Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 83 de 101

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Jaqueta Branca

80. O último ponto

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O último ponto

 

P , dois homens da divisão do

mestre-veleiro se aproximaram, cada qual com um lampião,

trazendo um pouco de lona, duas balas de canhão, agulhas e

retrós. Eu sabia o que fariam; pois, num navio de guerra, o

coveiro é o veleiro.

Eles colocaram o corpo no convés e, depois de adequar a lona

a ele, sentaram-se de pernas cruzadas como alfaiates, cada um

de um lado, e, com seus lampiões diante de si, puseram-se a

costurar, como se remendassem uma vela usada. Ambos eram

homens de idade, de cabelo e barba grisalhos e rostos

enrugados. Pertenciam à reduzida classe de veteranos que, por

seus longos e fiéis serviços anteriormente prestados, são

mantidos na Marinha mais como pensionistas sob uma merecida

recompensa do que qualquer outra coisa. São responsáveis por

serviços leves e simples.

“Num é ele o gajeiro do traquete, o Shenly?”, perguntou o que

estava mais à frente, fitando o rosto inerte diante de si.

“É, Cabo de Arganéu, é ele mesmo”, disse o outro, erguendo

bem a mão com um fio longo, “acho que é ele. Encontrou agora

uma gávea bem alta, espero, mais alta que a do mastro de

traquete. Mas só espero; acho que num acabou de todo pra ele!”

“Mas essa carcaça aqui vai logo desaparecer da vista de todo

mundo escotilha abaixo, Coxim”, respondeu Cabo de Arganéu,

colocando duas balas de canhão ao pé da mortalha de lona.

“Num sei disso, meu velho; nunca costurei um marujo que num

me assustou despois. Escuta o que eu tô dizendo, Cabo de

Arganéu, esses morto é tudo muito vivo. Cê acha que eles

afunda, mas cê mal passa por cima deles e eles sobe de novo.

Eles perde o número do rancho, e os companheiro de rancho

dele guardam as colher dele; mas não… num adianta, Cabo de

Arganéu; eles num morre. Tô dizendo, dez âncora de proa das

melhor não faz afundar esse gajeiro aqui. Logo ele vai tá na

esteira das trinta e nove assombração que me ronda toda a noite

na rede… pouco antes de chamarem a modorra. Ninguém me

agradece pelo que eu trabalho; tudo eles fica com cara de

desgosto, com uma agulha de veleiro no nariz. Ando pensando

aqui, Cabo de Arganéu, tá tudo errado com esse último ponto

que a gente dá. Pode acreditar, eles num gosta… nenhum deles

gosta.”

Eu estava recostado num canhão, atento aos dois velhos

marinheiros. O último comentário fez-me lembrar de uma

superstição geralmente praticada pela maioria dos coveiros do

mar nessas ocasiões. Decidi que, se pudesse evitá-lo, tal

costume não se aplicaria aos restos de Shenly.

“Coxim”, disse eu, avançando na direção do último a falar,

“você está certo. Esse último ponto que você dá na lona é a

razão de os fantasmas seguirem você, como diz, pode ter

certeza. Portanto, não faça isso com esse pobre marinheiro, eu lhe peço. Experimente ver, pelo menos uma vez, o que acontece

se não o fizer.”

“Que você diz pro jovem, ô velho?”, perguntou Coxim,

erguendo o lampião na direção do rosto enrugado de seu

companheiro, como se procurasse decifrar um pergaminho

antiquíssimo.

“Sou contra essas tal de inovação”, disse Cabo de Arganéu.

“Esse último ponto é uma tradição antiga; deixa eles tudo

confortável, viu? Duvido se eles ia dormir tranquilo se num fosse

por isso. Não, não, Coxim! Sem inovação… num quero saber

disso. Vou dá o último ponto!”

“Magina que era você mesmo que ia se costurar, Cabo de

Arganéu… você ia querer o último ponto? Você é um canhão das

antiga, homem; num vai aguentar muito mais tempo na frente da

portinhola”, disse o velho Coxim, enquanto suas próprias mãos

endurecidas tremiam sobre a lona.

“Fale por você, velho”, retrucou Cabo de Arganéu, curvando-se

à luz para passar o retrós na agulha tosca, trêmula em suas

mãos secas e enrugadas como a agulha na bússola de um navio

da Groenlândia que se aproximasse do polo. “Você num vai

aguentar esse serviço mais tempo, não. Antes eu pudesse dá pra

você um pouco do sangue das minhas veia, velho!”

“Você num tem nem uma colherinha sobrando”, disse Coxim.

“Num vai ser bom, e eu num queria fazer isso; mas acho que

num vai demorar pra eu costurar você!”

“Me costurar? Eu morto e você vivo?”, ganiu Cabo de Arganéu.

“Ora, escutei o pastor lá na Indepedência falar o quanto a velhice

era triste; mas até essa noite nunca tinha dado conta de que ele tava falando a verdade. Tô triste por você, meu velho… de ver

como você sabe pouco das coisa, enquanto a Morte todo esse

tempo fica se deitando e levantando com você mundo afora feito

companheira de maca.”

“Tá mentindo, velho!”, bradou Coxim, tremendo de raiva. “É

você que tem a Morte de companheira de maca; é você que logo,

logo vai deixar a chaleira de bala mais vazia.”

“Engole o que você disse!”, devolveu Cabo de Arganéu,

rispidamente, esticando-se sobre o cadáver e, com a agulha em

mãos, ameaçando seu companheiro com o punho trêmulo.

“Engole o que você disse, ou eu mesmo vou fechar essa porcaria

de respiradouro que você tem!”

“Caramba, meus camaradas, será que cês num tem

educação? Brigando desse jeito em cima de um homem morto!”,

exclamou um dos subchefes do mestre-veleiro, descendo do

espardeque. “Vamos, vamos!… Acabem com esse negócio!”

“Só mais um ponto”, murmurou Cabo de Arganéu, encolhendo-

se na direção do rosto.

“Larga a linha, então, e deixa o Coxim terminar; vem comigo…

a esteira da vela principal precisa de reparo… e a gente tem que

fazer isso antes do vento voltar. Escutou, amigo? Eu disse para

largar e vir comigo.”

Diante da ordem reiterada, Cabo de Arganéu se levantou e,

voltando-se para o companheiro, disse: “Esquece o que eu disse,

Coxim, e me desculpa, também. Mas por favor, dá o último ponto;

se você não fizer isso, num sei o que pode acontecer”.

Assim que o subchefe e seu ajudante partiram, eu me

aproximei discretamente de Coxim. “Não faz… não faz, Coxim… acredita em mim, é errado!”

“Bom, jovem, vou deixar esse aqui sem isso dessa vez; e se,

depois disso, ele não me assustar, só vão dá o último ponto por

cima do meu cadáver, ou num me chamo Coxim.”

Desse modo, sem a mutilação,397 os despojos foram

colocados entre os canhões, a bandeira novamente os cobriu, e

eu voltei ao meu assento na caixa de munição.