível
notar, de modo geral, que as pessoas que habitam arsenais e
faróis tentam cultivar uns poucos vasos de flor ou uns poucos
pés de repolho em hortas, de modo a manter, quiçá, alguma
alegria em seus espíritos; o resultado é sempre nulo — pois estar
em meio a canhões e mosquetes faz com que os botões das
primeiras embolorem; e, ademais, como os repolhos poderiam
prosperar num solo cujo húmus advém das quilhas destruídas de
naus afundadas?
A qualquer homem que, por uma infeliz e já inapelável escolha
de profissão, sinta o próprio humor azedar, há de ser conselho
válido tentar contrapor essa infelicidade enchendo seus
aposentos de paisagens felizes e sons agradáveis. No verão, é
possível colocar uma harpa eólica em sua janela sem que isso
lhe custe muito; uma concha marinha pode permanecer sobre o
aparador da lareira, para ser levada ao ouvido e acalmá-lo com
seu contínuo acalanto, sempre que se sentir acometido de um
ataque de tristeza. Para os olhos, recomenda-se uma poncheira
alegremente pintada ou uma caneca holandesa — não se
preocupe em enchê-la. Esta poderia ser colocada num suporte
na parede. Para dirimir o tédio, serão igualmente de boa
serventia uma concha de prata, um galheteiro de mesa decorado,
uma imponente garrafa de vinho — enfim, qualquer coisa que
cheire a comes e bebes. Mas talvez o melhor de tudo seja uma
prateleira de livros alegremente encadernados contendo
comédias, farsas, canções e romances alegres. Não é preciso
abri-los; apenas tenha os títulos aos olhos. Para tanto, O
peregrino Pickle é um bom livro; assim como Gil Blas e
Goldsmith.87
Mas, dentre toda a mobília de quarto que existe no mundo, o
melhor para curar maus humores e cultivar os bons é a visão de
uma bela esposa. Se tem filhos em fase de dentição, contudo, é
mister que ela e a criança permaneçam o mais afastadas
possível, de preferência no andar superior da casa — no mar, tal
lugar seria a gávea do mastro de gata. Crianças em fase de
dentição são o diabo para o humor de um pai de família. Conheci
três pais de família promissores completamente destruídos nas mãos de suas mulheres por conta de crianças em tal condição,
cuja inquietação calhou de piorar à época por causa da gripe
intestinal.88 Com o coração em frangalhos e o lenço aos olhos,
segui esses três jovens e infelizes pais de família, um após o
outro, no caminho de seus túmulos prematuros.
Cenas de fofoca alimentam fofoca. Quem mais linguarudo que
atendentes de hotel, mulheres feirantes, leiloeiros, donos de bar,
farmacêuticos, repórteres, amas e todos os que vivem em
multidões alvoroçadas ou estão presentes a cenas de linguarudo
interesse?
A solidão alimenta a melancolia; isso todos sabem; quem mais
taciturno que a raça dos escritores?
Uma quietude interior forçada em meio a grande comoção
exterior enseja pessoas rabugentas. Quem mais rabugento que
um guarda-freios de ferrovia, um condutor de barco a vapor, um
timoneiro ou um encarregado de tear mecânico num moinho de
algodão? São pessoas que precisam manter a paz enquanto
trabalham, deixando que as máquinas tagarelem à vontade sem
se permitir uma sílaba que seja.
Essa teoria da assombrosa influência de sons e panoramas
habituais sobre o temperamento humano foi sugerida por minhas
experiências a bordo de nossa fragata. E embora tome o
exemplo fornecido por nossos subchefes de artilharia — e, em
especial, aquele que outrora fora nosso companheiro de gávea
— como de longe o mais forte argumento em favor da teoria
geral; fato é que todo o navio estava repleto de exemplos dessa
verdade. Que homens eram mais progressistas, altivos, alegres,
agradáveis, flexíveis, corajosos, dados ao divertimento e à galhofa, do que os homens das gáveas de proa, de gata e do
mastro principal? A razão de sua disposição progressista era que
se lhes ordenava diariamente que vagassem com liberdade pelo
cordame. E a razão de sua altivez de espírito era que
permaneciam nas alturas, acima dos tumultos menores, das
preocupações irritantes e insignificâncias do convés abaixo.
E estou convencido, no mais íntimo de minha alma, de que se
deve a eu ter sido gajeiro do mastro principal, e, em especial, ter
estado lotado na verga mais alta da fragata, a verga de
sobrejoanete grande, o fato de, neste momento, ser capaz de
oferecer um relato livre, amplo, direto, panorâmico e, mais do que
tudo, imparcial sobre nosso mundo flutuante; nada escondendo;
nada inventando; tampouco adulando ou ferindo quem quer que
seja; mas distribuindo a todos — comodoro ou aspirante
mensageiro — seu quinhão preciso de descrições e
merecimentos.
