Jaqueta Branca
80. O último ponto
80
O último ponto
P , dois homens da divisão do
mestre-veleiro se aproximaram, cada qual com um lampião,
trazendo um pouco de lona, duas balas de canhão, agulhas e
retrós. Eu sabia o que fariam; pois, num navio de guerra, o
coveiro é o veleiro.
Eles colocaram o corpo no convés e, depois de adequar a lona
a ele, sentaram-se de pernas cruzadas como alfaiates, cada um
de um lado, e, com seus lampiões diante de si, puseram-se a
costurar, como se remendassem uma vela usada. Ambos eram
homens de idade, de cabelo e barba grisalhos e rostos
enrugados. Pertenciam à reduzida classe de veteranos que, por
seus longos e fiéis serviços anteriormente prestados, são
mantidos na Marinha mais como pensionistas sob uma merecida
recompensa do que qualquer outra coisa. São responsáveis por
serviços leves e simples.
“Num é ele o gajeiro do traquete, o Shenly?”, perguntou o que
estava mais à frente, fitando o rosto inerte diante de si.
“É, Cabo de Arganéu, é ele mesmo”, disse o outro, erguendo
bem a mão com um fio longo, “acho que é ele. Encontrou agora
uma gávea bem alta, espero, mais alta que a do mastro de
traquete. Mas só espero; acho que num acabou de todo pra ele!”
“Mas essa carcaça aqui vai logo desaparecer da vista de todo
mundo escotilha abaixo, Coxim”, respondeu Cabo de Arganéu,
colocando duas balas de canhão ao pé da mortalha de lona.
“Num sei disso, meu velho; nunca costurei um marujo que num
me assustou despois. Escuta o que eu tô dizendo, Cabo de
Arganéu, esses morto é tudo muito vivo. Cê acha que eles
afunda, mas cê mal passa por cima deles e eles sobe de novo.
Eles perde o número do rancho, e os companheiro de rancho
dele guardam as colher dele; mas não… num adianta, Cabo de
Arganéu; eles num morre. Tô dizendo, dez âncora de proa das
melhor não faz afundar esse gajeiro aqui. Logo ele vai tá na
esteira das trinta e nove assombração que me ronda toda a noite
na rede… pouco antes de chamarem a modorra. Ninguém me
agradece pelo que eu trabalho; tudo eles fica com cara de
desgosto, com uma agulha de veleiro no nariz. Ando pensando
aqui, Cabo de Arganéu, tá tudo errado com esse último ponto
que a gente dá. Pode acreditar, eles num gosta… nenhum deles
gosta.”
Eu estava recostado num canhão, atento aos dois velhos
marinheiros. O último comentário fez-me lembrar de uma
superstição geralmente praticada pela maioria dos coveiros do
mar nessas ocasiões. Decidi que, se pudesse evitá-lo, tal
costume não se aplicaria aos restos de Shenly.
“Coxim”, disse eu, avançando na direção do último a falar,
“você está certo. Esse último ponto que você dá na lona é a
razão de os fantasmas seguirem você, como diz, pode ter
certeza. Portanto, não faça isso com esse pobre marinheiro, eu lhe peço. Experimente ver, pelo menos uma vez, o que acontece
se não o fizer.”
“Que você diz pro jovem, ô velho?”, perguntou Coxim,
erguendo o lampião na direção do rosto enrugado de seu
companheiro, como se procurasse decifrar um pergaminho
antiquíssimo.
“Sou contra essas tal de inovação”, disse Cabo de Arganéu.
“Esse último ponto é uma tradição antiga; deixa eles tudo
confortável, viu? Duvido se eles ia dormir tranquilo se num fosse
por isso. Não, não, Coxim! Sem inovação… num quero saber
disso. Vou dá o último ponto!”
“Magina que era você mesmo que ia se costurar, Cabo de
Arganéu… você ia querer o último ponto? Você é um canhão das
antiga, homem; num vai aguentar muito mais tempo na frente da
portinhola”, disse o velho Coxim, enquanto suas próprias mãos
endurecidas tremiam sobre a lona.
“Fale por você, velho”, retrucou Cabo de Arganéu, curvando-se
à luz para passar o retrós na agulha tosca, trêmula em suas
mãos secas e enrugadas como a agulha na bússola de um navio
da Groenlândia que se aproximasse do polo. “Você num vai
aguentar esse serviço mais tempo, não. Antes eu pudesse dá pra
você um pouco do sangue das minhas veia, velho!”
“Você num tem nem uma colherinha sobrando”, disse Coxim.
“Num vai ser bom, e eu num queria fazer isso; mas acho que
num vai demorar pra eu costurar você!”
“Me costurar? Eu morto e você vivo?”, ganiu Cabo de Arganéu.
“Ora, escutei o pastor lá na Indepedência falar o quanto a velhice
era triste; mas até essa noite nunca tinha dado conta de que ele tava falando a verdade. Tô triste por você, meu velho… de ver
como você sabe pouco das coisa, enquanto a Morte todo esse
tempo fica se deitando e levantando com você mundo afora feito
companheira de maca.”
“Tá mentindo, velho!”, bradou Coxim, tremendo de raiva. “É
você que tem a Morte de companheira de maca; é você que logo,
logo vai deixar a chaleira de bala mais vazia.”
“Engole o que você disse!”, devolveu Cabo de Arganéu,
rispidamente, esticando-se sobre o cadáver e, com a agulha em
mãos, ameaçando seu companheiro com o punho trêmulo.
“Engole o que você disse, ou eu mesmo vou fechar essa porcaria
de respiradouro que você tem!”
“Caramba, meus camaradas, será que cês num tem
educação? Brigando desse jeito em cima de um homem morto!”,
exclamou um dos subchefes do mestre-veleiro, descendo do
espardeque. “Vamos, vamos!… Acabem com esse negócio!”
“Só mais um ponto”, murmurou Cabo de Arganéu, encolhendo-
se na direção do rosto.
“Larga a linha, então, e deixa o Coxim terminar; vem comigo…
a esteira da vela principal precisa de reparo… e a gente tem que
fazer isso antes do vento voltar. Escutou, amigo? Eu disse para
largar e vir comigo.”
Diante da ordem reiterada, Cabo de Arganéu se levantou e,
voltando-se para o companheiro, disse: “Esquece o que eu disse,
Coxim, e me desculpa, também. Mas por favor, dá o último ponto;
se você não fizer isso, num sei o que pode acontecer”.
Assim que o subchefe e seu ajudante partiram, eu me
aproximei discretamente de Coxim. “Não faz… não faz, Coxim… acredita em mim, é errado!”
“Bom, jovem, vou deixar esse aqui sem isso dessa vez; e se,
depois disso, ele não me assustar, só vão dá o último ponto por
cima do meu cadáver, ou num me chamo Coxim.”
Desse modo, sem a mutilação,397 os despojos foram
colocados entre os canhões, a bandeira novamente os cobriu, e
eu voltei ao meu assento na caixa de munição.