Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 67 de 101

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Jaqueta Branca

64. Os troféus de um navio de guerra

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Os troféus de um navio de guerra

 

E manobrado entre navios,

deixando aqui e ali os cirurgiões a bordo de suas respectivas

fragatas — como um bote que distribuísse pilotos na boca do

ancoradouro —, foram muitos os navios de guerra estrangeiros

pelos quais passou; dois deles, porém, um inglês e um francês,

suscitaram muitos comentários a bordo do Neversink. Eram

fragatas que não raro soltavam velas e manobravam vergas ao

mesmo tempo que nós, como desejassem comparar a eficiência

das respectivas tripulações.

Estávamos praticamente prontos para partir quando a fragata

inglesa, içando âncora, encheu velas com a brisa do mar e

começou a exibir sua velocidade, vogando por entre todos os

navios de guerra no ancoradouro e, particularmente, passando

bem junto à popa do Neversink. Todas as vezes que se

aproximava, nós cumprimentávamos a embarcação fazendo

descer nossa bandeira um pouco; e, invariavelmente, ela

devolvia o cumprimento com cortesia. Fomos por ela convidados

a uma corrida de fragatas; e circularam rumores de que, quando

deixássemos a baía, nosso capitão não faria objeções ao convite;

pois, que se diga, o Neversink era tido como a mais veloz embarcação de quilhas a navegar sob uma flâmula larga. Talvez

fosse essa a razão de os estrangeiros nos terem desafiado.

Pode ser que parte de nossa tripulação estivesse mais ansiosa

para competir com essa fragata devido a uma pequena

circunstância que alguns marinheiros julgavam muito irritante. A

poucos cabos de distância da cabine de nosso comodoro estava

a fragata President, com a cruz vermelha de são Jorge

tremulando sobre o mastro. Como sugeria o nome, a bela

embarcação era americana de nascimento; no entanto, fora

capturada durante a última guerra com a Grã-Bretanha e, então,

velejava pelos mares de sal como um troféu.

Pensem nisso, meus intrépidos conterrâneos, sem exceção,

vocês que vivem na costa e nas margens infinitas dos rios Ohio e

Columbia — pensem na dor pungente que sentíamos, nós,

patriotas do mar, ao contemplar o carvalho das Flóridas e os

pinheiros do verde Maine transformados nos costados de

madeira da Velha Inglaterra. Porém, para alguns dos

marinheiros, havia um pensamento em contrapartida tão grato

quanto o outro era aborrecido, e esse era que, em algum lugar,

velejando sob as estrelas e as listras,321 estava o vaso

Macedonian, embarcação de origem britânica que outrora

ostentara a bandeira de batalha dos ingleses.

Sempre foi costume gastar o dinheiro que fosse no conserto de

uma embarcação capturada para que ela pudesse sobreviver

longo tempo e comemorar o heroísmo do conquistador. Assim,

na Marinha britânica, havia muitos monsieurs de setenta e quatro

peças tomados dos gauleses. Nós, americanos, podemos exibir poucos troféus similares; ficaríamos, porém, muito felizes de

fazer o mesmo.

Mas nunca contemplei nenhum desses troféus flutuantes sem

me recordar de uma cena que testemunhei num vilarejo de

pioneiros na margem oeste do Mississippi.322 Não distante desse

vilarejo, onde as feiras se armavam sobre os tocos de árvores

aborígenes, havia alguns anos vivia parte das tribos

remanescentes dos índios sioux,323 que frequentemente

visitavam os assentamentos dos brancos para comprar tecidos e

ornamentos de pouco valor.

Num rubro entardecer de julho, quando o sol escaldante descia

como um obus de fogo, e eu estava parado numa esquina,

vestindo meu traje de caçador — oh! —, surgiu a passos

pesados, do oeste escarlate, um índio enorme, ereto como um

pinheiro, com seu reluzente tomahawk,324 tão grande quanto um

machado, apoiado no peito num repouso marcial. Soturnamente

envolto em seu cobertor e caminhando como um rei no palco, ele

ia de um lado para o outro nas ruas rústicas, exibindo nas costas

de seu cobertor uma multidão de mãos humanas, toscamente

desenhadas em vermelho; uma delas parecia bem recente.

“Quem é esse guerreiro?”, perguntei. “E por que está aqui?

Qual é a razão dessas mãos em sangue?”

“Esse é Carvão Incandescente”, disse um pioneiro de

mocassim ao meu lado. “Está aqui para exibir seu último troféu;

cada uma dessas mãos atesta um inimigo escalpelado por seu

tomahawk; e ele acaba de sair da oficina do Ben Brown, o pintor,

que desenhou a última mão que você está vendo; porque, na noite passada, Carvão Incandescente reduziu a pó e cinza o

Tocha Amarela, o chefe de um bando de foxes.”325

Pobre selvagem, pensei; essa é a razão de sua altiva

caminhada? Você se empertiga ao pensar que cometeu um

assassinato, quando a queda fortuita de uma pedra teria

produzido o mesmo efeito? É digno de orgulho demolir um metro

e oitenta de humanidade imortal, não obstante essa elevada torre

viva precise de talvez trinta bons verões para chegar à

maturidade? Pobre selvagem! Acha, portanto, tão glorioso mutilar

e destruir o que o próprio Deus levou mais de um quarto de

século construindo?

E, no entanto, meus irmãos cristãos, o que são a americana

Macedonian e a britânica President senão duas mãos em sangue

pintadas no cobertor do pobre selvagem?

Estaria a lua livre de morávios, já que nenhum missionário

jamais visitou este nosso pobre planeta pagão, para civilizar a

civilização e cristianizar a cristandade?326