A razão da jovial alegria desses homens de gávea era que
sempre estavam com os olhos voltados ao azul infinito, ondulado,
sorridente e ensolarado do mar. Não menciono, em sentido
inverso ao desta teoria, os dias tempestuosos, quando o rosto do
oceano se fazia negro e sombrio, e alguns de nossos homens
ficavam mal-humorados e preferiam sentar-se a sós. Pelo
contrário, isso apenas reforça o que afirmo. Pois mesmo em terra
firme são muitas as pessoas naturalmente alegres e de coração
feliz que, sempre que os ventos outonais começam a soprar e
rugir por entre as chaminés, ficam imediatamente impacientes,
irritadiças e aborrecidas. O que é mais suave do que uma boa e velha cerveja? O trovão, porém, tornará amargo mesmo o melhor
malte já fermentado.
Os fiéis do porão de nossa fragata, os trogloditas, que viviam
em subsolos repletos de alcatrão e nas cavernas de sob a
coberta das macas, eram, em sua indiscutível maioria, homens
soturnos de perspectivas bastante amarguradas do mundo; um
deles era um amistoso calvinista.89 Enquanto os veteranos da
âncora d’esperança, que passavam seu tempo sob a brisa
revigorante do mar e à luz do sol que domina o castelo de proa,
eram livres, generosos, caridosos e repletos de boa vontade para
com toda a marujada; embora alguns deles, para dizer a
verdade, se revelassem tristes exceções — as quais, porém,
sempre provam a regra.
Os rancheiros da coberta das macas, os varredores e
responsáveis pelas escarradeiras — os chamados “fixos” em
todas as divisões da fragata, a popa e proa — formavam um
grupo de raciocínio bastante estreito e alma retraída; o que se
deve, sem dúvida, a suas aviltantes funções. Isso se mostrava de
forma ainda mais evidente nos casos dos abomináveis faxineiros
noturnos e limpadores de fossa, os ignóbeis poceiros.
Os membros da banda marcial, em número de dez ou doze e
que nada tinham para fazer, exceto manter a limpeza de seus
instrumentos, executar alguma alegre ária vez por outra e agitar
a circulação inerte nas veias entorpecidas do pobre e velho
comodoro, eram o mais jubiloso grupo de rapazes que já se viu
na vida. Eram portugueses embarcados nas ilhas de Cabo Verde,
em ocasião da viagem de ida. Faziam suas refeições juntos;
formando um grupo de convivas cuja alegria durante um jantar não seria superada nem mesmo por um grupo de jovens homens
recém-casados, absolutamente satisfeitos com os negócios
celebrados, uma vez colocados à prova.
Mas o que os deixa, agora, tão cheios de alegria? O que,
senão seu alegre ofício, melodioso e marcial? Quem poderia ser
um sovina infeliz e tocar um flajolé? Ou vil e desalmado,
soprando vivamente pelas almas de mil soldados sua trombeta
de latão? Talvez ainda mais eficaz na manutenção da leveza da
banda fosse o pensamento reconfortante de saberem que, caso
o navio entrasse em ação, estariam excluídos dos perigos de
batalha. Nos navios de guerra, os membros da “música”, como a
banda é chamada, são em geral não combatentes; e mui amiúde
embarcam sob o entendimento expresso de que, tão logo a nau
entre na linha de tiro dos canhões de um inimigo, é deles o
privilégio de entocar-se no paiol de massame ou na carvoaria do
navio. O que demonstra que são gente inglória, porém à qual não
falta bom senso.
Veja os barões da praça-d’armas — lugares-tenentes,
comissário do almoxarife, oficiais-fuzileiros, mestre de navegação
—, todos eles cavalheiros de semblante frio e narizes de corte
aristocrático. Por que isso? Quem pode negar que, depois de
terem por tanto tempo vivido no mais elevado da carreira militar,
servidos por uma multidão de camareiros e empregados servis, e
desde sempre acostumados a mandar a torto e a direito, quem
pode negar ser essa a razão de seus narizes terem se tornado
finos, pontudos, aquilinos, aristocraticamente cartilaginosos?
Mesmo o velho Cutícula, o cirurgião, tinha um nariz romano.
Mas eu nunca fui capaz de explicar a razão de nosso
encanecido primeiro lugar-tenente ser um tanto penso; quero
dizer, um de seus ombros era desproporcionalmente caído. E
quando percebi que praticamente todos os primeiros lugares-
tenentes que vira noutros vasos de guerra, além de muitos
segundos e terceiros lugares-tenentes, eram igualmente tortos,
entendi que devia existir alguma lei geral responsável pelo
fenômeno; e empenhei-me em desvendá-la como um problema
de interesse. Por fim, cheguei à conclusão — que ainda sustento
— de que usar por tanto tempo uma só dragona (pois é apenas a
uma que sua patente os qualifica) era a chave infalível para tal
mistério. E, quando se reflete sobre o fato tão conhecido de que
muitos lugares-tenentes do mar chegam à velhice e à
decrepitude sem alcançar o posto de capitão e receber as duas
dragonas que lhes devolveriam o devido equilíbrio dos ombros, a
razão acima mencionada não parecerá descabida.